Truman Library
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Jornalista cruza a Rússia atrás de personagens históricos

Rachel Polonsky, que também dá aulas em Cambdrige, fala das ligações perigosas russas em 'A Lanterna Mágica de Molotov'

Flávio Ricardo Vassoler *, Especial para O Estado

01 Setembro 2018 | 16h00

Em A Lanterna Mágica de Molotov (Editora Todavia), a jornalista e professora de estudos eslavos da Universidade de Cambridge Rachel Polonsky nos conduz a uma travessia nômade e bibliófila pela história da Rússia: “Seguro a alça de bronze da lanterna e entrevejo senhoras em antiquados trajes de banho com as mãos em pala, protegendo os olhos do sol diante de um rochedo no litoral da Crimeia; uma roda de camponesas desliza em uma dança ritual, transformando-se em três imagens retocadas de casas de madeira e praças elegantes na cidade siberiana de Irkutsk”. É assim que, munidas da lanterna mágica e de um veloz tapete voador, as divagações de Polonsky nos levam de Múrmansk, cidade próxima da Finlândia e do mar de Barents, ao norte, à sulista (e ainda europeia) Rostov-sobre-o-Don, perto da fronteira com a Ucrânia; da capital Moscou, epicentro da Revolução de 1917, a Irkutsk, capital da Sibéria Oriental. 

Tudo começa quando Polonsky, com um soslaio de sua lanterna mágica, nos teletransporta para o antigo apartamento de ninguém mais, ninguém menos que o bolchevique Viatcheslav Molotov (1890-1986), representante do ditador Stalin (1878-1953) para a assinatura do pacto de não agressão entre a Alemanha nazista e a União Soviética às vésperas da eclosão da Segunda Guerra Mundial, em 1939. À beira do colapso da URSS, no rigoroso inverno de 1990, a vastíssima biblioteca de Molotov, cúmplice/artífice de Stalin na política de fuzilamentos e expurgos totalitários, testemunha uma colocação tão espirituosa quanto trágica do poeta Ossip Mandelstam (1891-1938): “A Rússia é o único país que leva a poesia realmente a sério, já que, aqui, é bem possível morrer por causa dela”. Vítima dos campos de trabalhos forçados, Mandelstam viu suas palavras se transformarem no prenúncio de sua própria lápide.

Com a capital russa como seu primeiro destino, A Lanterna Mágica de Molotov pretende narrar “a história das ruas de Moscou que ninguém escreverá”. Em diálogo com grandes escritores, como se a ficção fosse a antecâmara e o duplo da realidade, Polonsky lembra de Varlam Chalamov (1907-1982), sobrevivente dos campos de escravidão siberianos: “Nós apenas gostávamos de relembrar Moscou juntos – suas ruas e monumentos, o rio Moscou coberto por uma fina camada de óleo, brilhando como madrepérola”. 

Imersos em seus planos e projetos comezinhos e pequeninos, os pedestres moscovitas transitam por ruas, alamedas e avenidas a partir das quais a história do século 20 foi sendo moldada. Imaginem se Rachel Polonsky contasse ao vendedor de matrioshka – a boneca russa de madeira de cujo ventre novas bonequinhas vão sendo paridas – que, “todos os dias, Stalin e Molotov percorriam as poucas centenas de metros até seus gabinetes no n.º 5 da Vozdvíjenka, saindo de seus apartamentos no Kremlin – sem guarda-costas, como Molotov lembraria com nostalgia. Em 1923, o Comitê Central mudou-se para a Staraia Ploschad, a Antiga Praça, do outro lado do Kremlin, próximo da Lubianka. Foi apenas no fim de 1930 que o Politburo, a partir de um relatório da polícia secreta, decidiu que ‘o camarada Stalin fosse imediatamente solicitado a cessar de andar a pé pela cidade’”. 

Para aquém e para além da grande história, Moscou também assistiu à irrupção de arrebatadas paixões. Em setembro de 1898, a atriz Olga Knipper (1868-1959), futura esposa de Anton Tchekhov (1860-1904), se encontrou com o escritor e dramaturgo pela primeira vez no clube de caça moscovita. A “lanterna mágica” de Polonsky se transforma em correio elegante para nos revelar as memórias amorosas de Knipper: “‘Nunca me esquecerei da excitação palpitante e ansiosa que tomou conta de mim quando me disseram que o grande dramaturgo assistiria ao nosso ensaio de A Gaivota, relembra a atriz, ‘nem do raro estado mental com que me encaminhei, naquele dia, para o clube de caça’. Foi ali, disse, que o ‘nó fino e emaranhado’ de sua vida ‘começou a enredar-se’”.

Ao fim, a “lanterna mágica” de Polonsky faz questão de desvelar as prestidigitações da Rússia contemporânea para fazer com que a história polifônica e contraditória do país culmine na democracia despótica de Vladimir Putin, 66. Após o colapso da União Soviética, a estátua do líder revolucionário Vladimir Lenin (1870-1924), em frente à biblioteca pública que ainda leva seu nome, nas imediações do Kremlin, foi substituída por uma estátua do escritor Fiodor Dostoievski (1821-1881). Polonsky então nos conta que, “recentemente, jovens adeptos de Vladimir Putin se reuniram aos pés da estátua em manifestações de lealdade produzidas para a TV. Dostoievski passou a ser visto, lido e reverenciado como um profeta cooptado pela ‘Nova Bizâncio’ de Putin”. 

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