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Leia introdução de Isabel Loureiro a livro sobre Rosa Luxemburgo

Livro do cientista político argentino Hernán Ouviña oferece uma introdução à vida e à obra da pensadora

Isabel Loureiro*, Especial para o Estado

05 de março de 2021 | 10h00

O texto a seguir é uma introdução de Isabel Loureiro ao livro Rosa Luxemburgo e a Reinvenção da Política: Uma Leitura Latino-americana, de Hernán Ouviña, publicado agora no Brasil pela editora Boitempo:

Hernán Ouviña, professor de ciência política na Universidade de Buenos Aires e  militante socialista que conhece como ninguém os movimentos sociais da América Latina, mostra seu talento de educador popular nesta ótima introdução à vida e obra de Rosa Luxemburgo, de grande interesse para a militância de esquerda. Ao levar a sério Walter Benjamin e seu “encontro secreto […] marcado entre as gerações passadas e a nossa”, Hernán volta ao pensamento da revolucionária judia polonesa a partir das questões que mobilizam a militância de esquerda posterior à “onda rosa” na América Latina: rejeição do patriarcalismo e do colonialismo, preservação dos modos de vida das populações originárias, Estado plurinacional, questão socioambiental. Mas ele não ignora o núcleo do pensamento político de Luxemburgo, que gira em torno de problemas como a dialética entre reforma e revolução, entre partido e classe, base e liderança, autonomia das massas, defesa  do vínculo indissociável entre democracia e socialismo. Hernán dá outra vida aos  conhecidos textos de Rosa, tornando a leitura prazerosa e fonte de novas desco bertas. Segue o conselho da própria autora que, cansada da monotonia rotineira  da imprensa social-democrata, recomendava que o escritor devia a cada vez se  entusiasmar e refletir sobre o tema na sua “plenitude, e assim se encontrariam  palavras novas para as coisas velhas e conhecidas, palavras vindas do coração e  dirigidas ao coração”. 


E assim o faz Hernán, tecendo um diálogo instigante de Rosa Luxemburgo  com as práticas políticas da América Latina, desvelando traços da influência  do pensamento da revolucionária polonesa na região. No Brasil, em particular, sabemos que as ideias de Luxemburgo começaram a ser divulgadas por Mário Pedrosa – fundador da oposição trotskista e nosso maior crítico de artes plásti cas – nas páginas do semanário Vanguarda Socialista, editado por ele no Rio de  Janeiro de fins de 1945 a meados de 1948. Aí foram publicados alguns dos artigos  políticos mais importantes de Rosa Luxemburgo, com cuja obra Mário tivera  um primeiro contato em Berlim e Paris no fim da década de 1920. No cenário  imediatamente posterior à Segunda Guerra Mundial, quando o pensamento de  esquerda era dominado pelo stalinismo, a divulgação do ideário socialista de mocrático, popular e antiburocrático de Luxemburgo tinha o fito de criar uma  nova esquerda, humanista e independente, tanto da social-democracia quanto do  stalinismo. Nesse intuito ele polemiza incisivamente com a concepção leninista  de partido-vanguarda centralizado, formado por um pequeno núcleo de revolu cionários profissionais, hierarquicamente separados das grandes massas populares. Contra o que considera o principal responsável pelo definhamento burocrático  da Revolução Russa, o partido-vanguarda, ele toma posição pelo partido-classe  de Luxemburgo, formado a partir da ação autônoma dos de baixo, tanto na luta  cotidiana pela ampliação de direitos quanto para transformar estruturalmente  o estado de coisas vigente. Concordando com sua crítica ao aniquilamento das  liberdades democráticas pelos bolcheviques, Pedrosa argumenta que a falta de liberdade leva à barbarização da vida pública, o que impede a construção do socialismo e a emancipação social. A via régia rumo ao socialismo só pode ser  pavimentada pela ação livre da grande maioria, politicamente formada na luta, e não por decretos de uma vanguarda iluminada que se põe no lugar das massas. Essa é a primeira lição que Pedrosa tira das ideias políticas de Luxemburgo. 

Trinta anos mais tarde, no fim da década de 1970, ele publica um livro sobre as ideias econômicas da nossa revolucionária, A crise mundial do imperialismo e Rosa Luxemburgo. Nessa época, já crítico do eurocentrismo e do desenvolvi mentismo, desencantado com a arte racionalista e admirador da arte indígena,  vê na análise de Luxemburgo das formações sociais pré-capitalistas e do seu  aniquilamento pelo rolo compressor do capital uma explicação original do capitalismo histórico como processo global. Concorda com ela que a violência do capital não se restringe às suas origens, ao processo de “acumulação primitiva”, mas que o saque e a destruição, quer da força de trabalho, quer da natureza, são necessidades permanentes da acumulação. Mário Pedrosa, ao se apropriar  da face terceiro-mundista do pensamento de Rosa Luxemburgo, intui aquilo que 25 anos depois David Harvey chamará de “acumulação por expropriação”. 

Por sua vez, Paul Singer, também herdeiro de Luxemburgo, formou-se politicamente com a leitura de Vanguarda Socialista, na qual aprendeu o nexo indissolúvel entre socialismo e democracia que o acompanhou durante a vida inteira. Leitor de A acumulação do capital, obra magna da revolucionária judia polonesa, Singer reconhece que sua grande contribuição teórica foi ter percebido, contra Marx, que nunca existiu um modo único de produção no mundo, mas  vários modos de produção interagindo entre si. O mundo real analisado por  ela mostrava formas de artesanato e de pequena agricultura coexistindo com o  capitalismo (mas sobretudo sendo destruídas por ele), o que Singer via como  exemplo iluminador para a elaboração teórica da economia solidária. Não custa lembrar que Mário Pedrosa e Paul Singer, empenhados em criar um partido socialista de massas, enraizado na democracia interna e que lutasse pelos direitos  dos trabalhadores e pela transformação estrutural do arcaísmo brasileiro, fizeram  parte do núcleo fundador do Partido dos Trabalhadores (PT). 

Ainda podemos acrescentar a esses dois casos da recepção brasileira de Rosa  Luxemburgo Michael Löwy e Maurício Tragtenberg. O primeiro, para além de  adepto do ideário socialista democrático enraizado na autoatividade dos subal ternos – ou seja, na soberania popular –, introduziu entre nós uma leitura muito  frutífera da economia política da nossa revolucionária. Argumenta que Rosa, com  sua admiração pelas antigas formações sociais não capitalistas e sua rejeição da  violência da modernização capitalista como um capítulo necessário no caminho  do socialismo, aposta numa história aberta à ação humana, dando elementos  para criticar a ideia determinista do progresso linear, típica do positivismo. No  pensamento de Rosa Luxemburgo já encontraríamos o germe de uma crítica  da ideologia do progresso que seria desenvolvida posteriormente por Walter  Benjamin. Já Maurício Tragtenberg, com suas análises ironicamente demolidoras  dos fenômenos burocráticos, inclusive no campo da esquerda, via em Luxemburgo  a mãe das ideias libertárias e antiburocráticas. 

Não resta dúvida de que o livro de Hernán Ouviña entronca com essa história  aqui esquematicamente delineada. Com uma leitura renovada do pensamento  da revolucionária polonesa, ele dá voz a uma nova geração de militantes que se  forjou na América Latina nas lutas contra o neoliberalismo, mas também na  crítica aos limites dos chamados “governos progressistas”, acrescentando mais  um capítulo à recepção de Rosa Luxemburgo entre nós. 

 

*Isabel Loureiro é professora aposentada do Departamento de Filosofia da Unesp, campus de Marília, e atual colaboradora da Fundação Rosa Luxemburgo em São Paulo. 

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