Aleksander Jalosinski
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'Lado-B da literatura': os melhores livros que você nunca ouviu falar

Obra reúne livros que deveriam se somar à pilha de leitura dos apaixonados por literatura

Abby McGanney Nolan, Especial para The Washington Post

17 de junho de 2021 | 10h00

Assim como “álbuns de música em uma ilha deserta” são as gravações sem as quais não poderíamos viver que você não poderia ouvir se fosse uma ilha sem eletricidade, um “B-side book” (de cabeceira, o lado B de um disco) é um conceito sem sentido, mas divertido. O termo B-side refere-se às músicas menos conhecidas do outro lado dos singles a 45 rotações. Lançada em 2017 pela revista Public Books, a contínua série de ensaios B-side Books pretende celebrar a literatura de “gênios não celebrados e subestimados''.

Agora compilado em uma coleção editada por John Plotz, B-Side Books aprofunda-se em 40 obras dos períodos, localizações e graus de obscuridade mais variados. O mais antigo é Sir Gawain and the Green Knight, do século 14, a ser exibido em uma adaptação cinematográfica em poucos meses, o que o tornará muito menos subestimado. O mais recente é All Aunt Hagar’s Children, de Edward P. Jones, amplamente elogiado pela crítica quanto foi publicado em 2006, mas “merecedor de um público maior”, segundo Elizabeth Graver. Os contos de Jones, ela escreve, “fazem lembrar – tão gentilmente que é fácil não se dar conta da ferocidade subjacente” – de que todos não passamos de minúsculas figurinhas de uma história às vezes violenta”.

Os B-Side books não são para o leitor que se desencoraja facilmente. Como a maioria destas obras não se encontra em sua livraria ou biblioteca local, será preciso ir ao seu encalço. Quando você tiver conseguido o seu exemplar, como a menininha da capa, poderá subjugar o mundo selvagem que nos cerca a fim de mergulhar em uma história incomum. No caso de Riddley Walker, por exemplo, terá de decifrar a versão do inglês que Russem Hoban sugere que seria falada e escrita perto de Canterbury cerca de três milênios depois de um holocausto nuclear. No de Other Leopards, ambientado na África que está se descolonizando, terá de acompanhar o que Emily Hyde descreve como “o estilo de tenso fluxo de consciência” de Dennis Williams. E ler Road to Calvary, de Alexei Tolstoy, significa empreender uma jornada de 885 páginas

Muitos ensaístas fazem um grande estardalhaço descrevendo façanhas narrativas que talvez não soubéssemos que estávamos procurando. Namwali Serpell define The House on the Borderland, de William Hope Hodgson, publicado pela primeira vez há mais de um século, "um dos relatos mais surpreendentes da infinitude que eu jamais li”. Kate Marshall pergunta: “Existirá um relato mais arrebatador de um encontro com a sensibilidade não humana do que Solaris de Stanislaw Lem?” Ela afirma que a descrição que o livro faz do seu vasto epônimo oceano contém uma mensagem mais poderosa jamais ouvida, que nenhuma das duas adaptações cinematográficas conseguiu transmitir.

Conteúdos mais suaves podem ser ainda mais fascinantes. Aqui está o elogio de Ursula K. Le Guin de um trecho de John Galt o “não exatamente ... grande” Annals of the Parish (1821): “Em um puro e ignorante desafio do decreto da Escola de Escrita de Iowa que controla quase toda a ficção moderna, Galt conta sem mostrar ... Cabe a nós ouvir o que está sendo contado, imaginá-lo, senti-lo”.

Pode parecer estranho queixar-se dos estraga-prazeres ao falar sobre livros de dezenas de anos ou mesmo séculos atrás, mas os melhores ensaios aqui evitam dar excessivos detalhes e as reviravoltas dos enredos. Ao contrário, eles oferecem uma premissa intrigante, um parágrafo impecável, ou apenas um resumo de tudo o que o livro contém, convidando os leitores a participar de uma nova experiência  pessoal. Alguns ensaios sugerem  novas maneiras de olhar determinados livros clássicos ou formas literárias. Enquanto apreciamos The Dry Heart de Natalia Ginzburg, por exemplo, Merve Emre  teoriza que “a repentina ocorrência de fatos inusitados – affairs, assassinatos, suicídios, salvamentos – recebe o seu tratamento mais intenso no romance”.

Se os estraga-prazeres são inevitáveis, vale a pena uma advertência, e quem a faz é Leah Price em sua inteligente critica sobre o thriller psicológico de Celia Fremlin, The Hours Before Dawn, de 1958. Price admira o fato de o Fremlin ver através da névoa pós-parto, o potencial literário dessa perda cognitiva ... Os pais de primeira viagem são perfeitos para o noir. Eles rastejam como ladrões pelo quarto tentando encontrar uma fralda sem acender a luz; aprendem a tirar uma mamadeira de uma boca adormecida com a destreza de um batedor de carteiras.”

Identificando “o anti-Western perfeito”, um romance em quadrinhos iraniano dos anos 1970 ou o relato alegre da prática budista intermitente de uma avó japonesa, estes ensaios abrangentes são um estímulo para que procuremos os romances, as novelas e as memórias às vezes difíceis de encontrar. Com sorte, poderemos levar uma pilha destes B-Side books para uma ilha deserta sem eletricidade e, se não houver distrações, acabar alguns deles.

Abby McGanney Nolan faz resenhas de livros, de cultura pop e de história americana. / Tradução de Anna Capovilla   

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