Tom Jamieson/The New York Times
Tom Jamieson/The New York Times

John Le Carré fala sobre relação conturbada com o pai em autobiografia

Escritor que elevou o patamar da literatura de espionagem reconta as próprias memórias em livro

Paulo Nogueira*, Especial para o Estado de S. Paulo

03 Março 2018 | 16h00

John Le Carré é um daqueles ficcionistas que, logo de cara, se instalam de mala e cuia no respectivo panteão nacional. No caso dele foi aos 32 anos, com O Espião que Saiu do Frio, que Graham Greene saudou como “o maior romance de espionagem de todos os tempos”, miminho que Ian McEwan extrapolou, classificando o autor como “o mais importante escritor inglês da segunda metade do século 20”. Hoje com 87 anos, podre de rico, tietado (não é “Sir” porque esnobou o título) e disputado a tapa pelo cinema, a autobiografia de Le Carré acaba de sair no Brasil.

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Le Carré (nom de plume de David Cornwell) começou a escrever ficção quando era agente secreto, aderindo a uma linhagem ilustre: entre outros, Christopher Marlowe, Cervantes, Greene, Voltaire, Daniel Defoe foram espiões em algum momento. Sua carreira no MI6 durou cinco anos: ele se demitiu depois que virou best seller. O autor cunhou termos adotados pelos próprios agentes e que agora são arroz de festa, como “toupeira”. 

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O que distingue Le Carré não é a sublimação de um gênero considerado menor, dada a rigidez da fórmula e os personagens unidimensionais. Afinal, Joseph Conrad e Graham Greene também reciclaram aventuras de espionagem em labirintos com 50 mil tons de cinza, e nenhum maniqueísmo preto e branco. Mas só Le Carré pegou a guerra fria e a transfigurou num aquecimento global literário: uma tragicomédia moral. Um agente, especialmente um agente duplo, é alguém que não pertence a ninguém, a começar por si. Um pária ecumênico.

Assim nasceram os monumentos literários que são o chefe do serviço secreto inglês (o “Circus”) George Smiley (inspirado no mentor de Le Carré em Oxford, Vivian Green) e sua contraparte russa, o superespião Karla. Ambos são uma mancha de Rorschach: ao interpretá-los, sem querer aprendemos algo sobre a nossa própria engrenagem psíquica. Tanto podemos ver uma flor, como um animal, como um monstro. 

Le Carré, que fala e lê alemão, situou o pilar da sua obra na Alemanha do pós-guerra, rasgada pelo muro de Berlim, construído pelos comunistas em apenas uma noite (13 de agosto de 1961), com 66 quilômetros, 302 torres de observação, 127 redes eletrificadas, patrulhado por militares com ordens de atirar para matar nos que tentassem pular para o outro lado (80 pessoas foram mortas, 112 feridas e milhares presas na tentativa). Esse é o habitat natural da ficção de Carré: “Quando comecei a estudar Goethe e Kleist, descobri que me identificava tanto com sua austeridade clássica como com seus excessos neuróticos. O truque consistia em disfarçar estes naquela.” 

Esfíngico? Na autobiografia, ele põe as cartas na mesa: “Estas são histórias reais, contadas de memória – e você tem o direito de perguntar o que é verdade e o que é a memória de um escritor naquilo que podemos delicadamente chamar de o entardecer da sua vida.” Ou seja: quem falou que sou confiável e que a pós-verdade começou com a internet? OK, a ambiguidade é a pele do espião – mas também do ficcionista, que vigia até a alma dos seus personagens e joga uns contra os outros, para ver o circo (ou o Circus) pegar fogo. 

Criança, Carré foi abandonado pela mãe, e o pai – Ronnie, um trambiqueiro burlesco – se converteu numa nêmesis ambivalente do filho. Para exorcizar o fantasma paterno, o capítulo sobre Ronnie (intitulado O Filho do Pai do Autor) é o mais extenso e com uma justificativa sardônica: “O longo capítulo sobre meu pai está no fim e não no início porque, por mais que ele fosse gostar disso, eu não o queria acotovelando todo mundo para chegar na frente.” Sobre sua própria família (duas ex-esposas e quatro filhos), assim como eventuais infidelidades, o autor quase não dá um pio. Embora presumamos nas entrelinhas que ele podia citar outra autobiografia famosa, a de Santo Agostinho, na qual este exclama: “Deus, me dê a castidade, mas não já!”

Le Carré sempre foi um cara de esquerda, mas com uma ginga intelectual digna de um Garrincha, e a urbanidade de quem sabe que só os tolos são donos da verdade. Contudo, depois da queda do Muro de Berlim e do fim da Guerra Fria, ele meio que surtou um tiquinho. Com a guerra do Iraque, o tom vociferante ensombrou suas obras mais recentes, refletindo por vezes um antiamericanismo com a sutileza de um rinoceronte dançando O Lago dos Cisnes. Reduzir a ficção literária a propaganda, seja contra ou a favor qualquer cartilha, nunca dá certo. Entre outras coisas, porque tende a zerar as contradições do protagonista. 

Parece que águas passadas já não movem moinhos, e que Le Carré desencanou: esta é uma autobiografia de se devorar às colheradas. Proliferam vinhetas sugestivas, como o almoço com Joseph Brodsky, durante o qual chegou a notícia de que este havia ganhado o Nobel – mas a agente do poeta russo só se preocupava que ele não enchesse a cara (o que Brody fez). Ou a entrevista a Bernard Pivot. Le Carré curtiu o papo, mas ressalvou: “Poucas entrevistas são agradáveis. Todas são estressantes, a maioria é tediosa e algumas são horríveis, especialmente se o entrevistador for um compatriota: o camarada experiente e cheio de atitude que não fez o dever de casa, não leu o livro e acha que está lhe fazendo um favor por ir até lá e por isso precisa de um drinque; o aspirante a escritor que acha que você é de segunda linha, mas quer que você leia seu manuscrito inacabado; a feminista que acredita que você só obteve sucesso porque é um homem branco de classe média, e você ainda suspeita que ela pode ter razão.”

Há meio século o cinema paparica Le Carré. Richard Burton e Alec Guinness calcificaram personagens dele. Sidney Pollack, Stanley Kubrick e Francis Ford Coppola o cortejaram com propostas. Com este último, a coisa quase rolou, e Le Carré passou uns dias na vinícola do cineasta, no Napa Valley: “‘Harrison vai adorar esse roteiro’, disse Coppola. Ele queria dizer Harrison Ford. Em Hollywood, sobrenomes são para outsiders. Infelizmente, Harrison não respondeu. Ninguém faz silêncio melhor que Hollywood.” 

Apesar da estatura homérica de George Smiley, meu personagem predileto é Alec Leamas, o protagonista de O Espião que Saiu do Frio, numa Berlin ainda esventrada pelo muro. Um cinquentão amargurado que, entre as duas superpotências ideológicas da natureza humana – a razão e a emoção – tenta não ficar... em cima do muro. Nesta autobiografia aos 87 anos, Le Carré prova que ainda tem lenha para queimar. Mas, quando chegar sua hora, ele poderá parafrasear as últimas palavras de Flaubert, substituindo Emma por Alec: “Morro, e a p... da Bovary viverá para sempre!”

*Paulo Nogueira é autor de 'O Amor é um Lugar Comum' (editora Intermeios) 

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