The Economist
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Kurt Vonnegut ganha museu em Indianápolis, sua cidade natal

'O que as pessoas gostam em mim é Indianapolis', disse o escritor certa vez

Redação, The Economist

23 de novembro de 2019 | 16h00

É na avenida Indiana, em Indianápolis, Indiana, que fica o novo Museu e Biblioteca Kurt Vonnegut. O endereço repetitivo ecoa as opiniões do homenageado sobre geografia e pertencimento. Vonnegut acreditava que as pessoas nunca deveriam se esquecer de onde vinham. “Todas as minhas piadas são Indianápolis”, ele disse certa vez. “Todas as minhas atitudes são Indianápolis. Minhas adenoides são Indianápolis. Se algum dia me apartasse de Indianápolis, perderia o emprego. O que as pessoas gostam em mim é Indianapolis”. Por mais que ele tenha zombado do termo – e daqueles que o empregavam – em seu romance Cama de Gato (1963), Vonnegut foi um autêntico hoosier.

Indianápolis não é conhecida por sua literatura. Acaba ofuscada pelas cidades costeiras e por sua grande vizinha no lago Michigan. O próprio Vonnegut se viu ligado a outros lugares: Cape Cod, onde trabalhou em uma concessionária de carros; norte do estado de Nova York, onde foi gerente da General Electric; Chicago, onde aprendeu a ser jornalista e não conseguiu completar o mestrado.

Mas o museu Vonnegut pertence a Indianapolis, onde ele nasceu e cresceu, diz Julia Whitehead, fundadora e chefe. “Não tem arrogância aqui”, diz ela, “tem uma modéstia” que se destila em sua prosa. A inauguração do museu coincide com o 50.º aniversário da publicação do romance mais conhecido de Vonnegut, Matadouro-Cinco, que o levou à fama. Meio século depois, o livro – e o autor – continuam contemporâneos.

Matadouro-Cinco foi celebrado por seu retrato sombrio, mas incrivelmente imaginativo, da 2.ª Guerra Mundial, combinando clareza moral com motivos de ficção científica e uma cronologia distorcida. O protagonista, Billy Pilgrim, não é nenhum Capitão América. Ele caminha passivamente pela Alemanha na companhia de outros prisioneiros de guerra, de botas prateadas, camisão azul e um casaco de gola de pele muito menor que seu tamanho. Por fim, decide contar ao mundo sobre sua abdução por alienígenas do planeta Tralfamadore. Logo depois é baleado e morto por um ex-companheiro de cativeiro. Como era um experiente viajante do tempo, Billy sabia que sua morte estava chegando. Já a tinha visto muitas vezes.

O livro era uma transmutação do trauma que o próprio Vonnegut sofrera ao testemunhar o bombardeio de Dresden como prisioneiro de guerra, em 1945. Quando o museu foi inaugurado, em 9 de novembro, muitos dos primeiros visitantes foram veteranos; vários disseram que suas experiências no Vietnã, Coreia ou Afeganistão se refletiam na odisseia de Billy através do tempo e do espaço. Não há personagens maus em sua história, apenas realidades horrendas. Quando ele está no hospital se recuperando de um acidente de avião, um historiador da Força Aérea menciona a destruição de Dresden. Ele pede a Billy que “tenha pena dos homens que precisaram fazer isso”. E Billy tem.

O que explica o duradouro apelo de Vonnegut junto a leitores de outras gerações e origens, que nunca viram a guerra em primeira mão? Uma sinceridade despretensiosa que é própria do meio-oeste americano, argumenta Whitehead, uma qualidade que desarma os leitores e os obriga a enfrentar questões eternas. Seus livros não são simplesmente críticas à guerra: são meditações sobre a natureza humana e o significado da vida, embrulhadas em enredos doidos e humor caustico.

Ainda assim, a ideia de um museu de Vonnegut pode parecer estranha. O autor foi um herói desleixado da contracultura das décadas de 1960 e 1970: um pessimista antiestablishment, antiguerra e satírico, com confessa inclinação a telefonemas bêbados de madrugada e cigarros Pall Mall. Ele era cheio de contradições. “Quando dissecadas”, admitiu ele, “as crenças que tenho de defender se misturam que nem mingau na tigela”. E as listou com ironia: “Sou pacifista, sou anarquista, sou cidadão do planeta e assim por diante”.

Mas, reunidos na coleção do museu, os objetos pessoais, cartas de rejeição e obras de arte inspiradas em seus escritos atestam um conjunto de crenças inabaláveis que continuam a inspirar os leitores. Vonnegut era um defensor inflexível da liberdade de expressão e das artes. Escreveu sobre a importância da comunidade e da família. Achava que todos deveriam ser gentis, caramba, e que a morte não era boa nem má, apenas inevitável. Vonnegut morreu em 2007. Como era humilde, diz Whitehead, “pode estar meio envergonhado com este prédio com o nome dele na fachada”. /TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

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