Ricardo Brajterman
Ricardo Brajterman

'Kallocaína', distopia sueca de 1940, antecipou temas de George Orwell

Publicada pela escritora Karin Boye, livro narra as agruras de um cientista inventor de um soro da verdade

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

19 de outubro de 2019 | 16h00

Tanto fizeram e continuam fazendo, que Distopia, a exemplo de Policial, Guerra, Romance, já se consolidou como um subgênero literário, com nicho exclusivo em algumas livrarias estrangeiras. Ficção científica e literatura futurista ou de antecipação tornaram-se qualificativos demasiado genéricos para fantasias ambientadas em sociedades opressivas ou constantemente assombradas por ameaças autoritárias como, por exemplo, a que o general Villas Bôas dirigiu ao STF, no início da semana, e o presidente da República vem realejando desde a campanha eleitoral. 

Da obra de Ray Bradbury, por exemplo, só Fahrenheit 451 divide a mesma prateleira de 1984, de George Orwell; Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley; Nós, de Yevgueni Zamiátin; e O Homem do Castelo Alto, de Philip K. Dick.

Os clássicos distópicos não saem, et pour cause, dos catálogos das editoras, são constantemente retraduzidos e convertidos em filmes e séries de TV. Avidamente consumidos por puro deleite ou mesmo por masoquismo e catarse, sobretudo depois da eleição de Trump, eles ganharam, nos últimos tempos, pelo menos uma dedicada praticante de alto nível, a canadense Margaret Atwood, premiada dias atrás com o prestigiadíssimo Booker Prize pela continuação de O Conto da Aia (The Handmaid’s Tale).

Em The Testament, Atwood nos devolve, 15 anos depois, à teocracia fundamentalista e militarizada de Gilead, em relato não mais conduzido por Offred, mas por três vozes femininas: a instrutora Lydia e duas jovens que não conheceram o mundo antes da tirania machista. Era intenção da autora não levar The Handmaid’s Tale adiante, mas a supressão da liberdade e a assustadora ascendência de religiosos fanáticos em diversas democracias laicas e certas dúvidas levantadas por leitores do romance desde a sua publicação, convenceram-na do contrário.

A ficção distópica era, até pouco tempo, um feudo masculino. O protagonismo conquistado por Atwood veio dar continuidade a um efêmero desvio ocorrido em 1940, com a publicação de Kallocaína, da sueca Karin Boye (1900-1941). A poeta mais querida dos suecos, Boye escreveu apenas dois ou três livros de ficção, nenhum do mesmo vulto e repercussão internacional de Kallocaína — Um Romance do Século 21, que acaba de ser reeditado pela Carambaia (256 págs., R$ 86), em nova tradução, de Fernanda Sarmatz Akesson. 

A tradução anterior, do gaúcho Janer Cristaldo, tradutor de Ernesto Sábato, Robert Arlt e outros autores latino-americanos, saiu pela Editora Americana, em 1974, e até em sebo é difícil encontrá-la. Já estava fora de catálogo seis anos atrás, quando Michel Bercovitch encenou, no Teatro Sérgio Porto, do Rio, uma adaptação do texto ao teatro. A minissérie em dois episódios, dirigida por Hans Abramson para a TV sueca em 1981, nunca chegou aqui. 

Kallocaína não se traduz por “Calocaína” (bom nome para remédio contra dor e droga ilegal) porque deriva de Kall, Leo Kall, seu inventor, fictício cientista do totalitário Estado Mundial, que atrás das grades escreveu suas memórias da distopia em que teve a desventura de viver. Não é um opioide, mas uma espécie de pentotal turbinado, o supra-sumo do que vulgarmente chamam de “soro da verdade”. Injetado na corrente sanguínea do paciente, solta-lhe a língua com mais eficácia que as promessas de uma delação premiada. 

A kallocaína é o sonho dourado do Grande Inquisidor de Doistoievski, o demo padroeiro das distopias e uma das prováveis referências literárias de Boye. Outra é Kafka, reconhecida pela própria escritora, que, aliás, teve uma vida conturbada, confrontando a família, a crença religiosa e a identidade sexual. Livre de um casamento infeliz com um colega de ativismo político de esquerda, assumiu seu lesbianismo, mas a depressão levou-a ao suicídio, em abril de 1941, um ano após a publicação de Kallocaína. 

A decepção que tivera com a União Soviética em 1938 e o que presenciara nos albores do nazismo, numa estada em Berlim para tratamento psicanalítico contra a depressão, foram os detonadores de Kallocaína, como também de 1984, publicado oito anos depois. 

Não se sabe se Orwell conhecia o romance de Boye. As distopias de Zamiátin (1920) e Huxley (1932) ele não apenas as leu como as resenhou. Há pontos em comum entre Leo Kall, um cientista como o D-503 de Nós, e Winston Smith, o anti-herói de 1984, assim como entre o Estado Mundial de Kallocaína, o de Admirável Mundo Novo, e a Oceânia à mercê do Big Brother. 

As tiranias são espelhos umas das outras: o Estado é tudo, o indivíduo não é nada, o amor é um sentimento obsoleto e, acima de tudo, perigoso, subversivo, e o livre arbítrio, um luxo inadmissível. O que importa é a ordem, é a harmonia sob tacão de forças armadas e tecnologicamente avançadas a serviço de uma elite difusa. 

O slogan do Estado Mundial de Huxley—“Comunidade, Identidade e Estabilidade”—são engodos demagógicos, invalidados pela ausência dos valores básicos da liberdade de escolha e expressão, da fraternidade sincera e da igualdade social. Huxley agendou seu “mundo novo” para circa 2545 (ou 632 anos d.F, isto é, depois de Ford, Henry Ford), mas em 1959 admitiu ter subestimado a rapidez com que os novos recursos de manipulação do comportamento humano avançaram nas duas décadas anteriores.

Huxley inventou o soma, uma espécie de “soro da euforia” que induz as pessoas a um estado de otimismo e bem-estar físico, de inestimável valia para a sustentação de qualquer ditadura. É um consolo constatar que nem o soma nem a kallocaína tenham sido inventados. Talvez porque, a essa altura, desnecessários.

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