Alon Siga/Todavia
Alon Siga/Todavia

Judias são salvas do nazismo com casamentos arranjados em livro

'Uma Noite, Markovitch', da israelense Ayelet Gundar-Goshen, é publicado no País pela primeira vez

Faustino da Rocha Rodrigues*, Especial para o Estado

09 Junho 2018 | 16h00

Um encontro às cegas. Dele, Markovitch sairá casado. A iniciativa é um artifício para salvar a vida de judeus perseguidos pelo nazismo. Casando com israelenses, poderiam emigrar. Parece simples. Porém, mesmo a simplicidade não é tão simples.

+Obra de poeta russo que não deixou seus versos escritos é reeditada

+Chega ao Brasil uma nova edição dos poemas de Herberto Helder

Uma Noite, Markovitch, de Ayelet Gundar-Goshen, após circular por 14 idiomas, é publicado agora no Brasil, pela Todavia, com tradução de Paulo Geiger. A história aborda a perseguição judaica, a 2.ª Guerra e a formação de Israel, contexto propenso à descrição de imensos atos de bravura e criação de mitos. Se hoje Israel precisa se explicar frente ao mundo, em tese, teria um livro de literatura a ostentar uma narrativa icônica, apontando até mesmo para justificar ações, sempre enaltecendo seu povo por meio de narrativas sobre os primeiros imigrantes, colonos judeus. 

No contato com a obra, o trivial da vida dos personagens em meio a um turbilhão de acontecimentos e incertezas chega a ser admirável. O leitor até esquece da complexidade histórica do conflito que percorre o restante do século. Isso porque Gundar-Goshen não está interessada na história de Israel, mas, sim, na de pessoas comuns. 

O peso do contexto histórico coloca dúvidas sobre a relevância de elementos supostamente banais, como a libido de um herói de guerra, incansável em narrar publicamente seus feitos. Entretanto, a autora aposta justamente no contrário, enfatizando essas coisas aparentemente pequenas, revelando diferentes motivações das ações individuais. Logo, os fatos secundários tornam-se o motor da narrativa. E a história de Israel passa a orbitar ao seu redor. Progressivamente, o leitor prende-se ao comum, às coisas mundanas, pelo seu peso na formação dos traços dos personagens, os artífices de toda a história. 

Redimensionar esses elementos comuns é uma capacidade admirável em Gundar-Goshen. A narrativa em terceira pessoa permite-lhe entrar e sair da cabeça dos personagens, expondo pensamentos, imaginações e expectativas. Fazer isso escolhendo como momento histórico a formação de Israel, sendo a escritora judia-israelense, requer rara habilidade literária para se esquivar do campo ideológico sionista tão vigoroso e disposto a tomar para si a iniciativa de narrar o momento. 

Seguindo esta lógica, Gundar-Goshen desenha um protagonista cujas “feições eram espantosamente destituídas de singularidade, a ponto de o olho não conseguir se demorar nelas”. Iaakov Markovitch tem a sua falta de sal sublinhada pela amizade com Zeev Feinberg, o protótipo do herói, da bravura, cujo destemor é proporcional à virilidade e apreço pelas mulheres a render-lhe aventuras e apuros. Ao contar seus feitos, renova a narrativa sobre si. Feinberg seria o herói perfeito para um povo em formação, desejoso da própria história. 

Heróis sabem o que fazer com dilemas. Não titubeiam. A escolha, seja qual for, sempre estará orientada pelo senso moral – mesmo significando o sacrifício. Os personagens de Gundar-Goshen não são assim. Se existem imagens perfeitas e uma ansiedade em aprisioná-las na história, existem idealizações sobre os feitos heroicos a se tornarem ainda mais importantes para a vida comum. 

Voltando ao casamento do início, é sob o prisma da imaginação, expectativa, simplicidade, entre outras coisas, que Markovitch, após peripécia na Terra Santa, tem de fugir temporariamente para a Europa. O objetivo é casar com uma jovem judia, salvando-a da iminente ameaça nazista. Ao chegarem em Tel-Aviv, a boda seria desfeita. O protagonista cria enorme expectativa quanto ao rosto de sua futura noiva, passando noites de insônia. E por mais que fantasie uma beleza descomunal, o estonteante aspecto divino de Bela Zeigerman ainda o surpreende. Eis a habilidade da autora em trabalhar com a dicotomia expectativa-realidade. 

Gundar-Goshen sugere a impossibilidade de se aceitar os acontecimentos de modo simples, sem as reflexões a desnudarem a complexidade envolvida. Ou seja, praticamente nada pode ser projetado de modo prévio, ainda mais ao se considerar as particularidades de cada indivíduo. Somente por esta lógica é que se poderia entender – embora não justificar – como um homem aparentemente sem qualidades é capaz de exercer um imenso poder sobre “a mulher mais bela do mundo” ao recusar o divórcio do casamento arranjado, aprisionando-a. Mesmo comportando-se de modo cruel, Markovitch desperta compaixão por sua condição, por mais condenável que seja sua atitude. 

A apresentação de personagens na forma de imagens claras, previamente definidas por preceitos morais compartilhados socialmente, muito bem delimitados, garantindo a certeza do leitor quanto a atitudes que ele tomaria a partir de dilemas enfrentados, não é novo. Gundar-Goshen demonstra possibilidades outras ao revelar os dilemas de modo não mecânico e sublinhar o comum na vida de cada um, gerando identificação com o leitor, rompendo o socialmente perfeito. Narrar tais dilemas é um desafio. Saber narrá-los, um mérito. 

*Faustino da Rocha Rodrigues é jornalista, cientista social e professor da Universidade do Estado de Minas Gerais 

Mais conteúdo sobre:
Israel [Ásia] nazismo literatura

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.