Jon Thys/AFP
Jon Thys/AFP

Jovens artistas chegam e Bruxelas vira novo polo cultural europeu

Novos museus e galerias ajudaram a transformar o tecido cultural da cidade na última década

Ceil Miller Bouchet, The Washington Post

21 de dezembro de 2019 | 15h59

Minha jornada começou com cinco palavras: “Bruxelas é a nova Berlim”. Frase só para atrair a atenção de leitores de sites? Sem dúvida. Mas essas palavras funcionaram quando uma jovem amiga artista me contou sobre sua iminente mudança do Brooklyn para a capital belga. Um ano depois, toquei a campainha de seu novo estúdio, no bairro da classe trabalhadora de Anderlecht, em Bruxelas – a primeira parada de uma semana na exploração da cena contemporânea da cidade que está chamando atenção na Europa.

“Sinto que há uma real autenticidade aqui”, minha amiga, a artista Tessa Perutz, me disse, passando tinta a óleo verde-cádmio em uma de suas paisagens abstratas de tons alegres. A britânica- americana de 31 anos se preparava para uma exposição dali a pouco tempo na Galleria Marie-Laure Fleisch, um dos quase 200 locais dedicados às artes na cidade. “É uma mudança tão grande do Brooklyn”, continuou ela, agachada em um banquinho de frente para seu trabalho. “Bruxelas é cosmopolita, mas pequena, e posso me dar ao luxo de ter um lugar agradável. Isso me deixa mais espaço mental para a pintura.”

Perutz está entre o afluxo de artistas e galeristas internacionais que ajudaram a transformar o tecido cultural da cidade na última década. A partir da força regional da Art Brussels – a segunda feira de arte mais antiga da Europa – em um país que, segundo muitos especialistas, possui o maior número de colecionadores per capita do mundo, Bruxelas desenvolveu um ecossistema quase perfeito para produção e aquisição de arte e, para visitantes curiosos como eu, a simples apreciação.

Usando o prático guia de arte de Bruxelas que eu havia comprado na agência de turismo, era fácil caminhar entre as grandes galerias de arte contemporânea nos bairros centrais de Ixelles e Saint-Gilles da cidade, onde fui ver Xavier Hufkens, Rodolphe Janssen, La Patinoire Royale e muitos outros, absorvendo exposições com qualidade de museu em espaços lindos.

Mas, sendo Bruxelas, também havia muitos lugares esquisitos instalados, especialmente em Saint-Gilles. Lá, ao lado de uma loja de quadrinhos, vi uma galeria de lojas chamada Damien & the Love Guru. Como não se pode parar em um lugar com um nome assim? E fiquei feliz porque a cofundadora, a antropóloga Priya Shetty – como todos os galeristas simpáticos que conheci – era um excelente guia para o bairro dela. Mais tarde, no Café la Pompe, um estabelecimento concorrido da esquina que Shetty recomendou, escutei uma conversa entre três amigas diretamente de um filme de Audrey Tautou.

Sablon, a terceira da região central da cidade lotada de bairros ricos em galerias, abriga a mais recente iteração do galerista Jan Mot de uma jornada de apoio à arte conceitual que começou em sua sala de estar em 1992. Ancorado entre o adorável Egmont Park e duas igrejas góticas, o bairro de Sablon também fica a poucos passos das principais instituições artísticas da cidade, como o centro cultural multidisciplinar, Bozar, e os Museus Reais de Belas Artes, que incluem o principal atrativo turístico da cidade, o Museu Magritte, uma homenagem ao surrealista belga do século 20.

Como nos dias de Magritte, Bruxelas acolhe pensadores originais, explicou o americano Harlan Levey quando eu parei na sua galeria, perto de Sablon, numa tarde de sábado. “Karl Marx morava ao lado”, disse. “As pessoas aqui têm uma propensão a se abrir para ideias incomuns”, continuou quando passamos por um visitante meditativo em silhueta contra uma tela de vídeo com imagens multicoloridas do documentário experimental de Emmanuel Van der Auwera, O Céu Está em Chamas.

Apresentando-me o local, sugeriu que eu fosse até Schaerbeek, um bairro badalado com grande presença turca. Mas eu estava mais interessada em Molenbeek, um bairro às margens da cidade, povoado principalmente por belgas de segunda e terceira geração de origem norte-africana, onde Levey logo expandia sua galeria em um antigo armazém que, ele me contou, mais recentemente foi usado como mesquita.

Enquanto eu me dirigia pelas tranquilas ruas na tarde de domingo em direção a um espaço cooperativo acessível de artistas de Molenbeek no dia seguinte, um encontro amigável apagou qualquer desconforto que eu pudesse ter sobre o bairro que abrigava os terroristas por trás dos ataques de Paris e Bruxelas há quase quatro anos.

“Bom, não é?”, um homem me perguntou em francês, quando ele e a esposa se aproximaram da padaria marroquina da esquina, onde eu acabara de comprar um pedaço de pita. “Oui!” Eu murmurei, retornando seus sorrisos e engolindo rapidamente. “De onde você é?”, sua esposa perguntou, ajustando sua echarpe cinza. Quando respondi que era americano, o homem mudou para um inglês impecável e me disse que seu tio mora em Chicago.

Apenas mais um encontro cordial típico de Bruxelas, eu percebi. Com 183 nacionalidades na última contagem do censo, um terço dos habitantes de Bruxelas não nasceu na Bélgica. Francês, holandês e alemão são os idiomas oficiais, o que faz do inglês a língua franca, e o intercâmbio cultural é parte da vida de quem o procura.

Vagando por LaVallée, onde 150 artistas em início de carreira ocupam estúdios de baixo aluguel em uma antiga usina de lavagem a seco, eu estava procurando a exposição de fim de semana sobre a qual eu havia lido na página do Facebook do local. Perto da parte de trás do pátio, vi uma mesa perto de uma porta aberta, na qual, ao lado de um grupo de cravos rosa, havia um cartão manuscrito: “Vire à esquerda na porta mais distante. Siga as setas que levam ao final do longo corredor. Aproveite!”

Foi assim que conheci a estilista floral de 34 anos, Larissa di Pietrantonio, belga de pais poloneses-italianos, cuja mostra com sua colega de estúdio, a pintora polonesa Hanna Ilczyszyn, mesclou imagens de pássaros, galhos, flores secas, desenhos e pinturas. “Este é um ótimo lugar para pessoas como nós”, me disse Di Pietrantonio. “Podemos colaborar entre disciplinas e ter uma abordagem realmente aberta”.

Algumas ruas a seguir, localizei um espaço dirigido por artistas chamado Société, refletindo a primeira vida do edifício como uma subestação da Société Bruxelloise d’Electricité. Mais uma vez, tive a colaboração da simpática atendente da galeria que falou comigo em inglês. Ela me ajudou a entender o programa, chamado “Erro encontrado”, no qual, por exemplo, o chão de uma sala estava cheio de tubos de luz fluorescente esmagados. “Nossas exposições colocam obras antigas bem conhecidas em diálogo com novas instalações como esta”, disse ela. “Société é o tipo de lugar puro que você teria visto em Nova York nos anos 1980”.

O fermento cultural de Bruxelas cristalizou-se quando saí de Molenbeek, e atravessei o Canal de Bruxelas – um tênue fio fino de água se expandiu nos anos 1800 para ligar a crescente indústria pesada da cidade sem litoral ao porto marítimo mais próximo de Antuérpia. Após três décadas de declínio pós-industrial, o canal agora mantém o nexo do renascimento criativo da cidade ao longo de suas margens.

Atrás de mim estava Tour & Taxis, o espetacular complexo vitoriano recém-reformado em Molenbeek, onde a Art Brussels ocorre todo mês de abril. À minha frente, o enorme casco de concreto do Kanal-Centre Pompidou, uma antiga fábrica de automóveis da Citroën, transformando-se lentamente no maior local cultural de capital público da região. E vários quarteirões abaixo, ao longo do aterro de concreto salpicado com arte de rua do canal, havia o Mima, um “museu do milênio” de arte urbana com financiamento privado na antiga cervejaria Belle-Vue.

Descobri que arte e cerveja também se fundem no bairro Forest da vizinhança, no Wiels Center for Contemporary Art. Projetada pelo arquiteto de vanguarda Adrien Blomme na década de 1930, a antiga cervejaria se ergue como uma proa de um navio art déco de cinco andares em uma esquina não muito longe da estação de trem Gare du Midi, de onde, aliás, você pode ir a Londres, Paris e Amsterdã em cerca de duas horas. O Wiels, reconhecidamente encarado como o mais dinâmico dos locais de arte contemporânea da cidade, nutre a expressão criativa multidisciplinar por meio de exposições de classe mundial por artistas vivos estabelecidos e residências para artistas emergentes de todo o mundo.

No quarteirão seguinte, vi uma placa de waffles pendurada acima da campainha da Clearing, como a bigorna de uma ferraria da era colonial. Apenas mais um sinal de que os belgas – como Olivier Babin, que fundou o espaço financiado por artistas em Bushwick, no Brooklyn, uma década atrás – tentam não se levar muito a sério. Dentro da antiga fábrica de persianas elegantemente renovada, há um espaço de exposição semelhante a uma catedral para esculturas de grande escala e até um aconchegante restaurante de oito mesas para almoço ou brunch de fim de semana.

No meu último dia em Bruxelas, um caleidoscópio de experiências se fundiu quando, fora da igreja de Notre Dame de la Chapelle, confundi um artista com um santo. Ao me aproximar da estátua de bronze, notei que o gigante barbudo empunhava um pincel em vez de um cetro. Em seu ombro, empoleirava-se um macaco com um chapéu em forma de funil, em vez de um anjo. Perto da base da estátua, localizei, com dificuldade, uma placa de metal desbotada colocada nos paralelepípedos que diziam “Pieter Bruegel, 1525-1569”. O mestre flamengo, que revolucionou a pintura em sua época, foi enterrado dentro da igreja.

Os belgas, ao que parece, têm uma reverência pelos artistas do passado e do presente. Mas e o macaco? Mais tarde, li que isso representa o aceno do escultor Tom Frantzen, com sede em Bruxelas, na irreverência de seus compatriotas: uma qualidade belga única que, então, como agora, adota todos os tipos de criatividade. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

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