Yuriko Nakao/Reuters
Yuriko Nakao/Reuters

Kenzaburo Oe faz acerto de contas com a família em novo livro

Prêmio Nobel de 1992, autor japonês criou um mundo onde o imaginário, a vida e o mito se condensam

Rosane Pavam, Especial para o Estadão

19 de março de 2022 | 16h00

Nascido na ilha japonesa de Shikoku, em 1935, o autor de A Substituição ou As Regras do Tagame passou a maior parte da infância no ambiente hostil provocado pela guerra contra os aliados, certo de que, conforme lhe ensinou um professor, a figura imperial equivalia à de um deus pelo qual valeria a pena morrer. 

Kenzaburo Oe era uma criança circundada pela imaginação, mas, em lugar dos livros, preferia o modo pelo qual a avó lhe transmitia histórias da tradição familiar. O pai morreu ao combater no Pacífico em 1944 e a mãe apresentou ao filho As Aventuras de Huckleberry Finn, de Mark Twain, clássico de predileção paterna. O menino maravilhou-se com a literatura em papel, mas não pôde confessar sua admiração por um autor dos Estados Unidos. E foi assim que, nas conversas escolares, Twain virou alemão.

Se a guerra transforma a verdade em primeira vítima, não apenas o garoto mentira a seus mestres sobre a nacionalidade do autor, como o imperador, ao contradizer publicamente a figura divinizada, fizera pouco caso da crença que os fiéis lhe devotaram. A guerra acabou para Oe não somente quando duas bombas atômicas foram jogadas contra seus compatriotas, mas quando o líder do país permitiu que os Estados Unidos ocupassem seu terreno. 

Antes de completar 30 anos, em 1961, Oe era já um escritor reconhecido que não temia discorrer sobre assuntos como o assassinato, no ano anterior, de um político socialista por um estudante de extrema direita para quem o imperador representava deus. O conto Seventeen desagradou aos dois lados do espectro ideológico japonês, ora acusado de zombar do legado imperial, ora de glorificar um terrorista.

Até aquele momento, o escritor, que estudou literatura francesa na Universidade de Tóquio e se apaixonou por Rabelais, definia-se como um existencialista, advogando o antimilitarismo, o pacifismo e o combate ao ultranacionalismo. Não só admirava Sartre como, pertencente a uma família de jornalistas, chegou a entrevistá-lo. 

Em 1963, contudo, o apego às causas universais arrefeceu. A literatura e a vida seriam outras após o nascimento do primeiro filho com a esposa Yukari. Vítima de um problema neurológico que dificultava sua comunicação, Hikari fez o escritor pensar em ser um homem melhor, de modo a acompanhá-lo também pela literatura. Assim como descrevera as chagas de Hiroshima, agora faria do filho interesse central, numa autoficção temperada pela realidade.

Dito assim, pode parecer que sua escrita tenha resvalado em tédio engajado, mas nada está mais distante desta suposição. O artista que faz das pessoas próximas, personagens, com novos nomes e episódios, aplica encanto filosófico à história de superação familiar propondo que os caminhos para a cura se estendam à sociedade.

A academia sueca que designa o Nobel entendeu seu recado e lhe entregou o prêmio literário – “por criar um mundo imaginário onde a vida e o mito se condensam para formar uma imagem desconcertante da situação humana atual” – em 1994, seis anos antes que A Substituição ou As regras do Tagame fosse publicado. 

 A escritura do livro tem uma razão central, o suicídio em 1997 de seu cunhado cineasta Jûzô Itami, intitulado Goro no romance (enquanto Oe vira Kogito, em referência a Descartes, de “penso, logo existo”, ou “cogito, ergo sum”). Por meio de Goro, Itami, diretor de Tampopo: os Brutos também Comem Spaghetti (1985), torna-se personagem intenso. Kogito o acompanha desde a escola, muito admirado por seu porte, beleza, talento, pelo que diz e faz. Goro pensa transformar em filme um episódio narrado por Kogito, mas, antes que isto possa ser ao menos planejado, o cunhado, embriagado de conhaque Hennessy, joga-se da janela de um prédio sem razão aparente.

O suicídio o leva a pensar não em seu fim, antes em sua permanência, como uma alma que jamais percebe a morte, mantendo uma existência ingênua por meio das fitas que gravara antes do fim e que Kogito ouve em fones de ouvido com o formato de um besouro chamado Tagame. É com o Tagame, agora entendido como todo o aparelho de reprodução sonora, que o narrador conversa, respondendo a Goro mesmo em sua ausência, ou por causa dela.

O romance é tecido a partir de uma escrita direta e corre entre o bom humor e a tragédia, enquanto Oe analisa com deliciosa derrisão a si mesmo e aos fatos, aos personagens, às situações vividas em ambiente literário, político, erótico, corporativo, com ou sem a violência dos yakuzas que certa vez atentaram contra a vida de Goro.

Ex-ator, o cunhado é a febre japonesa por excelência, mas seu cinema o afasta a cada dia do sucesso, já que ele se esmera em planos longos e evita os close-ups. Tampouco Goro quer realizar o cinema usual, responsável por retratar o homem invencível, pois, diz, ao verem esse tipo de heróis, os espectadores se esquecem da própria fragilidade. Além do mais, é preciso operar a substituição a que o título do livro alude, em todos os campos, da vida à arte. 

Os novos heróis desejados por este romance são as pessoas periféricas e partidas, à moda do filho do protagonista, Akari, personagem de extrema sensibilidade musical e argúcia emotiva, características que excedem o romance, uma vez que no mundo real o rebento de Oe se transformou em um dos compositores mais famosos do Japão. Akari constitui o estranho contraponto de bom senso à intensidade do próprio Kogito, que de Descartes, no fim das contas, tem pouco, a ponto de lidar mal com a morte da tartaruga destinada a seu jantar, numa passagem eletrizante do romance. É preciso então que o bom senso esteja a cargo do filho e principalmente da esposa, Chikashi, irmã de Goro que sustenta a dignidade familiar.Trata-se de um romance sobre o tempo ou a morte? Para Kogito, a questão nem existe, já que o tempo buscado por Marcel Proust, tão referencial para ele, equivale a sua percepção de que passará. Em lugar de O Tempo Redescoberto, o livro do escritor francês deveria se chamar A Morte Redescoberta, entende Kogito, pois “a morte é o tempo”. 

Quem leu Proust vai entender Kenzaburo Oe, mas deparará com algo mais contemporâneo, a urgência de transpor (outra forma de substituir) os velhos preceitos político-sociais por uma mentalidade rejuvenescida, capaz de salvar o futuro do ser humano. A forma do romance, muito original, evoca a reinvenção operada justamente por Proust. Estamos diante de uma narrativa que se desfolha aos poucos, quase desordenadamente, emendando as situações onde não as imaginaríamos unidas. Tal literatura é uma reflexão sobre a arte literária. “O que” e “como escrever”, diz o narrador, são duas trepadeiras entrelaçadas. E o ato de escrever se constitui em ir aos poucos desembaraçando-as. 

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