iStock/The Washington Post
iStock/The Washington Post

Kindle Kids Edition: As contradições do leitor digital para crianças

Leitura infantil é beneficiada pelos livros em papel, de acordo com pesquisas científicas pediátricas

Ron Charles, The Washington Post

09 de novembro de 2019 | 16h00

Há mais de 15 anos, o falecido escritor italiano Umberto Eco disse: “Os livros pertencem a essas categorias de instrumentos que, uma vez inventados, não foram aprimorados, porque já são bons, como o martelo”. Por alguma razão perversa, ainda estamos determinados a provar que Eco está errado. Apresentando o novo e aprimorado martelo, esta semana a Amazon lançou o Kindle Kids Edition, “ideal tanto para iniciantes como experientes leitores de livros infantis”. É o conhecido leitor digital (e-reader) de seis polegadas que vem com um belo estojo e acesso a mais de mil livros para crianças. Os pais mais exigentes com a educação dos filhos vão adorar o dicionário interno e as listas de palavras que “levam a leitura para o próximo nível”. O próximo nível, se você não sabe, são os cartões de memória.

Não sou um adepto do ludismo (tenho dois Kindles e os adoro), mas a chegada deste Kindle Kids Edition está me levando a criar fantasias de destruir máquinas e teares. Chega um ponto em que precisamos examinar criticamente como os dispositivos eletrônicos estão se infiltrando em nossas vidas. O iPhone já devastou a hora do jantar. Agora, esses fornecedores de tecnologia estão chegando na hora de dormir.

Com um toque esperto de antecipação criativa, o site da Amazon declara: “O Kindle Kids Edition foi projetado apenas para leitura, o que significa que não existe a distração de aplicativos, vídeos ou jogos”. Mas isso apenas ressalta um futuro baseado em uma tela que deixa os nossos filhos entorpecidos – e como esse Kindle os treina para isso.

A resistência não é fútil. Desde o início, a maioria das crianças precisa e almeja a interação tátil que os livros reais fornecem. Suas habilidades motoras finas, em rápido desenvolvimento, evoluem juntamente com o deleite com ilustrações e o prazer de virar as páginas. Eles passam de mastigar as capas para sentir o papel, enquanto a maravilha de uma página dupla se espalha para a seguinte.

À medida que envelhecem, não devemos ter pressa para atrai-los para longe da aura mágica dos livros reais. Esqueça a eficiência. As crianças não se sentem sobrecarregadas levando os livros físicos; eles se sentem cingidos às ferramentas de seu próprio entretenimento. Eles os agarram, os reorganizam, os exibem e, o mais importante, os usam para construir castelos em suas próprias mentes. Reduza todo o espectro desses objetos para o brilho sem alma de uma tela e você acaba de roubar algo precioso de uma criança.

Toda a conveniência de poder acessar milhares de títulos em um leitor eletrônico nunca poderia justificar sua eficiente supressão da prateleira de livros amados de um jovem. Sete volumes de Harry Potter empilhados ao lado da cama são um monumento à determinação e à devoção de uma criança; sete títulos de Harry Potter em um Kindle podem estar sob uma capa de invisibilidade. O próprio aspecto físico de um livro impresso oferece um aprimoramento que a tinta eletrônica não pode alcançar.

Não preciso que a ciência me diga o valor dos livros impressos para as crianças, mas a pesquisa existe. Um estudo publicado no início deste ano na revista Pediatrics descobriu que os pais tinham melhores interações com seus bebês quando liam livros impressos juntos do que quando liam livros eletrônicos juntos.

Suzy Tomopoulos é professora associada de pediatria na Faculdade de Medicina da Universidade de Nova York que tem publicações extensivas sobre como a exposição na mídia digital afeta crianças pequenas. Ela reconhece os benefícios potenciais das novas tecnologias, que podem aumentar a leitura para crianças, mas observa que os leitores eletrônicos também criam uma dinâmica diferente. “Estou preocupada”, diz Tomopoulos, “porque ao usar um dispositivo, a interface é menos eficaz no suporte às interações pai-filho que ocorrem durante a leitura de um livro”.

Ela explica um processo chamado “leitura dialógica”, que é um nome sofisticado para o que acontece quando os pais leem com o filho: “Os pais expandem o texto com base no interesse da criança e o colocam no conteúdo de suas vidas”. Já temos uma tecnologia antiga perfeita para essa tarefa. “Há algo muito especial em virar a página, ler um livro juntos e conversar sobre isso.”

Esse relacionamento se estende profundamente na vida de uma criança. Ou ele pode. Se você já viu uma família de zumbis sentados ao redor de uma mesa de restaurante olhando para seus telefones, você sabe qual é a alternativa.

Os defensores do e-reader argumentam que esses dispositivos oferecem uma série útil de ferramentas e métricas educacionais. De fato, a Amazon observa que, com o Kindle Kids Edition, você pode “definir metas educacionais e gerenciar conteúdo com controles parentais fáceis de usar... e acompanhar as realizações de leitura a cada dia”.

Um relatório recente da Scholastic observa que, por volta dos 9 anos, “a frequência de leitura das crianças por diversão começa a diminuir” – e raramente se recupera. Mais objetivos educacionais impostos pelos pais que monitoram eletronicamente a interação de uma criança com as histórias dificilmente reativarão essa diversão.

Como pai, tenho certeza que cometi todos os tipos de erros imperdoáveis, mas há algo no qual acertei. Minha esposa e eu enchemos os quartos de nossos filhos com livros – livros reais – e lemos com eles todos os dias e todas as noites. Frog and Toad, Ella Enchanted, Love That Dog e centenas mais se tornaram nossos amigos comuns. Nós rimos, suspiramos, choramos. 

Não pretendo parecer um daqueles pais insuportáveis que dizem coisas como: “Só deixamos nossos filhos brincar com bonecas de espiga de milho sem gênero, feitas de milho orgânico”, mas muito tempo depois que minha filha mais nova conseguisse ler sozinha, ainda nos apegamos à alegria de ler em voz alta juntos. Permanecemos leitores dialógicos sem nem mesmo saber.

Quando meus filhos cresceram, seus livros mais antigos não sumiram na nuvem; eles se transmutavam em objetos preciosos, sinalizações desgastadas de volta através da névoa da infância. Talvez eles não leiam mais O Ursinho Pooh, mas sorriem sempre que o veem sentado lá e lembram-se dos esforços de Pooh para enganar as abelhas.

Faz muito tempo desde que minha filha mais nova e eu apreciamos os livros infantis de Dr. Seuss juntos, mas ainda estamos conectados por um relacionamento que surgiu do papel de livros reais. No início deste mês, enviei a ela uma cópia de Girl, Woman, Other, de Bernardine Evaristo. No domingo à noite, ela teve que pegar um voo de Denver e estava nervosa por decolar antes de uma tempestade de neve. Virar páginas era exatamente o bálsamo que ela precisava. Pouco antes de os telefones serem colocados no modo avião, ela me enviou uma mensagem de texto em caixa alta: “EU AMO ESTE LIVRO”.

É tudo o que quero no dia dos pais, no Natal e no meu aniversário pelo resto da minha vida. /TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

Tudo o que sabemos sobre:
AmazonKindlelivro digital

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.