Jornalismo na torcida

Futuro modelo de mídia eletrônica permitiria a recuperação de receitas detonadas pela internet

Lúcia Guimarães, O Estado de S.Paulo

27 de dezembro de 2009 | 00h09

Em 2010 os jornalistas americanos cobriram, mais do que nunca, sua ameaça de extinção. Como raras aves de plumagem que perdeu o viço, eles se somaram às estatísticas de seus colegas desempregados. Jornais centenários fecharam as portas, revistas tradicionais sumiram das bancas. É fácil demais culpar a internet como um tsunami que achatou igualmente a pequena mídia e os conglomerados criados pela quimera da sinergia, como a finada AOL-Time Warner.

Haverá um componente masoquista no DNA do jornalista? Acompanhar nosso infortúnio é uma espécie de tique nervoso da profissão. Num fim de noite, meu começo de sono foi despertado por um sotaque intensamente nova-iorquino num programa de TV. O entrevistado declarava confiante: "Nova lâmpada, novo gênio". Opa!

Explico ao leitor cuja profissão se apoia em alicerces mais sólidos: no jargão apocalíptico corrente, a metáfora inspirada em Aladim é comum para descrever como o conteúdo jornalístico, neste caso, o gênio, escapou da lâmpada com o acesso livre pela internet. A publicidade online nunca pagou a conta e tentar cobrar pelo que custa mais caro, a reportagem - hoje de graça em sites como o Google -, é o equivalente a tentar passar aquele careca gordo de volta pela boca da lâmpada.

O editor Peter Kaplan era o entrevistado naquela noite. Como editor por 15 anos do New York Observer, hoje dando sinais evidentes da falta que ele faz, Kaplan me pareceu a fonte ideal do que se tornou o cálice sagrado na lenda arturiana da mídia: uma boa notícia. Ele estava promovendo o lançamento do livro que editou como sua canção de cisne no Observer, The Kingdom of New York, uma coletânea de grandes textos publicados no jornal.

Localizei Kaplan em seu novo escritório, no edifício da Editora Condé Nast, que vivia um banho de sangue, com fartas demissões e desaparecimento de títulos nobres como a Gourmet Magazine. Sem a menor compostura, declarei minhas intenções: "Gostaria de ouvir pessoalmente aquela história com final feliz que você contou no ar".

Numa tarde fria de novembro, eu me postei numa mesinha na área de pedestres da Times Square, onde aguardava o chamado de Kaplan, alguns andares acima do calçadão. Enquanto esperava, tive duas visões que interpretei como sinais de que deveria perseverar. Passou por mim Arthur Sulzberger Jr, o Pinch, o irascível herdeiro e publisher do New York Times, que acabava de anunciar seu próprio passaralho na redação. Minutos depois, marchou sorrindo para o público Lou Dobbs, o âncora da CNN que anunciaria sua partida no dia seguinte, depois de longa controvérsia sobre sua xenofobia. Pinch representaria a mídia que deve ser salva? Dobbs, com seu reducionismo populista, a que merece ir para o brejo?

Quando atravessei a porta de vidro da suntuosa sede da Condé Nast Traveler, me ocorreu, com atraso, que um jornalista com o pedigree de Kaplan, que inclui passagens pelo New York Times e a New York Magazine, não teria pedido demissão da chefia editorial de um semanário influente para editar matérias sobre safáris africanos. Kaplan é mais do que um subeditor da revista de turismo.

Ao ser denunciado como um attaché cultural de embaixada americana que trabalha para a CIA, ele deu uma gargalhada e admitiu que tem uma função de estrategista, de "dar os primeiros passos para fazer desta uma revista eletrônica".

Kaplan atravessa lépido o obrigatório lamento pelos colegas que tombaram, mas declara ser este um grande momento para pertencer à mídia. Ele aposta suas fichas no que chama de um "iPod com esteroides". Um tablete - no momento, provável, mas não inevitável criação da Apple - que vai reanimar o jegue empacado da publicidade na internet. "Teremos uma chance, a exemplo do que aconteceu no começo da televisão, de refazer o meio", diz ele. "Um novo meio com uma nova economia. Criar um novo modelo de receita, mas também um novo modelo de jornalismo."

Kaplan acredita que a solução tecnológica do tablete que vem por aí vá tornar os anúncios mais atraentes do que a mais artística publicidade impressa em revistas. O leitor, treinado para evitar o anúncio online, vai se deter sobre a publicidade não linear, extradimensional, como uma experiência cultural integrada ao resto do conteúdo.

Quero acreditar em Kaplan porque ele não pertence à turma novidadeira que fica regurgitando cenários improváveis na Wired. Acredito no que ele me deu como leitora - um jornal idiossincrático, sofisticado, sinceramente opinativo. Ele se declara um evangelista do jornalismo. "As pessoas podem não se lembrar do que leram no jornal há dois dias, mas quando leram foram um pouco transformadas", diz. O Observer de Kaplan era um anti-New York Times que adorava o Times. Ele explica: o Times emergiu da era em que a cidade tinha inúmeros jornais como a única voz com autoridade. Até o Times ficar solitário no seu papel, lembra ele, o alto nível de cultura da imprensa nova-iorquina era comparável à Hollywood na era dos estúdios. "Eles nos deram uma literatura de não ficção", diz. Kaplan aposta na paixão americana por novos brinquedos. O brinquedo eletrônico certo, ele promete, pode salvar a indústria da mídia e tirar do exílio bons editores que vão oferecer ao leitor uma nova estética e preservar o poder democrático do jornalismo.

Que seu otimismo vire manchete e não outra lenda das Mil e Uma Noites.

Lúcia Guimarães, Colunista do Estado e colaboradora da Rádio Eldorado e do canal GNT

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.