The New York Times
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Jovens se tornam colecionadores de livros raros e antigos

Acervos contam com exemplares assinados por autores estrelados e até rabiscos de antigos donos famosos, como Amy Winehouse

Kate Dwyer, The New York Times

14 de maio de 2022 | 16h00

No final do mês passado, durante a Feira Internacional de Livros de Antiquários de Nova York, no Park Avenue Armory, Rebecca Romney retirou da vitrine de seu estande um exemplar de Howl, Kaddish, and Other Poems, de Allen Ginsberg. Não o fez para recitar algum poema, mas sim para mostrar as coisas escritas nas margens.

Amy Winehouse rabiscara a letra de uma música não gravada ao lado dos versos de Ginsberg. “Dá para ver o processo artístico dela”, disse Romney. “É bem ao lado da arte de outra pessoa que ela cria algo novo”. O texto de Ginsberg é a peça central da coleção de 220 livros de Winehouse, que a empresa de Romney, a Type Punch Matrix, perto de Washington, DC, está negociando para vender por US$ 135.000. “A coleção mostra uma vida vivida através dos livros”, disse ela.

Romney é uma vendedora conhecida pelos fãs do reality ‘Pawn Stars’ como a especialista em livros raros do programa. Mas, aos 37 anos, ela representa um amplo e crescente bando de jovens colecionadores que vêm de muitos cantos da vida. Do outro lado do corredor, Luke Pascal, um ex-dono de restaurante de 30 anos, exibia uma caixa de cartas de Abraham Lincoln e George Washington.

Michael Suarez, diretor da Rare Book School da Universidade da Virgínia, disse que, atualmente, seus alunos são mais jovens e menos masculinos do que há uma década, com quase um terço frequentando os cursos com bolsas integrais. “O mundo do arquivo agora virou algo muito moderno”, disse ele.

É claro que a maioria dos colecionadores iniciantes não pode se dar ao luxo de gastar centenas de milhares de dólares numa primeira edição. Mas frequentando sebos e vendas de imóveis, vasculhando o eBay em busca de joias escondidas e aprendendo a identificar valor em todos os tipos de itens, entusiastas na faixa dos 20 e 30 anos vêm construindo coleções que refletem seus próprios gostos e interesses.

Seu trabalho já foi elogiado por prêmios de organizações e vendedores como Honey & Wax no Brooklyn, que reconhecem seus esforços para criar “as coleções mais engenhosas, imaginativas e originais”, em oposição às mais valiosas, disse Suarez. Como resultado, eles estão ajudando a moldar a próxima geração de um hobby e de um comércio rarefeito.

Vários jovens participantes se destacavam entre a multidão da feira – em particular, Laura Jaeger, uma jovem de 22 anos e cabelo rosa-choque. Sua mãe, Jennifer, é proprietária da Ankh Antiquarian Books em Chadstone, Austrália, loja especializada em livros sobre o Egito Antigo. Laura Jaeger está no processo de se tornar sócia do negócio.

Ela planeja expandir sua coleção para refletir seus interesses, disse ela, com livros sobre metafísica e fotografia. “Mas ainda conheço meus livros raros gregos, romanos e egípcios muito, muito bem”, disse ela. “Já faz tempo que consigo avaliar livros”.

Kendall Spencer, 30 anos, quer deixar sua marca no mundo dos livros de antiguidades. Formado em Georgetown Law, ele se apaixonou por livros raros enquanto pesquisava sobre Frederick Douglass e agora está trabalhando como aprendiz na DeWolfe & Wood Rare Books enquanto se prepara para fazer o exame da Ordem dos Advogados de Massachusetts.

“Se você andar por aqui, não vai ver ninguém parecido comigo nos estandes”, disse Spencer, que é negro.

A Associação de Livreiros Antiquários da América, um grupo comercial com mais de 450 membros, espera ver essa mudança. Em 2020, o grupo inaugurou uma iniciativa de diversidade para “incentivar e promover a participação de pessoas LGBTQ+, pessoas não brancas e outros grupos sub-representados no mundo do colecionismo e no comércio de livros”, escreveu Susan Benne, diretora executiva da organização, por e-mail. O grupo também introduziu um programa de estágio remunerado que coloca os participantes em firmas-membro.

“Quero ver mais pessoas como eu se interessarem”, disse Spencer, “e acho que isso começa com alguém convidando as pessoas”.

Primeiras edições por toda parte

Quando estão começando, muitos colecionadores se concentram em livros usados e vintage que têm importância por motivos pessoais, provenientes de brechós, sebos e de outros entusiastas amadores.

Thomas Gebremedhin, 34 anos, vice-presidente e editor executivo da Doubleday, começou comprando livros de bolso de sebos aos 20 e poucos anos, época em que entrou no Iowa Writers Workshop, uma maneira de ler autores não brancos cujos livros estavam esgotados, como Gayl Jones. Atualmente, ele consegue comprar livros raros muito mais caros, embora também compre primeiras edições por menos de US$ 10 em uma livraria “secreta” no Brooklyn.

“Dá para encontrar primeiras edições em qualquer lugar”, disse Gebremedhin, cuja coleção tem milhares de títulos.

Camille Brown, 30 anos, começou a colecionar livros quando tinha 23 e trabalhava no Letterform Archive, em São Francisco. “Comecei a postar no Instagram sobre as coisas que estava digitalizando”, disse ela, “o que me levou a postar sobre minha própria coleção pessoal”, que conta com livros sobre marcenaria e carpintaria (seu pai trabalha na construção civil). Aí as pessoas começaram a lhe pedir dicas.

“Isso me mostrou que havia mais interesse no mercado do que eu imaginava”, disse Brown. Agora ela é vendedora amadora de livros na plataforma e faz curadoria de livros vintage para butiques de roupas, obtendo a maioria de seus materiais de bibliotecas e vendas de imóveis.

Romney começou a colecionar livros raros aos 23 anos, quando foi contratada pela Bauman Rare Books em Las Vegas – um trabalho para o qual ela sentia que seu diploma de bacharel em estudos clássicos e linguística não a preparara. Mas ela descobriu que sua “cultura livresca geral” era o único pré-requisito relevante: qualquer nerd com um mínimo de curiosidade e inclinação para barganhar podia entrar no negócio.

Ela disse que colecionar pode ser “um exercício de autobiografia” – uma maneira de ver facetas de sua própria experiência refratadas no espelho da vida de outra pessoa. Por exemplo: Margaret Landis, 30 anos, é uma astrofísica que coleciona textos relacionados às descobertas de Maria Mitchell, a primeira astrônoma dos Estados Unidos. E Caitlin Gooch, fundadora de uma organização sem fins lucrativos de alfabetização na Carolina do Norte, coleciona não ficção relacionada a cavaleiros negros.

O pai e o tio de Gooch vinham documentando a “história de caubói” da família, disse ela, antes de seu tio morrer e a coleção se perder. “Não sabemos onde estão essas fotos e documentos”, disse ela, “então, para mim, encontrar esses livros, mesmo que não sejam diretamente sobre minha história, significa que poderei compartilhar as informações deles”.

Julgando o livro pela capa

Além do vínculo com o passado, os colecionadores se sentem atraídos por títulos e edições que têm boa aparência. É por isso que, como disse Jess Kuronen, a capa dos livros desempenha um papel considerável no preço.

Kuronen, 29 anos, é proprietária da Left Bank Books em Manhattan, que atende ao que ela chama de colecionadores “iniciantes”. Em sua loja, uma primeira edição de On the Road, de Jack Kerouac, sem a sobrecapa custa US$ 500. Uma primeira edição “quase perfeita” com a sobrecapa foi vendida recentemente por quase US$ 7.000.

Na Rare Book School, disse Suarez, os alunos “aprendem a ler os códigos gráficos, as ilustrações e os códigos sociais” para entender “a vida desse livro ao longo do tempo em várias comunidades”.

“Definitivamente, há pessoas que querem comprar livros usados em vez de livros mais novos”, disse Addison Richley, 28 anos, dono da Des Pair Books, no bairro de Echo Park, em Los Angeles. Assim que termina um livro de que gosta, ela vasculha a internet em busca de “uma cópia mais bonita ou uma edição mais interessante”. Recentemente, um cliente se recusou a comprar a cópia nova de um livro vintage que tinha visto no Instagram da loja.

“Eles me explicaram que um livro usado é mais especial porque tem personalidade”, disse Richley.

Brynn Whitfield, publicitária de tecnologia de 36 anos, começou a colecionar livros de xadrez antigos há cinco anos. “Estou recebendo cada vez mais elogios por ter esses itens na minha casa”, disse ela. “As pessoas acham que é mais legal do que os livros de mesa de centro típicos”.

Embora as vendas de livros usados prosperem online, a maioria dos vendedores acredita que tem coisas que só o passeio pelas prateleiras pode oferecer.

“No nosso tempo, só tentam vender o que a máquina acha que você já quer”, disse Josiah Wolfson, 34 anos, proprietário da Aeon Bookstore, uma loja subterrânea no baixo Manhattan. “Não quero pressupor o que todo mundo está procurando, mesmo que estejam colecionando uma coisa específica”.

Às vezes, o livro que salta aos olhos não é aquele que o colecionador planejava adquirir. Mas, como disse Gebremedhin, a “lógica emocional” de uma capa vintage acaba mexendo com o colecionador.

“Acabei de receber uma primeira edição de Naked and the Dead”, disse ele. Ele não é fã de Norman Mailer, seu autor. Mas “É uma capa muito bonita”.

Abrindo espaço na prateleira

O mercado de livros usados e raros é um sistema circular de materiais e ideias, e muitos colecionadores jovens, entre eles Wolfson, veem suas prateleiras como “fluidas”. Ele muitas vezes repassa alguns títulos de sua coleção pessoal para o estoque da Aeon, um processo que ele compara à adivinhação. Se um livro não importa mais para ele, “alguém deveria usufruir do benefício”.

Gebremedhin está pensando em doar sua coleção para a Biblioteca Pública Columbus, em Ohio, onde cresceu. Ele doou 500 livros antes de se mudar para um novo apartamento no Brooklyn. “Muitos dos livros que entram na minha casa acabam encontrando outra pessoa”, disse ele. “É a beleza de ler e compartilhá-los”.

Brown, que vende livros pelo Instagram, disse que “acessibilidade” é o impulso orientador de seu trabalho. A internet, disse ela, “abre a porta para esses objetos viverem muito mais vidas que viveriam de outro jeito”.

De volta à feira, Jesse Paris Smith, 34 anos, e sua mãe, a cantora e compositora Patti Smith, estavam olhando um livro escrito por Charlotte Brontë quando ela tinha 13 anos. Para as duas, debruçar-se sobre textos e capas tem sido uma forma de ficarem ainda mais unidas. (Patti Smith começou a colecionar livros por volta dos 9 anos, quando comprou A Child’s Garden of Verses em um bazar da igreja por 50 centavos; hoje, vale US $ 5.000).

As Smith também doam livros periodicamente. “É doloroso, mas tentamos colocar os que não estamos lendo de volta no mundo”, disse Jesse Smith.

“Mas não nossos livros especiais!”, disse Pati Smith.

Este artigo foi originalmente publicado no The New York Times. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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