Christian Hartmann/Reuters
Christian Hartmann/Reuters

Lançados no Brasil, livros do Nobel Peter Handke ofuscam suas polêmicas

Escritor austríaco foi hostilizado por negar o genocídio bósnio no conflito com os sérvios

Ronaldo Bressane*, Especial para o Estado

18 de janeiro de 2020 | 16h00

Hoje, a performance do escritor equivale à sua escrita. Tanto faz se performance pública ou privada: rumo à Era da Transparência – quando todos os segredos de todas as pessoas serão devassados e expostos até suas vísceras –, todo artista será julgado tanto por sua arte quanto pelos ângulos mais recônditos. Por isso é que conceder o Nobel de Literatura ao austríaco Peter Handke foi um furo tão grande quanto homenagear a poeta norte-americana Elizabeth Bishop na Festa Literária Internacional de Paraty. Diante dos tribunais das redes sociais, o mérito de uma premiação ou de uma homenagem não recai sobre a obra, e sim sobre o que uma pessoa fez durante a vida toda. Não importa se o fez em público (Handke escreveu textos questionando o genocídio bósnio e foi ao funeral do assassino sérvio Slobodan Milosevic) ou em privado (Bishop relatou em cartas, de sua torre de marfim carioca, impressões fofinhas a respeito do golpe de 1964). Ao premiá-los, as instituições Nobel e Flip se equivaleram, aos olhos do público, aos pecados de seus homenageados. Não tem conversa: não podem existir meios-tons, ambiguidades e paradoxos na Era da Transparência.

Especificamente no caso do escritor austríaco de 77 anos, o buraco é ainda mais embaixo. Handke surgiu para o mundo literário metendo o pé na porta. Aos 20 anos, cabelos compridos de roqueiro e botas de caubói, despontou nos anos 1960 xingando a literatura alemã (Günter Grass, Heinrich Böll) e a audiência (sua primeira peça de teatro chama-se justamente Contra a Plateia). Sua figura lennoniana tornou-se onipresente na cena literária: prolífico, multiplicou-se em romances, peças, entrevistas, poemas, programas de rádio, textos para jornal e roteiros para cinema – o mais famoso é Asas do Desejo, para o amigo Wim Wenders, com quem contribuiu em vários projetos. Handke é portanto um construtor da figura pública do escritor no século 20, em que a performance conta tanto quanto a escrita. Caso bem diferente de Bishop, que mal articulava a língua falada no país que adotou.

O Nobel conecta-se ao Zeitgeist ao premiar Handke? Ou nefelibatamente pretende só premiar sua obra, como o júri se defendeu? Não buscará também controvérsias e holofotes? Não estará ainda atrás de um personagem midiático para disputar espaço no meio do dilúvio informacional, como fez ao premiar Bob Dylan? Aplicando o mesmo raciocínio, a Flip ganharia tanto espaço grátis se tivesse escolhido os corretos nomes de João Cabral de Melo Neto, 100 anos em 2020, ou de Cecília Meireles, figura sempre lembrada?

Tais questões viram vãs algaravias quando nos detemos sobre a prosa de Handke, como neste recém-lançado Ensaio Sobre o Louco por Cogumelos (Estação Liberdade, 160 págs., trad. Augusto Rodrigues), uma noveleta de 2013.

O livro parece justamente um elogio à recusa de dividir o espaço público. Nessa época, Handke já havia sido bastante bombardeado por suas posições pró-Sérvia, que incluíam a negação do genocídio bósnio – baseadas, talvez, não só na simpatia de Handke em relação ao povo eslavo (a mãe de Handke é eslovena), quanto em sua crença em informações equivocadas veiculadas na imprensa alemã (sobre isso, sugiro a leitura de reportagens do site The Intercept que elucidam as obscuras posições do escritor). Então até podemos supor, nessa autoficção ensaística com cara de conto de fadas, uma defesa de uma atitude irracional – em nome da irredutível liberdade de estar no mundo.

A noveleta traz um tom entusiasmado – diferente do registro sóbrio de narrativas dos anos 1970, como os famosos O Medo do Goleiro Diante do Pênalti e A Mulher Canhota (ambos os títulos, que saíram aqui pela saudosa Brasiliense, serão reeditados pela Estação Liberdade, em novas traduções). Por incluir o autor na narrativa, o texto lembra o tom intimista do extraordinário Bem-Aventurada Infelicidade, em que Handke rememora a vida da mãe. É uma narrativa cheia de idas e vindas, quase um ensaio biográfico sobre um estranho personagem obcecado por coletar cogumelos. O maluco, amigo de Handke no livro, se enfeitiça já na infância, quando os fungos começam a participar mais ativamente da depauperada dieta europeia do pós-guerra. Passando longos períodos fuçando em geladas florestas – ao que parece, no sul da Áustria, região da Caríntia, de onde veio Handke –, o pequeno caçador desses misteriosos parasitas passa a trocá-los por livros. Mais tarde, estuda Direito (como Handke) e se torna um advogado bem-sucedido. Tais pistas, aliadas ao fato de Handke ser um incurável caçador de cogumelos – vive nos arredores de Paris, perto de bosques pródigos em fungos –, nos faz pensar se não estará o autor fazendo uma espécie de autobiografia na terceira pessoa. 

Ao se casar com uma mulher que logo engravida, o amigo de Handke vai passear pela orla da floresta perto de sua casa e tem uma epifania. “Como que saído do reino das fábulas”, encontra “seu primeiro cogumelo porcino, um nem tão grande, crescido tão retamente, é claro, com um chapéu castanho luminoso, desprovido de qualquer caracol ou outro bicho, o branco puro na parte inferior (...) revelava-se ali no ser fabuloso tão real quanto qualquer coisa (...) Em vez de questionar a realidade, fortalecia o chão, e na mesma medida, acentuava a realidade do dia”. O acontecimento muda sua vida. “Com aquele pequeno tesouro surgiu nele um ‘Eu estou aqui’, ou um simples ‘Aqui’, como jamais nenhum outro.” 

A obsessão se torna tão violenta que o advogado passa os dias cavoucando florestas em busca de trufas, descuida-se da família e até deixa de trabalhar. A empatia demonstrada por Handke ao personagem que dá as costas à sociedade recorda a Marianne de A Mulher Canhota, um de seus melhores textos – a narrativa, minimalista e realista ao extremo, enfoca uma mulher que se separa do marido só para ficar sozinha e reencontrar a própria identidade. A renúncia, a obsessão pessoal, o estoicismo e o apego ao silêncio são valores morais caros a Handke – e não deixam de explicar um pouco, ainda que não de todo, a sua opção indefensável do negacionismo do genocídio bósnio.

Já o Ensaio Sobre a Jukebox (Estação Liberdade, 112 págs., trad. Luis S. Krauz) foi escrito em 1989. Narrado na terceira pessoa, segue a viagem de um escritor pela Espanha a fim de... escrever um ensaio sobre este objeto tão cultuado por Handke em textos como Longa Carta Para um Breve Adeus, como a própria essência dos EUA; ou melhor, a própria essência do que significa ser estrangeiro. “Ele só pensava em fugir. Já havia alguns anos que vagava sem lar, de um lugar para outro, e este ou aquele de seus amigos já lhe oferecera seu segundo apartamento ou terceira casa, que se encontrava vazia, para que pudesse realizar seu projeto, agora que o inverno estava chegando, lugares que eram rodeados de silêncio e, simultaneamente, da civilização à qual ele havia se habituado, e que, sobretudo, tinham, num horizonte próximo, que, a qualquer hora poderia ser alcançado a pé, a língua de sua infância, que o movia (e que, ao mesmo tempo, o tranquilizava). Mas seus pensamentos relativos à fuga excluíam qualquer possibilidade de retorno.” 

Falar de um assunto tão extemporâneo enquanto em Berlim derrubavam o muro é também outra maneira de Handke renunciar ao mundo. Trata-se de um ensaio sobre o ensaio, dado que o autor se encontra em bloqueio criativo. Ao contrário da maioria dos textos sob este tema, este tem uma vivacidade e uma angústia que abrem inúmeras possibilidades de fruição estética: como uma jukebox, vai trocando de temas – pintura, comportamento, arquitetura, música, futebol, literatura – como quem troca de canção. “Ele esperava ser capaz de fazer seu ensaio soar na forma de uma balada de jukebox, um texto próprio para ser cantado”, define Handke, antes de atingir uma epifania ao encontrar uma jukebox velha no porão de um bar numa cidadezinha andaluza e sentir “com espanto, que só agora, de fato, partira do lugar de onde viera”. A jukebox, tal como a caça aos cogumelos, se torna a metáfora de um desterro impossível, onde seja possível atingir alguma transcendência. Um exílio tão almejado a este estranho personagem que não parece se sentir bem em nenhum lugar – nem recebendo o Nobel. 

Em seu discurso frente à Academia Sueca, Handke driblou a controvérsia sérvia. Falando sobre a influência das memórias da mãe eslovena sobre sua obra, preferiu lembrar do azul dos lagos de sua Caríntia natal. “Tudo pode nos exaltar, em todo lugar há coisas pequenas e humildes que nos trazem de volta o contato com o essencial, o sublime”, disse. Do lado de fora da Academia, centenas de pessoas protestavam contra o prêmio. O austríaco se fez de surdo, no entanto seu prêmio já fora irremediavelmente manchado. Pena. Em vez de ter discursado no funeral de Slobodan Milosevic, teria sido melhor para Handke caçar cogumelos e colar o ouvido numa jukebox no coração de uma floresta.

ENSAIO SOBRE O LOUCO POR COGUMELOS

AUTOR: PETER HANDKE

TRADUÇÃO: AUGUSTO RODRIGUES

EDITORA: ESTAÇÃO LIBERDADE

160 PÁGS., R$ 44

ENSAIO SOBRE A JUKEBOX

AUTOR: PETER HANDKE

TRADUÇÃO: LUIZ SÉRGIO KRAUSZ

EDITORA: ESTAÇÃO LIBERDADE

112 PÁGS., R$ 38

*RONALDO BRESSANE É ESCRITOR E JORNALISTA, AUTOR DO ROMANCE ‘ESCALPO’ (REFORMATÓRIO), ENTRE OUTROS LIVROS 

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