Jorge Castañeda, ex-chanceler mexicano e cientista político

Enquanto as TVs noticiosas exibiam em todo o mundo as imagens de Ingrid Betancourt e seus 14 companheiros de cativeiro chegando ao aeroporto de Bogotá, enfim libertos, o Ministério da Defesa colombiano descrevia a operação de resgate como "cinematográfica". "Não houve o disparo de um único tiro", declarou o ministro Juan Manuel Santos. "Enganamos as Farc", completou o general Freddy Padilla. História bonita, mas logo os primeiros analistas começaram a levantar dúvidas. A operação teria sido negociada? Quando uma rádio suíça sugeriu que gente na guerrilha havia sido subornada, a dúvida já estava plantada."Isso não importa", diz Jorge Castañeda, ex-chanceler do México, respeitado analista da política latino-americana e autor de uma das biografias de Che Guevara. Para Castañeda, se houve negociação ou não, mesmo que tenha havido pagamento de resgate ou suborno, a competência, seriedade e o profissionalismo das Forças Armadas da Colômbia estão acima de dúvidas. Não importa se a Operação Xeque foi cinematográfica ou se os guerrilheiros foram mesmo enganados. O resgate ocorreu porque as Farc sofreram pesados golpes nos últimos meses, o que levou à fragmentação da guerrilha. Não haveria espaço para negociação, resgate ou suborno, calcula Castañeda, se não fosse o início da derrota dessa guerrilha, com 44 anos de combates, pelas mãos do Exército.A profissionalização do Exército, avalia Castañeda, não veio sem uma prolongada injeção de dinheiro. Refere-se aos investimentos feitos pelo governo americano no setor militar, por meio do Plano Colômbia. Nas contas de Washington, fica assim: foram US$ 5,5 bilhões entre 2000 e 2006. E o resultado se mede neste suposto início do fim das Farc. O ex-chanceler do México acredita que a deterioração da guerrilha já está em curso. O que falta acontecer, após um período inevitável de agonia, é a negociação para a paz, que o governo fará na posição de vencedor. Aí, sobrará um último desafio: desarmar os grupos paramilitares de direita. A seguir, trechos da entrevista de Jorge Castañeda ao Aliás.Como o senhor avalia a Operação Xeque, que libertou a ex-candidata à presidência Ingrid Betancourt e mais 14 reféns?Foi uma operação muito bem preparada que teve êxito por dois motivos. O primeiro é o enfraquecimento das Farc após as mortes de seus principais líderes, Manuel Marulanda, Raúl Reyes e Iván Márquez. A guerrilha vinha recebendo golpes muito fortes do governo. Em segundo, está o acerto da Política de Segurança Democrática patrocinada pelo presidente Álvaro Uribe. Ela permitiu que o apoio da população às Farc fosse diminuindo. Permitiu também que, com a ajuda dos Estados Unidos, o Exército colombiano fosse transformado num Exército moderno que efetivamente funciona. Não se pode negar que a reforma das Forças Armadas custou muito caro. Mas hoje funciona. Não é qualquer Exército que pode fazer uma operação dessas.O senhor acredita que houve algum tipo de negociação por parte do governo colombiano com as Farc para garantir a libertação dos reféns?Mais que negociações. É bem possível que divisões internas cada vez mais agudas, dentro das Farc, tenham sido um dos fatores explorados pelo governo. Essas rixas internas são importantes e ficam aguçadas pelo fato de que as distintas frentes da guerrilha enfrentam dificuldades de comunicação umas com as outras. De qualquer forma, foi uma operação executada com profissionalismo e seriedade. Não vejo como negar que hoje o Exército colombiano tenha essa capacidade. Se é possível que outros fatores tenham contribuído para o sucesso? Sim, claro. Até sorte ajuda.Alguns dos soldados colombianos estavam vestidos com camisetas estampadas de Che Guevara. É tão fácil assim enganar as Farc?Eu não diria que são fáceis de serem enganados. Pode ter havido outros elementos, principalmente por conta da fragmentação da guerrilha. Dinheiro, recompensa, traições internas, tudo pode ter ocorrido. Mas, se ocorreu, é porque as Farc já estão enfraquecidas. Já existe um clima de derrota resultante dos golpes recebidos nos últimos meses. Se houve traição foi por causa desse desmantelamento. De qualquer modo, o sucesso tem a ver com o avanço do Exército. Não devemos negar-lhe esse mérito.O senhor vislumbra algum futuro para as Farc?Não como força política. As Farc estão muito desacreditadas. É amplamente conhecida sua relação com o narcotráfico, assim como seu hábito de recrutar meninos-soldados e o envolvimento com seqüestros. Elas têm um histórico de violação dos direitos humanos. Nunca tiveram grande apoio popular e, hoje, muito menos. Também não podemos esquecer de que, nos computadores da guerrilha confiscados pelo Exército colombiano, vieram à tona planos que mostravam as negociações das Farc com o presidente venezuelano, Hugo Chávez, e a senadora colombiana Piedad Córdoba. Chávez, Piedad e as Farc estariam discutindo conjuntamente a formação de uma chapa para disputar a presidência da Colômbia, em 2010. Todos eles têm ambições políticas.O senhor considera a possibilidade de Ingrid Betancourt sair candidata à presidência?Essa é, certamente, a grande pergunta do momento. Não sei. Ela acaba de passar por um período muito difícil então não está claro o que decidirá. Mas, hoje, ela é um quadro político que ficou muito importante. Ingrid é reconhecida em seu país e em todo o mundo. Tem força.E quanto a um terceiro mandato para Álvaro Uribe? É possível?Se concorrer à terceira eleição, é possível que vença. Ele já era popular antes da operação de resgate, agora certamente vai subir ainda mais nas pesquisas. Ainda assim, essa não é a melhor das idéias. A perpetuação do poder, em nossos países, mesmo que por mecanismos democráticos, não é bom caminho. Considerando a consolidação da democracia, penso que o ideal seria um mandato por presidente.Perante o fim das Farc, os paramilitares podem ser um problema?Algumas das milícias já foram desmanteladas. Uribe tem sido valente ao enfrentá-los, bem como na decisão de extraditar alguns de seus dirigentes para os EUA. O fim dos paramilitares terá de fazer parte do processo de paz. E este é um momento que está para chegar. O governo da Colômbia terá que sentar-se à mesa e negociar com as Farc sua derrota e a reinserção de seus membros na vida do país. É neste momento que se deve encerrar as ações dos paramilitares.

Pedro Doria, O Estado de S.Paulo

05 de julho de 2008 | 23h59

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