Fred R. Conrad/The New York Times
Fred R. Conrad/The New York Times

Kurt Vonnegut critica tensão nuclear em livro reeditado no Brasil

Inteligência de cientistas leva à burrice da bomba para o autor do bem-humorado 'Cama de Gato'

Guilherme Solari*, Colaboração para o Estado

25 Novembro 2017 | 16h00

Existe um tipo particular de insanidade que nasce quando a razão é levada às últimas consequências. Quando a busca científica pelo conhecimento cria cegueira e indiferença sobre consequências das descobertas. Talvez não exista nenhum exemplo maior do que a bomba nuclear, artefato que demandou entendimento refinadíssimo de forças físicas não compreendidas plenamente até hoje. E também a falta de bom senso para criar pela primeira vez na história uma ferramenta capaz de acabar com a nossa própria existência como espécie.

Esse é o tema principal de Cama de Gato, clássico do autor de ficção científica Kurt Vonnegut que está sendo lançado pela editora Aleph: a cegueira particular de cientistas que não questionam as consequências de suas descobertas, buscando a verdade pelo mero fetiche de saber. Um livro sobre como inteligência não mediada pela sabedoria torna alguém tão burro quanto o ignorante, só que muito mais perigoso. Um momento em particular ilustra muito bem essa cegueira: um cientista que ajudou a criar a bomba atômica fica impressionado com um serial killer que matou 26 pessoas, ignorando o fato de que a sua criação mata aos milhões.

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O livro é dividido em mais de uma centena de capítulos curtos, alguns de apenas uma página, que retratam com humor negro a história de um excêntrico cientista tido como genial, mas que não enxerga dois palmos adiante a consequência de suas descobertas, seja por incapacidade ou por desinteresse. A história é contada por um narrador que aderiu à religião bokonista, criada por Vonnegut, em uma trama que acaba com intrigas surreais em uma ditadura caribenha sob o pano de fundo histórico da crise dos mísseis de Cuba dos anos 1960, um dos momentos mais tensos da guerra fria.

O bokonismo faz um constante contraponto a essa ciência de muita inteligência e pouca sabedoria. Pode-se dizer que é uma crença não tem inteligência nenhuma por não acreditar que ela exista, e não deixa de extrair desse niilismo um tipo raro de sabedoria. Criada por um cantor de calipso tornado homem santo chamado Bokonon, o bokonismo é basicamente a religião do fake news – ou fake dogmas – abertamente desconfiando de sua própria liturgia, de seus próprios mitos e ensinamentos. Enquanto a ciência se orgulha da sua capacidade de resolver problemas, o bokonismo questiona quais problemas devem ser resolvidos em primeiro lugar. Se é que algum.

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Cama de Gato também infecta o leitor com certa insanidade, a de rir da possibilidade – presente até hoje – da nossa própria aniquilação. O livro possui uma linguagem propositalmente ingênua mesmo quando lidando com assuntos sombrios, como o ataque nuclear a Hiroshima. O tom alimenta essa imagem de cientistas como criançonas extremamente inteligentes de jaleco branco, mas incapazes de pensar além da sua diminuta especialidade na linha de montagem do conhecimento.

Vonnegut alfineta o leitor constantemente com exemplos dessa insanidade da razão extrema. Cientistas que trabalham na bomba comemoram o Natal em um encontro festivo no laboratório desejando paz na Terra. O genial físico vencedor do Nobel Felix Hoenikker é tão alienado da família que chega a dar gorjeta por desatenção à sua mulher conforme ela traz o café. Os cientistas como retratados por Vonnegut não deixam de lembrar inteligências artificiais, que sabem calcular logaritmos complexos, mas penam para conseguir subir uma escada. Não deixa de ser também um livro de como funciona a mentalidade de privilégio, pela incapacidade de associar suas ações com suas consequências e de aceitar a responsabilidade por elas.

É impressionante como esse livro de 1963 é atual hoje em dia – afinal nossa época não é exatamente conhecida por sua sabedoria. Cama de Gato é uma leitura louca e imprevisível, não deixa de ser um livro bokonista como a religião que ele descreve, raramente seguindo para os rumos que o leitor espera e sem nunca caber perfeitamente no pensamento racional. É um livro que ensina sobre nossa própria ignorância e, se ele não nos deixa mais inteligentes, talvez nos deixe um pouco mais sábios.

*É jornalista, escritor e autor, entre outros, de 'As Crônicas do Cascavel', da editora Multifoco 

Cama de Gato

Autor: Kurt Vonnegut

Tradução: Livia Koeppl

Editora: Aleph

280 páginas

R$ 44,90

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