Karl Max para inglês e brasileiro ver

Karl Max para inglês e brasileiro ver

Como um motoboy brasileiro ilegal, filósofo do cotidiano de Londres, vira personagem do ‘jeitinho britânico’

Flavia Guerra

10 de abril de 2010 | 10h42

 

"Meu nome é Karl Max de Almeida. Tipo o filósofo, saca? Mas sem o R. Porque minha mãe leu O Capital. Saca O Capital? Aquele livrão que todo mundo fala e ninguém lê? Então, minha mãe lê muito e adorou esse livro. E meu pai se chama Dimax. Ela juntou uma coisa à outra e resolveu me chamar de Karl Max, que eu acho que é um nome bonito. Diferente."

 

Assim eu fui apresentada a Karl Max, o homem, não o filósofo, em uma tarde ensolarada do outono londrino.

 

Quem tivesse a sorte, ou azar, de chegar até a oficina do Edinho com venda nos olhos juraria que se tratava de um "pico" em Goiânia e não de uma garagem úmida em pleno East London. Max ia ao Edinho todo sábado encontrar os muitos amigos brasileiros, alguns ingleses, matar a saudade de casa com churrasco ("feito com autêntica alcatra da Casa de Carnes Brasil") e cantar Bruno e Marrone com direito a berrante no final.

 

Para uma aspirante a diretora de documentários em busca de seu personagem principal, Max era bom demais para ser verdade. Brasileiro, goiano, imigrante ilegal na "capital do mundo", vestindo uma camiseta da Seleção canarinho e falando daquela forma, estava pedindo: "Por favor, me filma!"

 

Foi amor ao primeiro take. O documentário, que se prestaria a retratar o dia a dia dos motoboys brasileiros em Londres, virou um filme sobre a vida de Karl Max. Ele era apenas um entre os milhares de couriers (como são chamados em inglês) londrinos. Desses milhares, cerca de 80% são brasileiros e ilegais como Max. No entanto, seguindo a máxima dos mestres do gênero, "se quer contar a história dos correios conte a história de uma carta", elegi Karl Max como filósofo absoluto do cotidiano das ruas de uma cidade que aspira ao suprassumo da civilização europeia, mas respira as contradições de toda grande cidade do Terceiro Mundo.

 

"O outro Karl era socialista. Mal criou a própria filha porque só pensava nos outros. Vivia em prol da sociedade. Eu não. Eu sou capitalista e vim para Londres atrás do capital", brincou Max em nossa primeira conversa. Quando emigrou para a Europa há quatro anos, tudo que Max queria era "juntar um dinheirinho para comprar uma casinha em Goiânia" e levar de volta para lá a mulher, Juliana, e o bebê que ela estava esperando.

 

Tudo que eu queria era entender como um cara que guiava uma Yamaha Fazer (moto robusta que custa no Brasil cerca de R$ 40mil) podia não ter dinheiro nem para o café no Starbucks da esquina. "A gente compra a moto no leasing e paga aos poucos. Na teoria, não pode comprar porque tem nome sujo, mas inventa. Hoje, por exemplo, eu uso o nome do meu pai. Tenho que usar nomes que vou lembrar quando a polícia me parar."

 

Polícia? Eu não tinha pensando nela quando decidi percorrer Londres na garupa do Karl Max. Era emoção suficiente saber que ajudava um ilegal a entregar vários dos principais documentos dos bancos da City (onde a crise, e o dinheiro, rolam em Londres).

 

Diferentemente de mim, preocupada em fazer o registro na polícia central de imigração para não parar no escritório do Home Office em possíveis batidas, Max revelou ter simbiose curiosa com a polícia inglesa. "A polícia pode até chamar o Home Office, mas não pode deportar", explicava Max enquanto eu, na garupa, testava se a câmera funcionaria melhor na mão, no ombro, amarrada...

 

De cara amarrada Max ficou quando foi parado por um polícia em um típico dia de trabalho. "O inglesão disse: ‘Tira o capacete’. Eu tirei. Ele me perguntou de onde eu era. Eu disse que era português, claro. Sabe o que ele respondeu? ‘Você é tão português quanto meu pênis’, contou, rindo. "Mas me mandou embora e disse para eu andar na linha, senão ligava para o Home Office."

 

Nem bem tinha me acostumado ao jeitinho da polícia inglesa e à lógica da "capital do mundo" e do seu trânsito ao contrário quando Max sofreu um acidente. Em uma tarde do Dia do Trabalho, ele quase morreu. Chegou ao hospital em choque. Tudo o que conseguia processar era: "Talvez amputemos seu pé". Bateu o desespero: sem saber se explicar em inglês, sem poder ligar para ninguém, Max passou a noite em uma maca gelada da ala de trauma do Whitechappel Hospital, o Royal Hospital. De seu nome, mal grafado à sua situação legal, passando pelo pé esquerdo, tudo estava errado.

 

Foram-se três dias até que Karl Max fosse grafado no quadro acima do leito da enfermaria do Raymond Ward, a "ala dos estropiados". Ele não se lembrava nem do antes nem do depois do acidente. "Estava parado no farol. Depois disso, acordei no asfalto, com o pé esmigalhado dentro da meia."

 

Os funcionários do hospital poderiam ter alegado, diante da obviedade da situação, que Max era ilegal e, portanto, não teria direito a tratamento. Mas o Brazilian courier foi atendido do começo ao fim da internação como autêntico britânico.

 

Dia após dia, seu inglês melhorava, seu pé passava por sucessivas operações e os ocupantes do Raymond Ward iam e vinham numa interessante dinâmica. Vi o paquistanês da maca da frente, atropelado por um Double Deck (o ônibus de dois andares), ir embora. No lugar, entrou um russo desabrigado.

 

Stalin, como Max gostava de chamá-lo "só para ornar com o meu", era na verdade ucraniano. Comemorou seu aniversário com um bolo improvisado, pago pelo ocupante do outro leito: um mafioso marroquino que, durante as visitas de seus funcionários, recebia somas vultosas em libras. Com algumas delas, o marroquino pagava a TV do leito do Max para que se distraísse nas tantas horas de solidão hospitalar.

 

Os 44 dias de molho serviram para o brasileiro parar de falar que médico inglês "só taca paracetamol na gente". Serviu também para aprender que, por mais ilegal que fosse, médico inglês nenhum iria largá-lo no corredor ou chamar o Home Office antes de ter certeza de que seu pé esquerdo estava em condições de passar para a fase da fisioterapia e, em seguida, para a cirurgia plástica.

 

Pré-natal

 

Enquanto isso, sua mulher, também ilegal, fazia pré-natal em outro hospital da cidade com uma ID (carteira de identidade) portuguesa falsa. Fui a quase todas as consultas com ela. Traduzi linha por linha do que as midwives (poderia ser traduzido como parteira, mas é uma enfermeira especializada) diziam, do fato de ela ter de tomar mais ferro (que era fornecido gratuitamente) ao de fazer parto normal (porque na Inglaterra a cesárea não é banalizada), passando até pelo fenômeno de as enfermeiras se recusarem a fazer mais do que quatro ultrassons durante os nove meses. "Não deu para ver o sexo do bebê? Espere a surpresa. Compre tudo branco e verde e será feliz." Foi assim que a midwife explicou por que não iria mais fazer ultrassom nenhum na barriga da mulher do Max. "Se o marido dela não está contente com uma possível menina, o problema é dele."

 

Achei grosseria das maiores. Era só para comprar roupinhas da cor certa. Mas, depois de uma olhada melhor, e de perceber que 90% da grávidas que ali faziam o pré-natal são em geral de famílias muçulmanas, chinesas e do Leste Europeu, entendi a lição.

 

Hoje, quase um ano após o acidente e com o filme pronto, continuo achando que o tratamento hospitalar inglês é por vezes frio, impessoal e curioso, já que o ginecologista em geral só aparece na primeira consulta e depois de o bebê nascer. Ao mesmo tempo, continuo sem entender que meses tenham se passado sem que ninguém requisitasse um ID para verificar onde de fato morava Karl Max. Acho mais estranho ainda que todo mundo saiba que todo mundo sabe que há milhares de ilegais trabalhando, sendo tratados, parindo, gastando suas libras, pagando impostos e contribuindo para a economia inglesa. Como numa república dos acordos tácitos, é notório que o rei (ou a rainha) muitas vezes está nu. Mas ninguém fala. Muitas vezes para o mal. Outras para o bem.

 

No caso do Max, bem e mal vão bem além de um duelo social X capital. Ele viveu um pesadelo tupiniquim no centro nervoso da Europa em um ano em que a crise fechava os mesmos bancos para os quais o agora ex-courier transportara tantos papéis. Enquanto via o Brasil virar a bola da vez nos noticiários e ser escolhido para sediar a Olimpíada de 2016, o filósofo tupiniquim concluía: "Aqui é ruim mas é bom, no Brasil é bom mas é ruim. Como vou encarar o povo lá com uma família, nenhuma libra e quase sem pé? Vou ficando. Se eles quiserem me deportar, melhor."

 

Hoje, Max dirige uma vã com câmbio automático, faz carretos para brasileiros e gringos e, aos sábados, comanda o churrasco do Edinho. Valeu a pena? "Vou levando. Agora, depois de tantas transfusões de sangue no hospital, quero ver alguém dizer que não tenho sangue inglês." A tempo, para inglês e brasileiro ver e pensar: Max e Juliana continuam mais ilegais do que nunca, mas Luana, a filha, tem dupla cidadania.

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