Hiroyuki Ito/The New York Times
Hiroyuki Ito/The New York Times

John Corigliano reúne peças de músicos mortos pela Aids em concerto

Compositor fez tributo com a Orquestra Filarmônica de Nova York

Joshua Barone, The New York Times

08 de junho de 2019 | 16h00

O que o compositor John Corigliano mais lembra da crise da Aids é o olhar de terror no rosto dos amigos quando recebiam o diagnóstico. “Todos estavam com medo”, disse ele numa entrevista recente. “Você via um amigo morrer e ficava imaginando se seria o próximo. Os músicos foram enormemente afetados.”

Corigliano escreveu sua Sinfonia Nº 1 em tributo àqueles que a Aids levou. A Orquestra Filarmônica de Nova York executou a obra, lançada em 1990, no dia 1.º de junho como parte de sua série de fim de estação Música de Consciência. 

No final da noite, a Filarmônica apresentou um de seus Nightcap Concerts (“concertos para antes dormir”), destinados a dar uma visão da mente de compositores vivos – no caso, Corigliano, que montou uma programação incluindo obras de cinco colegas mortos no auge da epidemia. 

“A Filarmônica executou minha primeira sinfonia, mas a noite não estaria completa até tocar a música dos jovens compositores que não sobreviveram. Eles também precisam ter voz”, disse.

Muitos desses artistas morreram sem muitos recursos ou sem o amparo de fundações que costumam preservar repertórios. Sua música foi conservada em grande parte por meio dos esforços do Projeto para o Espólio de Artistas com Aids, criado em 1991, cujos arquivos se encontram agora sob os cuidados da Biblioteca Pública de Nova York. 

Você dificilmente verá esses cinco compositores em salas de concerto. Eles ainda estavam se desenvolvendo como artistas quando suas vidas foram cortadas. “É essa a tragédia”, disse Corigliano. “Esses caras estavam principalmente na faixa dos 30, apenas começando a encontrar sua voz.”

Chris DeBlasio (1959-1993)

Corigliano se lembra de Chris DeBlasio, um de seus estudantes, como “um jovem formidável apaixonado pela música”. Era cantor e compositor, frequentemente as duas coisas ao mesmo tempo. Escreveu operetas e obras para o teatro musicado, além de música de fundo – inclusive para a peça Night Sweat, de Robert Chesley, outro compositor da lista de Corigliano. Compôs Psalm 41 para um culto ecumênico da véspera do Dia Mundial da Aids de 1992, não muito antes de sua morte.

Walt Whitman in 1989 deve ser a canção mais famosa de DeBlasio. Corigliano tem uma teoria sobre o lirismo da composição. “A maioria desses compositores estava escrevendo música tonal, talvez tentando desesperadamente se comunicar com as pessoas”, disse avaliou ele. “É como se dissessem: ‘Queremos deixar obras que as pessoas queiram ouvir’.” 

Deolus W. Husband Jr. (1959-1989)

 Ele também estudou com Corigliano, bem como com Ludmila Uleha, na Escola de Música de Manhattan, onde recebeu seu doutorado em 1987. Nos últimos anos de sua educação – e depois, quando trabalhou com grupos de dança, e em seu último trabalho, para a Sociedade de Música de Cravo – ele viveu no Upper Manhattan, num apartamento de Inwood com seu companheiro, Edwin Alexander, e os três gatos da dupla. 

Poucos registros de seu trabalho sobreviveram. A partitura de The Angel, uma adaptação de William Blake, traz experimentações em notação gráfica que Corigliano considerou ousadas. “Ele fugiu da linguagem padrão”, afirmou. “Essa é uma peça altamente sofisticada.” 

Robert Savage (1951-1993)

Savage estudou com Corigliano e outros importantes compositores gays, entre eles David Del Tredicie e Ned Rorem. Foi também pianista e compôs principalmente para piano, frequentemente executando a própria música. Fora do mundo musical, ele foi membro do Zen Mountain Monastry (Mosteiro Zen-budista da Montanha), ao norte de Nova York. No Gay Men’s Health Crisis, coordenou um grupo de meditação de pessoas com Aids. 

Compôs o Aids Ward Scherzo enquanto paciente no St. Vincent Hospital, em Manhattan. “Imagino se ele usou a palavra ‘scherzo’, que significa ‘brincadeira’, para afirmar alguma coisa”, disse Corigliano. “A obra é extremamente lírica. Com pessoas morrendo a sua volta, deve ter procurado algo realmente belo para se agarrar.”

Robert Chesley (1943-1990)

Chesley estudou música no Reed College, no Oregon, mas ficou mais conhecido como escritor. Escreveu dez peças longas – incluindo Night Sweat (1984), considerada a primeira peça a abordar a crise da Aids – e 20 peças curtas, além de contos, romances e um libreto de ópera.

Entre suas quase quatro dezenas de trabalhos musicais há canções que Corigliano considerou necessárias no Nightcap Concert, mesmo ele nunca tendo conhecido pessoalmente Chesley. Quando ouviu pela primeira vez Autumn, “pensei no melhor de Schubert”, afirmou. 

“A música é simples sem ser simplória”, disse Corigliano “Sua melodia é clara e bela. Fazer algo tão engenhoso com tão poucas notas é fazer grande arte musical.”

Kevin Oldham (1960-1993) 

Oldham não havia composto nada até receber o diagnóstico de Aids. Era um pianista que estudou na Julliard e fez nome como solista com a Rhapsody on a Theme of Paganini. Mas parou de dar concertos quando mudou para a composição.

“Uma obra tem de ganhar vida por si mesma. Para mim, a preocupação maior é garantir que minha música continue tendo vida”, disse Oldham em uma entrevista ao jornal The New York Times, em 1992. 

Sendo também pianista, Corigliano ajudou Oldham a compor “música extremamente boa” para o instrumento, incluindo a peça Sarabande and Toccata, que abrirá o Nightcap Concert. “Ele sabia fazer as mãos trabalharem no teclado.”

A estreia de seu Concerto for Piano, em 1991, foi transmitida em rede nacional de TV. A peça só seria apresentada novamente em 1993, pela Orquestra Sinfônica do Kansas. Então, Oldham já estava hospitalizado e fragilizado, mas deixou o leito para, uma vez mais, ser o solista no próprio concerto. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

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