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John dos Passos e Ernest Hemingway, uma amizade que se fez na fornalha da guerra

Livro põe os dois escritores e suas guerras lado a lado

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06 Maio 2017 | 16h00

Ernest Hemingway gostava de perseguir a morte. Diante da oportunidade de dirigir uma ambulância na 1.ª Guerra, ficou exultante: “Ah, rapaz!!! Que bom que me chamaram”. Houve quem se empolgasse menos. O também escritor John dos Passos foi outro que se viu ao volante de uma ambulância durante a Grande Guerra. Mas, para ele, a coisa não passou de “escravidão”, uma “digressão trágica”. Apesar das visões antagônicas sobre a guerra, a experiência foi formativa para ambos. O conflito armado moldou seu relacionamento — e sua produção literária.

Em The Ambulance Drivers: Hemingway, Dos Passos, and a Friendship Made and Lost in War, publicado pela De Capo Press, o biógrafo americano James McGrath Morris põe os dois escritores e suas guerras lado a lado. O emparelhamento faz sentido. Hemingway e Passos “assistiram à carnificina europeia na primeira fileira”, explica o autor. A guerra uniu esses dois personagens tão diferentes. Passos era um sujeito “tímido, livresco”. Hemingway era o oposto disso: tinha a boca suja e, em Paris ou Havana, estava sempre atrás de um rabo-de-saia. Passos “virou homem” nas trincheiras e, embora fosse três anos mais velho, admirava Hemingway.

Morris acompanha a amizade dos dois ao longo das décadas de 1920 e 1930: da boemia parisiense às pescarias no litoral da Flórida.

A guerra também teve influência decisiva no posicionamento político de ambos. Passos ficou profundamente marcado pela “tragédia” que testemunhou na França e na Itália. Em Três Soldados, romance publicado em 1921, o escritor põe por terra qualquer noção de que possa haver algo de glorioso numa guerra. Passos era um socialista austero, que “queria escrever sobre a guerra para acabar com ela”, explica Morris. Já Hemingway não se comoveu com o que viu. A guerra fez dele um cínico. Para o autor de Adeus às Armas, de 1929, a “literatura pode capturar a experiência, não transformá-la”, diz Morris.

A diferença se manifestou na prosa dos dois escritores. Hemingway atacava a máquina de escrever, dizendo a si mesmo: “escreva a frase mais verdadeira de que você é capaz.” Passos fazia experiências modernistas. Juntava palavras, como rainseething (algo como “chuvafervente”) e citava letras de músicas. O resultado é um uivo contra a “decadência” do capitalismo moderno. Essas passagens de análise literária não diminuem o prazer da leitura do livro de Morris, que conduz o leitor pelo mundo de bebedeiras e sacanagens de seus protagonistas. Amigos famosos fazem breves aparições. Zelda e F. Scott Fitzgerald recebem Passos em casa para um almoço, depois se embriagam e põem um corretor de imóveis para correr. Uma enxurrada de cartas ilumina a vida interna dos personagens.

Por outro lado, se The Ambulance Drivers tem a fluência de um romance, também traz um lapso ou outro. Morris faz referência a pessoas ou coisas sem explicá-las. Quem são os Bersaglieri, por exemplo? O que é um “thobe”? O autor não diz. As origens luso-madeirenses de Passos são mencionadas apenas de passagem em estágio avançado do livro. Alguns erros também incomodam um pouco. Em Adeus às Armas, Hemingway fala da Batalha de Caporetto, não “Caporetta”.

Mas isso são minudências. Morris consegue dar vida a seus biografados. O segundo conflito de que os dois escritores participariam, a Guerra Civil Espanhola, também seria seu último. Em meados dos anos 1930, a “inveja e um ressentimento crescente” marcavam os sentimentos de Hemingway em relação ao amigo. Embora pobre, Passos era adorado pelos críticos. A Espanha acabou com Hemingway. Ele renegou o amigo e o acusou de fascismo - reação típica da versão de egocentrismo que o caracterizava. “Hemingway destruía todas as suas amizades, todos os seus envolvimentos amorosos”, conclui Morris. Os escritores morreram sem fazer as pazes, o que é de se lamentar. Como mostra esse livro triste e vibrante, os dois tinham muito em comum./Tradução de Alexandre Hubner

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