La reconciliación cubana?

Escolha da Igreja Católica como mediadora na libertação de presos pelo regime castrista não foi um fato isolado

Ivan Marsiglia

17 de julho de 2010 | 16h00

Xadrez. O hoje recluso líder Fidel Castro fez cinco aparições nos últimos nove dias

 

 

 

 

Homem de sorte, Luiz Inácio Lula da Silva esteve no lugar errado e na hora errada naquela ocasião. Em 24 de fevereiro de 2010, enquanto o presidente brasileiro visitava Cuba e se deixava fotografar ao lado dos irmãos Fidel e Raúl Castro, morria em Havana o dissidente Orlando Zapata, após mais de dois meses de jejum pela libertação de presos políticos do regime castrista. A sucessão de acontecimentos que se seguiu movimentou a sociedade cubana como há muito não se via, com ecos em toda a comunidade internacional. O colega Guillermo "Coco" Fariñas tomou o lugar de Zapata iniciando nova greve de fome, que duraria 135 dias até 8 de julho, na semana passada - poucas horas depois de Havana, após reiterados apelos dos governos de Espanha, França e Costa Rica, entre outros, confirmar a libertação de 52 prisioneiros de consciência em um período "de três a quatro meses".

 

A lista foi divulgada pelo cardeal cubano Jaime Ortega, em uma inédita mediação da Igreja local com o governo, que contou com o apoio do ministro de Relações Exteriores espanhol, Miguel Ángel Moratinos. Na terça-feira, os sete primeiros exilados chegaram a Madri. Na quarta, desembarcaram outros dois. Farinãs comemorou o que considera uma "janela aberta" para novos avanços pela democracia em "um regime que chegou a seu limite". Já o pesquisador Nik Steinberg, da ONG de direitos humanos Human Rights Watch, alerta: "A comunidade internacional precisa pressionar Cuba a ir além da libertação periódica de dissidentes e em vez disso acabar com as leis, com os julgamentos e com as forças de segurança que os colocam na prisão".

 

O que de fato está havendo em Cuba? Novos tempos anunciam uma distensão política verdadeira ou trata-se de outro movimento de conveniência para lustrar a imagem pública do regime - no instante em que o hoje recluso Fidel faz cinco aparições seguidas em nove dias? E por que um governo que reza pela cartilha marxista escolheria um cardeal católico para anunciar seu gesto de boa vontade? Para o sociólogo e teólogo cubano Félix Sautié Mederos, de 72 anos, "atribuir a libertação dos presos a um único elemento seria subestimar a dinâmica do momento em Cuba".

 

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Morador de Havana e observador próximo do clero e da sociedade cubana, Sautié Mederos diz na entrevista a seguir que os sinais de mudança na ilha "ainda que discretos, se fazem sentir por toda a parte". Avalia que um confronto aberto entre os dissidentes e o regime castrista "poderia levar a resultados imprevisíveis". E sustenta que a palavra de ordem para revolucionar a situação do povo cubano hoje é "reconciliação".

 

Um diálogo laico

"A situação que estamos vivendo é complexa, e há que se levar em conta todos os fatores que nela incidem. Atribuir a libertação dos presos a um único elemento seria subestimar a dinâmica do momento em Cuba. Claro que um gesto de envergadura humana como o de Fariñas, com a repercussão internacional que teve, influiu, não pode ser tomado como mera coincidência. Considero, porém, que a decisão do governo cubano em estabelecer um diálogo com a Igreja tenha sido o resultado de uma análise ampla que fizeram da situação - e de toda uma história de relações entre o Estado e a Igreja em Cuba.

 

Papel de mediação

"Para entender as razões que legitimam a atual mediação feita pela Igreja Católica é preciso ter em conta a sua abordagem dos problemas políticos, econômicos e sociais do país. Uma série de documentos eclesiásticos mostram que a Igreja em Cuba trabalha há anos com o tema da reconciliação. Essa postura foi decisiva para os resultados concretos que agora vemos, no que se refere à libertação de presos e no surgimento de um novo espírito nacional para a solução de nossos problemas. Presenciei pessoalmente, durante a homilia de 8 de setembro de 2000, dia da Virgen de la Caridad del Cobre, o cardeal Jaime Ortega Alamino dizer em seu santuário em Centro Havana que ‘o templo não pode ser utilizado com fins políticos, porque ele é a casa de todos’. Na ocasião, o cardeal se dirigia a alguns manifestantes que tentavam politizar a procissão. Naquele momento, Jaime - como os católicos habaneros se referem e ele - enunciou claramente essa abordagem da reconciliação.

 

Espiritualismo histórico

"Se recuarmos a 1986, ano em que se deu o Encontro Eclesial Cubano, fundamentado pelo Concílio Vaticano II, veremos que o documento final dedicava um capítulo inteiro ao tema. Um dos trechos diz: ‘A Igreja Católica começa por reconhecer sua cota de responsabilidade nas tensões e divisões de todos os gêneros que pesam sobre nosso povo. (...) A reconciliação não exige uniformidade de pensamento ou de atitudes, mas um esforço de compreensão e respeito pelas diferentes posturas.’ Quase duas décadas depois, na Instrução Teológica de 8 de setembro de 2003, os bispos cubanos defenderam que ‘diante do debate político-partidário (...), a Igreja deve se manter neutra, ainda que fazendo um chamado ético para que os direitos de todos sejam respeitados nesse debate.’

 

Papa em Cuba

"Se as relações entre Igreja e Estado em Cuba sempre foram problemáticas, feitas de encontros e desencontros, pouco a pouco se configura em um espírito de coexistência e tolerância mútuas. É importante notar que o país mantém relações ininterruptas com o Vaticano, em clima de paz e amizade, há 75 anos. Um marco decisivo foi a visita de João Paulo II a Cuba, em 1998. Sua estada em Havana, os discursos que proferiu em diferentes localidades do país, os encontros que protagonizou e seu carisma pessoal permitem que se fale em uma Cuba antes e depois da visita. O que estamos vendo hoje é, também, um desenvolvimento positivo do que se plantou naquela ocasião.

 

Distensão ou pragmatismo?

"Não creio de maneira nenhuma que o diálogo que estamos vendo, a aceitação da Igreja como mediadora pelo governo, com resultados práticos evidentes, possa ser vista como algo isolado e circunstancial. Ao contrário, vejo que ocorre um processo importante de aproximação dos problemas essenciais da nação e um chamado à participação dos cubanos, estejam onde estiverem, na busca de um futuro melhor para o país. A sociedade cubana chegou a um ponto de inflexão em que esses problemas não podem mais ser adiados.

 

A evolução cubana

"Estou otimista em relação ao futuro de Cuba. Povos não se suicidam, e as soluções para seus dilemas surgem da luta e da vontade dos mais variados grupos. É assim que vamos construir uma república para o bem de todos, como sonhou José Martí. Os sinais, ainda que discretos, se fazem sentir por toda a parte. E o importante, agora, é evitar rancores e propósitos revanchistas. Não há interesse em uma confrontação no país que poderia levar a resultados imprevisíveis. É mais produtivo semear a esperança e enfrentar os ódios com o amor, a paz e a igualdade."

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