Alessia Pierdomenico/Reuters
Alessia Pierdomenico/Reuters

Jornalista compila biografias de mulheres intelectuais em livro

Susan Sontag, Mary McCarthy, Hannah Arendt e outras são reconhecidas em 'Sharp'

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

21 Abril 2018 | 16h00

Arrastando-se para Belém é uma das atrações do último número da revista Serrote. Relato de uma viagem pela cidade de São Francisco no auge da era hippie, virou um clássico do jornalismo literário e um dos motivos para a inclusão da veneranda escritora Joan Didion no seleto elenco de Sharp, um estudo biocrítico da jornalista Michelle Dean, editora contribuinte da New Republic, sobre as intelectuais mais influentes dos EUA no século 20. 

+++Mulheres intelectuais e duronas são reunidas em ensaio

Quem são? Além de Didion, por ordem de aparição: Dorothy Parker, Rebecca West, Zora Neale Hurston, Hannah Arendt, Mary McCarthy, Susan Sontag, Pauline Kael, Nora Ephron, Renata Adler e Janet Malcolm. Mulheres livres, encrenqueiras, destemidas e bem-sucedidas, escribas de alto nível, com passagem pelas mais respeitáveis publicações. Dessas, só Adler não foi traduzida no Brasil. 

No inventário da intelectualidade nova-iorquina (The New York Intellectuals) que Alan M. Wald publicou em 1987, apenas quatro das citadas – as inevitáveis Parker, Arendt, McCarthy e Sontag – receberam alguma atenção, embora menos do que Midge Decter, Diana Trilling e Lillian Hellman. As duas últimas são meras coadjuvantes em Sharp (Hellman por seu arranca-rabo com Mary McCarthy) e a conservadora Decter nem isso. 

Wald fez o de praxe até pouco tempo atrás: uma história da vida cultural centrada na figura masculina. O mínimo que se pode dizer do livro de Michelle Dean é que ele veio reparar uma injustiça às mulheres que Arendt rotulou de “párias conscientes” e preencher uma baita lacuna bibliográfica. 

As intelectuais que em Sharp brilham, sofrem, equivocam-se, enfrentam o sexismo de editores, maridos e amantes, brigam e fazem besteira, já haviam sido biografadas, perfiladas e autoexpostas em memórias e epistolários, mas ainda faltava uma obra que concentrasse e valorizasse a contribuição de cada uma delas à cultura e às lutas sociais e políticas de seu tempo, uma obra que enfim retratasse por outro ângulo a evolução do pensamento americano dos anos 1920 aos 1980. Articulando minibiografias interligadas por ideias e problemas afins, Sharp é tanto uma celebração da inteligência e perspicácia femininas quanto tributo às virtudes – lucidez, tenacidade, firmeza – a que todo escritor, não importa o sexo, deve aspirar. 

O título sintetiza numa palavra o predicado mais notório desse escrete feminino. Elas eram mesmo afiadas; e três delas, Didion, Adler e Malcolm, ainda vivas, na casa dos 80, não perderam o gume. O subtítulo (The Women Who Made an Art of Having an Opinion) também expressa com felicidade o que elas lograram no millieu masculino em que viviam: exercitar-se na arte de expor uma opinião, com a mesma autoridade dos marmanjos. 

Não discuto os nomes, mas gostaria de ver entre as afiadas Elizabeth Hardwick, tanto por seus romances e ensaios como por seu papel na criação da mais importante publicação cultural de língua inglesa, a New York Review of Books, cujas páginas praticamente todas, não por acaso, frequentaram. 

Sharp, lançado pela Grove Press, figurava entre os lançamentos editorias mais aguardados deste ano. Não decepcionou nenhum resenhista até agora, e quem sobrescreve estas linhas não tem por que arvorar-se de exceção. Elegante, erudito, incisivo e meticulosamente pesquisado, é leitura agradável da primeira à última de suas 384 páginas.

Muitas das histórias relatadas são conhecidas (ao menos dos sintonizados com o folclore daquele tempo e daquelas “dark ladies”), mas, relacionadas e imbricadas umas nas outras por Dean, reavivam seu sabor e ganham nova dimensão. Imagine-se num coquetel com todas as citadas desfiando abobrinhas literárias, desafiando editores, trocando farpas entre si, expondo seus medos, abusando da arrogância (Arendt não ganhou o apelido “Hannah Arrogant” numa rifa) e tentando racionalizar e pôr ordem no mundo. Aquela morena com ar de melindrosa e um dry martini é Dottie Parker.

Parker, que além de “smart” e boa de copo era “witty” (espirituosa), abre o salão. Dean não desperdiça espaço com as tiradas que a celebrizaram na mesa do Algonquin, preferindo mergulhar em sua alma autodestrutiva. Ninguém a odiava mais do que ela própria. Pinguça, biruta, ferina, iniciou-se nas lides antes mesmo de as mulheres conquistarem direito ao voto e inspirou gerações de línguas de trapo. Ainda é a mais perene, lida e citada heroína do Bloomsbury de Manhattan. “Os leitores adoravam a maneira como ela os chocava”, explica Dean a razão do seu encanto. Nora Ephron talvez tenha sido sua mais fiel discípula.

Todas imigrantes (Arendt, West, Adler e Malcolm) ou outsiders internas (McCarthy, Sontag, Kael, Didion, até Ephron, criada em Los Angeles), e com passagem pelo jornalismo. Sete eram judias ou parcialmente judias, quatro estudaram filosofia, cinco perderam o pai ainda crianças, seis enfrentaram múltiplos casamentos (McCarthy teve mais três maridos além do crítico Edmund Wilson, que selou a união com um sopapo). 

Nem todas se conheceram pessoalmente. Algumas brigaram entre si. Adler espinafrou as críticas de cinema de Kael. Depois de uma rusga, Arendt e McCarthy tornaram-se amicíssimas. Sontag preferiu manter cautelosa distância de McCarthy desde que foram apresentadas. Em vez do protocolar “muito prazer”, Mary a saudou com a provocação: “Ouvi dizer que você é a minha nova versão”. 

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