Charles Dharapak | AP
Charles Dharapak | AP

Legado de manipulação

Obama encerra o mandato sem cumprir as promessas de fechar a prisão de Guantánamo e fazer de seu governo um modelo de relacionamento com a imprensa

Lúcia Guimarães, O Estado de S.Paulo

15 Maio 2016 | 06h00

No oitavo e último ano de sua presidência, Barack Obama deve deixar o governo com pelo menos duas promessas não cumpridas. Não fechou a infame prisão de Guantánamo, em Cuba, nem abriu seu governo à imprensa como sugeriu ainda nos tempos de candidato, quando disse que seria um modelo de transparência.

Não deixa de ser irônico, portanto, o fato de que o comitê especializado em fiscalização do governo federal na Câmara esteja ameaçando intimar um assessor de segurança nacional de Obama para dar satisfações sobre o conteúdo de uma entrevista estranhamente franca ao New York Times, publicada há uma semana. Os deputados, na casa hoje sob controle do Partido Republicano, querem perguntar a Ben Rhodes que história é esta de que a Casa Branca criou uma “câmara de eco” para enrolar o público e vender o controverso acordo nuclear com o Irã de julho de 2015.

Nos dias seguintes à publicação do longo perfil de Ben Rhodes, o establishment da mídia e o da política externa americanos reagiram com ira e perplexidade às revelações da reportagem. O que mais causou ofensa foram os comentários de Rhodes sobre a estratégia para vender a reaproximação com o Irã em meio à ferrenha oposição de republicanos, de Israel e de parte da comunidade de política externa que queriam mais garantias de monitoração do governo islâmico em Teerã.

Com sarcasmo indisfarçado, Rhodes se referiu aos veteranos da política externa como “a bolha” e abriu o jogo sobre como teria manipulado a imprensa, despachando comentaristas com roteiro de pontos positivos para dar entrevistas. Rhodes disse também que a tarefa não era difícil porque, com a crise do jornalismo, há menos correspondentes no exterior e os jornais telefonam para a Casa Branca para “perguntar o que acontece no Cairo ou em Moscou”. A média de idade dos repórteres, disse, é 27 anos e “eles literalmente não sabem de nada.” Rhodes queria acertar na “bolha” mas a bala ricocheteou também na mídia.

Menino-maravilha. O nome de Ben Rhodes não rende manchetes, mas quem acompanha a era de Barack Obama bem sabe que ele é um dos meninos-maravilha que se juntaram à campanha do então senador do Illinois. Rhodes havia se formado em Escrita Criativa, sonhava se tornar romancista mas, ao testemunhar a queda das Torres Gêmeas, em 2001, decidiu ir para Washington. Depois de trabalhar para a comissão bipartidária que investigou o 11 de setembro, ofereceu-se para trabalhar de graça para Obama, aos 29 anos. Seu título oficial é de vice-assessor de Segurança Nacional Para Comunicações Estratégicas. Mas, desde 2009, Ben Rhodes deu forma e conteúdo a tudo o que Barack Obama comunicou ao público sobre os Estados Unidos e o mundo. É um protagonismo sem precedentes, considerando, não apenas seus 38 anos, mas a falta de um currículo com experiência no exterior, em diplomacia ou em estudos da sua área. E é um poder que exaspera tanto o Pentágono como o Departamento de Estado, de onde partem notórias críticas sobre a centralização por um grupo fechado em torno de Susan Rice, a poderosa Assessora de Segurança Nacional de Obama.

Quando Obama assumiu o segundo mandato, em janeiro de 2013, reuniu seu time de política externa para olhar o globo e ver o que era ainda era possível fazer. O acordo nuclear com o Irã era um plano antigo e não, como sugeriu Obama, roteirizado por Rhodes, uma oportunidade surgida com a eleição do moderado Hassan Rouhani seis meses depois. Abertura para Cuba, sugeriram a Obama. Rhodes passou meses negociando em segredo com representantes de Raul Castro em Ottawa, no Canadá e, quando Obama pediu ajuda ao Papa Francisco, numa reunião em março de 2014, o processo foi acelerado. Rhodes se reuniu com os cubanos no Vaticano e o desfecho da negociação levou à reabertura oficial das embaixadas em Washington e Havana, em julho passado.

Ninguém acusa Obama de delegar decisões. Mas provocou escárnio no perfil no Times o comentário de Ben Rhodes – “Já não sei mais onde eu começo e Obama termina.”

A simbiose entre presidentes e assessores próximos não é uma raridade, como lembra Fred Kaplan, autor de vários livros sobre segurança nacional, que mantém a coluna Histórias de Guerra na revista digital Slate. O superassessor de John Kennedy, Ted Sorensen, além de escrever seus discursos, telefonava para políticos na Câmara e no Senado, fingindo ser o presidente, cuja voz imitava muito bem.

Doutrina Obama. Nos meses finais de sua presidência, é inevitável a discussão sobre o legado da era Obama em política externa. Há uma doutrina Obama? Seus críticos citam as palavras do próprio presidente que deve, em grande parte, sua eleição à oposição à guerra no Iraque. Ele dizia abertamente que, a primeira tarefa de um presidente pós-George Bush seria “não fazer porcaria estúpida”. Este slogan foi usado para atacar a inação de Obama na Síria e sua indisposição com aliados no Oriente Médio como Israel e Arábia Saudita.

Acabou a era de “carona grátis à custa dos Estados Unidos”, disse, nada diplomaticamente, Obama referindo-se não só à Arábia Saudita como especificamente ao corte do orçamento de defesa pela Inglaterra. Obama acusou aliados de tentar arrastá-lo para conflitos sectários que pouco têm a ver com interesses americanos. A declaração provocou irritação intercontinental e faz parte de uma longa entrevista concedida ao jornalista Jeffrey Goldberg para a reportagem de capa da revista Atlantic Monthly de março. Obama manifesta esperança de que a história se lembre dele por ter aberto novas fronteiras, na maior atenção com a Ásia (em prejuízo da Europa), por ter trazido o Irã de volta à comunidade internacional e encerrado o fútil isolamento de Cuba. E também por não ter enviado jovens para morrer em conflitos insolúveis.

Lembrado pelo que não fez. Mas há um elefante na sala – o genocídio sírio. Obama insiste que a intervenção militar americana, no começo do conflito, não teria feito diferença, diante dos interesses do Irã e da Rússia. Mas, com seus quase meio milhão de mortos, o genocídio sírio é um obstáculo para um presidente que, conclui Jeffrey Goldberg, torce também para ser lembrado pelo que não fez. A controvérsia do assessor boquirroto chama atenção para o fato de que manufaturar narrativas está longe de garantir seu desfecho.

Reportagem publicada no New York


Times sobre Ben Rhodes, assessor de política


externa de


Obama, jogou suspeitas


sobre a aproximação dos EUA com o Irã. Rhodes disse ao jornal que Obama “agiu ativamente” para enganar a imprensa no caso.

MAIO

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