Vincent Kessler/Reuters
Vincent Kessler/Reuters

Joyce Carol Oates capta a instável realidade da viuvez em 'Breathe'

Autora se inspirou na própria experiência de luto após a morte do segundo marido

Mark Athitakis*, The Washington Post

19 de agosto de 2021 | 10h00

Joyce Carol Oates dedicou seu novo romance, Breathe [Respire, em tradução livre], ao seu segundo marido, Charles Gross, que faleceu em 2019. Os paralelos entre romance e realidade são impossíveis de não notar. Como a escritora, a personagem do romance, Michaela, é uma escritora e professora bem-sucedida. E está de luto pela morte do marido, Gerard, que, como Charles Gross, era neurocientista. A angústia de Michaela é intensa desde o início, à medida que observa Gerard no seu leito de morte, “implorando em desespero”, ela escreve, “com uma esperança pueril, irracional. Implorando para seu marido; Respire! Não pare de respirar!

“Irracional” é a palavra-chave. Breathe é uma narrativa apaixonada, mesmo para os padrões sombrios, góticos, de Oates, dramatizando a dor de Michaela à medida que essa dor se transforma em desorientação e depois em transtorno mental. Como narradora, Michaela adota o pensamento mágico de Joan Didion. Ela narra de maneira pouco confiável, como alguns narraram duvidosamente antes. Uma narrativa dolorosa e às vezes exagerado.

A viuvez é um tema que Oates conhece bem. Em 2011 ela publicou A História de uma Viúva, uma coleção de artigos de jornal que escreveu sobre a morte do seu primeiro marido, Raymond Smith, falecido em 2008. O livro era repleto de detalhes cotidianos - o trabalho de telefonar, as mensagens e os arranjos que acompanham a perda. (Críticos observaram que Oates abrangeu tudo, menos o fato de ter se casado com Gross pouco mais de um ano depois da morte de Smith).

O início de Breathe é rico, com muitas passagens similarmente refinadas sobre a mórbida desorientação de Michaela diante da sua viuvez. Ela perdeu não só o marido, mas grande parte da sua identidade. “Se não existe alguém para nos admirar, nós existimos?” “Se não há ninguém para nos amar, merecemos existir?”.

Os tormentos interiores de Michaela são compensados pelo ambiente plácido em que o romance é ambientado: uma cidadezinha perto de Albuquerque onde Gerard passou a residir para terminar um livro e onde Michaela dá aulas de como escrever uma biografia. É um lugar de “céus como os pintados por El Greco” perturbados somente pelas obras de arte dos deuses de Pueblo na casa que alugaram e que deixam Michaela estranhamente perturbada. O casal planejou passar alguns meses agradáveis longe de Cambridge, Massachusetts, quando Gerard fica sabendo que tem um câncer no último estágio. O livro de Gerard tem o título The Human Brain and Its Discontents [O cérebro humano e seus descontentamentos, em tradução livre] e depois do diagnóstico o descontentamento acelera, à medida que ambos rapidamente se desenvolvem mentalmente.

Michaela procura enfrentar o declínio de Gerard continuando com suas aulas, mas tem problemas para se manter no caminho. Quando é informada que o marido morreu, ela vividamente imagina ter recebido a mensagem da sua ressurreição. Em vez de se concentrar em cumprir o desejo de Gerard de ser cremado, ela insiste em pensar na insensatez do nome da funerária - Chapel of Chimes [Capela do carrilhão] - e o absurdo da palavra cinzas (da cremação). O mundo se desfez. “Como a vida é ridícula”, ela pensa.

Durante sua carreira de seis décadas, notoriamente profícua, Joyce Carol Oates aperfeiçoou algumas estratégias para retratar esse tipo de situação difícil por que passa uma mulher. Nenhum escritor antes de Emily Dickinson usa mais o ponto de exclamação para comunicar a alienação maníaca: “Chapel of Chimes - o cérebro entorpecido de Michaela ouve “Chapel of Crimes”. Parênteses são colocados para capturar a maneira como a mente perturbada de Michaela continua a se deixar levar pela morbidade. “A vida da viúva é a vida de um penitente carregando seu coração do lado de fora do seu corpo”.

Mas numa época em que até simples sentenças declarativas começam a ser distorcidas, as expressões de Michaela de perda, no início sombrias, mas racionais, se tornam obsessivas e insanas. “O primeiro dever da viúva é se juntar ao seu marido”. A narrativa vai mais fundo na segunda pessoa, como se estivesse tentando recrutar o leitor para sua visão de um mundo distorcido que ela espelha. Todos os tipos de inquietação sobre raça, espiritualidade e a mente começam a brotar. Michaela teme ser vítima iminente de uma daqueles deuses de Pueblo, “um deus de olhos vazados, deus Caveira, deus com figura de animal, deus escaravelho, pronto para devorar os órgãos do corpo”.

A viuvez não apenas é uma causa de luto, mas uma espécie de bomba de drenagem para a psique, esvaziando tudo.

Como um retrato da irrealidade cambaleante da existência que ocorre com a morte de um ente querido, Breathe é eficaz e angustiante. Oates encontrou uma maneira efetiva de solucionar a história preservando a irracionalidade de Michaela. Ela não teme chegar ao ponto do exagero para assinalar que a perda de alguém que amamos extrai uma parte de nós. Mas isso também significa que ela torna Michaela uma figura caricaturesca nas etapas finais do romance. Nada de racional chega a ela. Ela vê os deuses de Pueblo como monstros malvados. E mesmo as aulas, que somente lhe trazem pessoas nas quais não pode confiar. Ela não tem amigos e nem família. Está tão inconsolável que se torna menos um personagem e mais um símbolo triste da desolação.

O cérebro histérico de Michaela evapora a afeição que definiu seu casamento. “Ser uma boa viúva, e para ser uma boa viúva, é preciso saber mentir de modo convincente”, escreve Oates quando Michaela começa a cair na irracionalidade. Nos seus melhores momentos, Breathe mostra como isso tem algum sentido; muitas relações são feitas das histórias que contamos um para o outro. Mas é também um romance que se apaixona pelo seu retrato da paranoia - e essa não é uma relação saudável para ninguém. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

*Mark Athitakis é um crítico de Phoenix e autor de The New Midwest.

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