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Joseph Conrad narra colonização do Congo belga em clássico reeditado

Livro do polaco-britânico inspirou 'Apocalypse Now', de Francis Ford Coppola, que trocou a paisagem pelo Vietnã

Caio Sarack*, Especial para o Estado

10 de agosto de 2019 | 16h00

A capa dura e negra da nova edição de Coração das Trevas (pela editora Ubu – a recém-criada Antofágica também está publicando uma nova edição do mesmo livro) do polaco-britânico Joseph Conrad, quando deixada sob um sol inesperado nesse inverno, retorce-se e como que nos convida mais uma vez à leitura. Qual é o ponto de virada para que o calor ameno de uma luz invernal se transforme na quentura tão forte capaz de submeter a dureza de uma capa? A descrição, aparentemente trivial, pode nos indicar o caminho pelo qual percorrer as “trevas” de Conrad. 

O livro teve uma projeção maior com a épica adaptação do cineasta Francis Ford Coppola, Apocalypse Now (1979), que troca o Congo colonizado pelo território vietnamita. Ao leitor fica o convite de juntar as cores vibrantes do filme com as descrições de Conrad. Ambas histórias, adaptação e original, vão destruindo a clareza civilizatória: o Congo sendo estabelecido como propriedade de Leopoldo 2.º e o Vietnã, como bode expiatório da Guerra Fria. Conrad conta a história do neocolonialismo europeu em terras africanas, barbaridades e violações que se tornaram estatísticas da marcha civilizatória. No texto, assumem espírito e letra encarnados pelo choque que existe entre linguagem e objeto a ser comunicado: como é possível traduzir tudo isso? A língua se esforça para alcançar o mundo – e perece.

Marlow, contador dos exóticos instantes, não possui outra saída a não ser se dar conta da selvageria que o cerca e que, no caminho de volta à civilização, percebe que a selvageria sempre foi constitutiva dessa mesma civilização. A indiferença à morte e à fome, aos corpos esfolados pelo trabalho exaustivo e sem sentido, todos esses aspectos trazem ao escritor contrastes com a língua ordenada, descritiva e muito esclarecida.

Do comecinho do século 20, este romance (lançado em 1902) apresenta ainda todos os recursos narrativos tradicionais que podemos esperar: a moldura da memória, aquela introdução que permite à personagem contar suas histórias para um ouvinte; seus impulsos de juízo sobre os eventos, interpretações e deslindes de situações específicas, exóticas ou grotescas; além de lançar mão de uma linguagem que glosa pontos de vistas, discurso indireto livre que mescla os diversos matizes que podem se encontrar na história a ser exposta para o leitor. A tradição do romance e do realismo, que seriam postos em xeque nos anos seguintes, não são suficientes para nos aproximarmos do texto de Conrad; antes, é preciso lê-lo com nossos olhos, buscando no clássico as ranhuras que ele evidencia em nossa própria casca.

Voltemos à imagem da capa retorcendo-se ao sol. Podemos, a partir dela, imaginar personagens no calor e mergulhados num rio lodoso e estranho no qual atracaram as embarcações colonialistas: as lembranças do narrador vão costurando mitos e superstições de uma clareza quase científica. Os mistérios, porém, não são exauridos sempre que aparecem e reaparecem; ficam, é verdade, orbitando os trechos das situações narradas de modo que sentimos, como leitores de hoje, um certo cinismo do autor. 

Vejamos isso na voz do narrador: “Deixei que ele prosseguisse, aquele Mefisto de papel machê, e me pareceu que, se eu tentasse enfiar meu indicador nele, não encontraria nada em seu interior a não ser um pouco de sujeira espalhada, quem sabe.” Muito mais do que a soma descritiva do entorno, da floresta que cresce indomável para além da cerca da concentração no coração das trevas, o narrador assume uma postura, a essa altura, distanciada e esclarecida, como um adulto a decifrar as aritméticas de seu filho mais novo. A desordem vai tomando conta da narrativa, como se alguns percalços atrapalhassem a clareza do adulto que agora rascunha no verso algumas soluções para a equação sobre a qual fez tão pouco no início. 

O narrador não controla mais a história, o exotismo se transforma em perspectiva própria: “Eu disse que via com clareza o que ele sugeria, mas desejava certa quantidade de rebites – e rebites eram o que o sr. Kurtz realmente gostaria de ter, se ele de fato soubesse da situação. Assim, enviaram-se cartas para a costa toda semana… ‘meu caro senhor’, ele se queixava, ‘escrevo o que me ditam’. Eu exigi rebites. Para um homem inteligente haveria uma saída. Ele mudou de atitude; tornou-se muito frio e de repente começou a falar de um hipopótamo, quis saber se o fato de eu dormir a bordo do vapor (eu me atinha ao meu salvamento dia e noite) não me perturbava. Havia um velho hipopótamo que tinha o mau hábito de sair para a margem e perambular no terreno entreposto.”

ontraste este que começa a tomar peso descritivo, porque essa estranheza é o único recurso de compreensão: as aspas, marcadoras do discurso direto, são onipresentes no romance conferindo-lhe, ao mesmo tempo, realismo e perspectivismo. Ora, se o narrador possui a experiência e pode nos contar essa história como alguém que esteve lá, o narrador que escreve o livro (observador e que iniciou conosco as três páginas dessa lindíssima edição) não pode fazer outra coisa que nos reportar essa experiência. É pelo bem da verdade! A edição que folheio vai engrossando a tipografia como quem não consegue acompanhar a história sem lhe respeitar as ênfases. A cada “capítulo” o negrito fica mais espesso, como aquela “neblina branca, muito quente e pegajosa, e mais cegante que a noite”.

A literatura de fins do século 19 e do início do passado (que nos rememora o problema fundamental do realismo até hoje) enfrenta com todos os seus instrumentos a descrição sobre o que nos cerca, inclusive o que está sob nossos pés, vacilantes e viscosos solos subterrâneos. As imagens que constrói Conrad vão se sobrepondo ao raciocínio quase como num ready-made dadaísta – a loucura do dadá emula de certa forma a torção da razão existente e soberana até aquele momento, o do romance e de Marlow. A capa dura dessa edição e o cheiro das tintas das ilustrações adicionam ainda mais sentido ao leitor de hoje. 

*CAIO SARACK É MESTRE EM FILOSOFIA PELA USP E PROFESSOR DO INSTITUTO SIDARTA E DO COLÉGIO NOSSA SENHORA DO MORUMBI

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