Charlotte Hadden/The New York Times
Charlotte Hadden/The New York Times

John Le Carré aborda Brexit em novo romance de espionagem

No livro 'Agent Running in the Field', o Brexit cria uma aliança anglo-americana para corroer as instituições social-democratas da União Europeia, conta o escritor

Tobias Grey, The New York Times

19 de outubro de 2019 | 16h00

Quando John le Carré contatava agentes para o serviço de inteligência britânico, o MI6 no início da década de 1960, havia determinadas qualidades que ele buscava num candidato.

Ser sociável, charmoso nos coquetéis e ter a capacidade de beber sem ficar embriagado - tudo isso era importante. Mas sobretudo, o que Carré desejava era uma “capacidade de roubar”, como ele explicou durante uma entrevista em sua casa ao norte de Londres. “Alguém que goste de aventura e não tem escrúpulo com pequenas coisas”.

No seu novo romance, Agent Running in the Field - ambientado na Grã-Bretanha moderna, o personagem principal, Nat, é questionado pela filha por sua falta de ética. “Pelo bem de um país sobre o qual você tem graves reservas, você convence outros cidadãos a traírem seus próprios países”, diz ela ao pai. Nat responde com um argumento que, le Carré admite, é similar ao seu próprio. “Não acho que convenci quem quer que seja a fazer algo que não desejava fazer. Acho que capacito o indivíduo a fazer algo e dou proteção”.

Este mundo moralmente nebuloso da espionagem é onde le Carré continua a imprimir sua marca literária. Agent Running in the Field, que a editora Viking lançará no dia 22 de outubro, é o seu 25º romance, e chega apenas dois anos depois do seu último trabalho, Um Legado de Espiões, e mostra que, próximo dos seus 88 anos de idade, o autor continua ágil.

“Não tenho nenhuma atividade de lazer. Fico abatido quando não estou escrevendo e muito contente quando escrevo. E, até agora, não tenho nenhuma percepção de que houve um abrandamento do meu talento. E eu me sinto também incentivado e horrorizado com o caminho pelo qual meu país enveredou”.

“Agent” tem por foco o Brexit e o primeiro ministro Boris Johnson, cujo mandato anterior como secretário do Exterior é evocado com escárnio. No final dos anos 1950 le Carré foi professor de línguas estrangeiras no internato de jovens de elite da Grã-Bretanha, Eton. Isso lhe deu insights sobre uma cultura que forneceu ao país uma linha de produção de políticos formados nessa escola, incluindo Johnson.

“Dei aula para uma dezena de Johnsons. Eton faz algo extraordinário. Não o ensina a governar. É uma escola que o ensina a vencer. É isto”.

Como Um Legado dos Espiões, anteriormente, o novo livro explora a desilusão de agentes que envelhecem e que dão as costas para o establishment britânico depois de anos de serviço leal porque a causa que defendiam desapareceu.

“Há um conjunto de coisas sobre esse mundo secreto que é chocante e desagradável, mas nos anos em que trabalhei para o serviço havia pelo menos um motivo. Este motivo, naturalmente, era vencer a Guerra Fria, que basicamente era uma guerra regida por ideologias opostas.

Le Carré teve seu primeiro gosto desse “mundo secreto” em 1949, aos 17 anos, depois de fugir do seu internato na Inglaterra, que ele detestava. Ele acabou em Berna, na Suíça, onde chamou a atenção de uma célula suíça do MI6 quando estudava línguas estrangeiras numa universidade local. Logo eles o empregaram para tarefas triviais. “Não sabia para quem estava trabalhando na época, mas mantinha um sentimento de lealdade nessa idade porque minha experiência de tempos de guerra havia criado somente heróis - heróis masculinos, professores de escola que retornaram em uniforme”, disse ele.

O contraste com o pai de le Carré, Ronnie, cuja vida obstinada inspirou seu romance Um Espião Perfeito (1986) não podia ser mais pronunciado. “Não tive nenhum tipo de educação ortodoxa. Tive de estabelecer minha própria ética e moralidade”.

Após a faculdade ele prestou dois anos de serviço militar obrigatório, que incluiu contatar agentes britânicos na Áustria ocupada por soviéticos. Depois retornou à Inglaterra e começou a trabalhar para o MI5 filial doméstica do serviço de segurança britânico.

Depois de estudar em Oxford e lecionar na Eton, em 1960 ele foi recrutado pelo MI6, divisão estrangeira do serviço. Deixou o MI6 em 1964, para se concentrar em tempo integral à escrita, quando sua carreira explodiu com a publicação de seu terceiro romance O Espião que veio do frio. O romance foi inspirado na época em que ele se encarregava da passagem de agentes entre as duas Alemanhas, oriental e ocidental, o que o deixou com um profundo amor pela cultura e pela língua alemãs. Hoje ele consegue ler um livro em alemão por apenas algumas horas. “Suponho que sou disléxico, porque sou um leitor terrivelmente lento e com o tempo vou ficando mais lento”, afirmou. “Mas acho que o alemão provavelmente faz-me lembrar dos meus anos de estudante. De modo que consigo me sentar e me dispor a ler um conto de Thomas Mann”.

Le Carré, que aceitou a Medalha Goethe da Alemanha por sua obra, em 2011, acha que foi uma oportunidade perdida quando o Muro de Berlim foi derrubado em 1989. “Não havia nenhum grande líder que aparecesse e disse, ‘ouçam este é o momento de reformular o mundo.’”, disse.  “Tivemos um grande sono e depois disso o que restou para trabalharmos a respeito?”.

Le Carré está furioso com o fato de um similar sonambulismo de proporções ainda mais danosas estar ocorrendo no caso do Brexit. “Isto começou nas grandes mansões rurais da Inglaterra. É de onde partiu a fantasia do Brexit, a nostalgia pela suspeita do vizinho alemão ou francês e daqueles individuos que não foram de muita utilidade na guerra, foi aí que ele nasceu. Em Agent Running in the Field, as consequências do Brexit acabam permitindo uma aliança anglo-americana com o objetivo duplo de corroer as instituições social-democratas da União Europeia e desmantelar nossas tarifas comerciais internacionais”.

Isto soa exagerado? O jornalista britânico e autor de McMafia, Misha Glenny, que forneceu sua experiência sobre os detalhes da geopolítica russa e checa para Agent, diz estar impressionado como le Carré frequentemente está muito à frente dos outros. “No final dos anos 1990 ele escreveu Single & Single, um livro incrivelmente perspicaz sobre qual seria o impacto econômico da Europa Oriental e da União Soviética”, disse Glenny.

De acordo com o advogado franco-britânico Philippe Sands, le Carré extrai muitas suas ideias da sua segunda mulher Jane Cornwell. “Acho que Jane tem um papel intelectual muito importante”, disse Sands, que se aliou ao escritor na oposição à guerra do Iraque de 2003 e checa seus manuscritos do ponto de vista legal. ”Jane controla cada detalhe dos seus livros”.

Cornwell, ex-editor de livros na Hodder & Stoughton, também digita, o que não é o caso de le Carré. “Escrevo à mão”, disse ele. “Assim, Jane e eu trabalhamos nesse processo nos últimos 55 anos”.

A família também tem uma grande parte nas adaptações dos romances de le Carré para o cinema. Dois filhos do seu primeiro casamento, Simon e Stephen, fundaram a produtora The Ink Factory em 2010, que produziu filmes como A Most Wanted Man, e minisséries de TV como The Night Manager e The Little Drummer Girl.

“Uma das maiores alegrias da minha vida foi produzir The Night Manager com os meninos”, disse o escritor. “É uma relação de pai e filho sensacional completamente invertida. Hoje eles são os patrões e eles me consultam, eles me elevam e me criticam à vontade”.

De acordo com le Carré, The Ink Factory planeja produzir novas adaptações para a TV de todos os romances focados no espião da Guerra Fria, George Smiley, desta vez em ordem cronológica.

“Isto significa que você vai ter de volta as primeiras grandes conspirações de O Espião que veio do frio, ver como Smiley envelhece e como era jovem naquela época. Isso implica encontrar um ator que interprete um Smiley mais jovem do que o representado por Gary Oldman na versão para o cinema.”

Le Carré disse que seus filhos estão interessados no ator britânico Jared Harris, cujo trabalho na série Chernobyl eles admiraram.

No momento, porém, o escritor tem outras coisas em mente. Ele e Jane planejam participar das manifestações do People’s Vote contra o Brexit em Londres no dia 19 de outubro.

“Trabalhamos com a Europa durante 47 anos e estamos casados para o melhor e para o pior com esses 27 países. Agora o governo tenta nos vender a ideia que somos inimigos. Desculpe-me, mas isto não é patriotismo. É nacionalismo”. / Tradução de Terezinha Martino

 

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