Luciana Brito
Luciana Brito

Laura Navarro desponta como promessa literária com 'Natasha'

Romance de formação desvenda a alma de uma millennial

Donny Correia*, Especial para o Estado

15 Setembro 2018 | 16h00

Uma adolescente brasileira por parte de mãe e ucraniana por parte de pai. Uma voz interna inquieta, exasperada, cínica e tirânica. Um mundo que não obedece a miudezas. Eis o contexto de Natasha, novela de Laura Navarro que, aos 18 anos, desponta como uma voz singular na novíssima geração literária. A autora já provara a agudez de sua pena em 2016, quando publicou Claire de Lune, coletânea de primeiros poemas que denunciavam o tatear da busca por uma voz pessoal e apontavam os alvos desta prosa poética que é sua nova obra. Como dizia Haroldo de Campos sobre suas Galáxias, uma “proesia”.

A menção ao poeta concretista não é aleatória. A estética radical, aglutinadora e polifônica do autor é uma das várias influências de Laura Navarro. O jorro impetuoso de autoflagelação com que Natasha, personagem do livro, pune o mundo pelos poros de seu corpo denuncia uma escritora preocupada em fundir uma diversidade de citações extraídas de suas próprias convivências e de seus próprios fantasmas. Verdade que de maneira às vezes muito didática, outras vezes, impressionistas, algo próprio do aprendizado no ofício da escrita. De qualquer forma, ressaltam reflexões advindas da filosofia, da poesia, da música e da cultura pós-liquefeita.

A premissa de Natasha é das mais triviais, fato. Por isso, intrigante. Conhecemos a garota a partir de seus 13 anos até completar 19. A tônica ao longo dos anos: Natasha se corta, se queima, se machuca de bom grado porque, do cartesiano ponto de vista médico, tem transtorno borderline. Mas Laura não se conforma com as letras miúdas de uma bula, e irá guiar o leitor pelo cruel fio da lâmina com a qual sua personagem se desvela e se vinga de um mundo anódino e vazio, em que a dor, ao menos, é tangível. Aos 15 anos, Natasha testemunha o divórcio dos pais e parte para a Ucrânia, para morar com o pai e tentar se reconectar com a geleira que carrega dentro de si. Apaixonada por um homem mais velho, a jovem empareda o leitor de suas memórias numa sequência febril de excessos, raiva, automutilação e incertezas pueris que dão a tônica de um ser que, como sugeriria Drummond, carrega o peso do mundo nos ombros sem nem mesmo reconhecer a ontologia do fardo. É como dar as mãos a Bartleby e assistir a um sem-fim de não-sentidos.

Em verdade, Natasha é uma breve narrativa sobre a dor do anonimato. Não o anonimato das almas que depositam suas fichas na anuência da atenção alheia e seus efêmeros holofotes. Pior. É um anonimato que não faz distinção, que não é privilégio. O anonimato que cega o próximo à dor mais íntima compartilhada na alteridade. Por isso mesmo, uma dor muda, amorfa e amordaçada.

Em sua estética, Laura Navarro abole a distinção entre o que é prosa e o que é poesia. Entre narrador onisciente e presente. Em suas próprias palavras, na apresentação que faz a Natasha, a autora nos informa que o embrião do texto se deu a partir de um poema mais antigo. Um poema sobre alguém que desfolha o pulso com a navalha risonha como quem opera um bem-me-quer-mal-me-quer nas pétalas de um girassol moribundo. Assim, o texto da breve novela é entrecortado por longos e aflitivos espaços, em que o branco da página toma as vezes de mediador entre uma ponderação e um ato extremo; entre um lamento e uma pulsão. Há um jogo bem regido entre as orações e os versos; entre os eixos do sintagma e do paradigma cindidos com a precisão da qual a personagem-título se vale quando quer se punir, como revelam suas tantas cicatrizes.

“Needs no progress, I will lie.” Do trip pop experimental de Sylvia Palth aos absurdos imagéticos de Buñuel, Natasha lida com suas dores, entre um e outro compulsivo cigarro, circundando-se da inerência da Arte: seu filme favorito é Um Cão Andaluz. Curioso, no entanto, é como Laura Navarro propõe tal operação: “Um Cão Andaluz... Era seu filme favorito. Tinha uma veneração especial pela cena em que cortavam os olhos do porquinho com estilete.” Nesse caso, a autora desvela aquilo que está por trás da icônica cena do olho seccionado, ou seja, uma cabeça de porco maquiada, que serviu de “modelo” nas filmagens, conforme os anais da história do cinema. Na sequência da mesma oração, Laura voa retroativamente até a tragédia grega e coloca-se na pele de Édipo, ou uma Afrodite edípica: “Furar os olhos para não ter de enxergar”. 

E a polifonia borderline segue. Nos momentos mais sufocantes, niilismo e sarcasmo dançam uma esgrima logopática: “Ela quer testar as coisas ruins que existem para se certificar que não existem coisas boas” e “Vida demais a deixava extremamente melancólica”.

Embora a construção da voz autoral seja árdua e longa, e a idade ainda atente contra sua poética, Laura Navarro já sugere que entendeu o fétido estado de coisas no qual a geração anterior pereceu nas rusgas ideológicas, e no qual sua própria geração, Millennial, é um amontoado de natimortos exauridos pela navalha das relações virtuais.

*Donny Correia é escritor e poeta, mestre e doutor em estética e história da arte pela USP

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