Mike Theiler/Reuters
Mike Theiler/Reuters

Jornalista que revelou escândalo Watergate lança livro sobre Trump

Bob Woodward entra nos bastidores do governo em 'Fear: Trump in the White House'

Lúcia Guimarães, O Estado de S.Paulo

15 Setembro 2018 | 16h00

É pior do que imaginavam. A presidência mais caótica da memória recente nos EUA não poderá ser examinada no futuro sem o novo livro de Bob Woodward. Ler Fear: Trump in the White House é observar o centro nervoso do governo, como descreve o ex-alto assessor Rob Porter, “sempre caminhando ao longo da beira do precipício.” Donald Trump é o nono presidente examinado em livro pelo jornalista que, ao cobrir o escândalo Watergate com Carl Bernstein, foi decisivo para a renúncia de Richard Nixon em 1974.

Woodward tem centenas de horas de gravações com pessoas do governo a quem garantiu anonimato e usa extensas citações literais de diálogos revelados por terceiros, o que não permite ao leitor avaliar sua veracidade mas, sem dúvida, dá cor ao drama da realidade.

Passagens chocantes do livro foram publicadas antes do lançamento, criando um frisson que levou à pré-venda de 600 mil exemplares. Ficamos sabendo que o chefe de gabinete John Kelly declara numa reunião que Trump é um “idiota” e está “desequilibrado”. Descobrimos que o ex-assessor econômico Gary Cohn roubou uma carta da escrivaninha do Salão Oval, no que Woodward descreve como um golpe administrativo. A carta notificava a Coreia do Sul do cancelamento de um tratado comercial com os EUA. Trump não teria notado o sumiço. Cohn retirou a carta para proteger o país num momento de tensão com a Coreia do Norte.

Como numa intervenção de família para convencer um viciado a procurar tratamento, o presidente foi levado por assessores a uma sala de reuniões secretas do comando no Pentágono. Queriam, num cenário dramático, explicar a ele a importância de relações econômicas e militares com aliados para a segurança nacional. Trump não quis conversa e partiu para cima dos generais, esbravejando sobre o custo de manter 28 mil soldados na Coreia do Sul. Woodward escreve: “O presidente falava como se os militares dos EUA fossem uma força mercenária de aluguel.” 

Alguns aliados de Trump contestaram o cenário descrito por Woodward. Mas as pesquisas de opinião mostram que a maioria dos americanos não tem ilusão sobre o presidente. Woodward conta que, há dias, um atual assessor da Casa Branca telefonou dizendo que todos sabem que é verdade, mas vão desmentir. O livro se concentra em economia, segurança nacional e política externa, sem foco em questões que afetam o tecido da democracia, como o tratamento de imigrantes e a documentada violação de normas éticas.

O que Fear revela de importante não é a perigosa incompetência de um presidente. A mais assustadora conclusão diz respeito ao Partido Republicano, a uma elite econômica e política que tratou o empresário como um programável candidato da Mandchúria. Fica claro que a ascensão de Trump foi viabilizada em troca de prêmios como vagas na Suprema Corte. Woodward não contesta seus entrevistados como os “adultos” na linha de defesa entre o presidente e o povo. A história vai se servir do livro, mas não vai perdoar seus personagens.

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