Dahlia Katz/Intrínseca
Dahlia Katz/Intrínseca

Romance conta os percalços de uma camareira envolvida em um crime

Estreia da editora Nita Prose, da prestigiosa Simon & Schuster, parte de um sofisticado suspense. Leia um trecho de 'A Camareira', enviado com exclusividade ao 'Aliás'

Nita Prose, O Estado de S. Paulo

27 de janeiro de 2022 | 10h00

A editora Intrínseca enviou exclusivamente ao Aliás o livro A Camareira (The Maid), estreia da editora da Simon & Schuster na ficção. A obra, publicada nos EUA agora em janeiro, será adaptada para o cinema e teve os direitos de filmagem adquiridos pela Universal. O livro será publicado pela editora brasileira, primeiramente, no clube de assinaturas 'Intrínsecos', e chega às prateleira em abril. Leia um trecho do primeiro capítulo, abaixo: 

 

Tenho plena consciência de que meu nome é ridículo. Não era ridículo quatro anos atrás, antes de eu conseguir esse emprego. Sou cama reira no Hotel Regency Grand e meu nome é Molly. Como Molly Maid, o  serviço de limpeza. Uma piada pronta. Antes de conseguir o emprego,  Molly era só um nome qualquer, escolhido pela minha mãe, que me abandonou há tanto tempo que não tenho lembranças dela, só algumas fotos  e as histórias que a vovó me contou. Segundo a vovó, minha mãe achava  Molly um nome fofo. Dizia que fazia a gente pensar na hora em meninas  de bochechas redondas e maria-chiquinha — exceto que nunca tive nada  disso. Tenho cabelo escuro, simples, que mantenho num corte chanel  preciso e bem cuidado. Reparto o cabelo no meio — exatamente no meio.  Sempre liso e reto. Gosto de coisas simples e organizadas. 

Tenho as maçãs do rosto protuberantes e uma pele pálida que até impressiona as pessoas de vez em quando, não sei por quê. Sou tão branca  quanto os lençóis que tiro e coloco nas camas, tiro e coloco, o dia todo  nos vinte e tantos quartos que arrumo para os ilustres hóspedes do Regency Grand, um hotel boutique cinco estrelas que se orgulha da “elegância sofisticada e bom gosto adequado aos novos tempos”. 

Nunca na vida achei que ocuparia um cargo tão altivo em um hotel de  renome. Sei que outras pessoas não pensam assim, acham que camareiras não são ninguém. Sei que todos nós deveríamos aspirar a ser médicos, advogados e magnatas do mercado imobiliário, mas não sou assim. Sou tão grata pelo meu trabalho que acho que estou sonhando todos os dias.  De verdade. Sobretudo agora, sem a vovó. Sem ela, minha casa não é mi nha casa. É como se toda a cor do apartamento que a gente dividia tivesse  ido embora. Mas, no instante em que entro no Regency Grand, o mundo  fica colorido como uma tela de cinema.

Quando me apoio no brilhante corrimão de bronze e subo os degraus  escarlates que levam ao majestoso pórtico do hotel, sou Dorothy entrando em Oz. Empurro a reluzente porta giratória e vejo meu verdadeiro eu  refletido no vidro — meu cabelo escuro e minha pele pálida são onipresentes, mas um rubor volta às minhas bochechas e minha razão de ser é  restaurada mais uma vez. 

Quando passo das portas, costumo parar um pouco para assimilar a  grandiosidade do saguão. Ele nunca deixa a desejar. Nunca perde a graça  ou o brilho. É igualmente maravilhoso, todo santo dia. A recepção fica à  esquerda da entrada, com um balcão escuro de obsidiana e concierges  bem-vestidos, de preto e branco, feito pinguins. E há o amplo saguão, em  forma de U, com um elegante piso de mármore italiano, de um branco  imaculado e reluzente, que guia os olhos até a escadaria de acesso ao mezanino. Os corrimãos são compostos por serpentes de bronze enroladas  em balaústres opulentos, segurando esferas douradas nas mandíbulas, e  lá em cima o ambiente é todo em requintados detalhes Art Déco. Alguns  hóspedes costumam ficar no parapeito do mezanino, com as mãos apoiadas nas colunas brilhantes ao observar o glorioso cenário abaixo — carregadores andando em ziguezague, arrastando malas atrás de si, outros  hóspedes sentados em suntuosas poltronas ou casais aninhados em sofás  verde-esmeralda, enquanto os segredos são absorvidos pelo veludo escuro e macio. 

Mas talvez a minha parte preferida do saguão seja a experiência olfati va que ele proporciona, aquela primeira leva de aromas que me atinge no  início de cada expediente — a mistura dos perfumes chiques das mulheres o odor almiscarado das poltronas de couro, o cítrico do verniz que é usado duas vezes ao dia no piso de mármore reluzente. É o cheiro da vida  acontecendo. 

Todos os dias, quando chego para trabalhar no Regency Grand, me  sinto viva outra vez. Parte de algo maior, do esplendor e da cor. Sou parte  do conceito, um quadrado luminoso e único, indispensável à tapeçaria. 

Vovó costumava dizer: Se você amar seu trabalho, não vai trabalhar nenhum  dia da sua vida. E ela tinha razão. Cada dia de trabalho é uma alegria para  mim. Eu nasci para fazer isso. Amo fazer faxina, amo meu carrinho de  camareira e amo meu uniforme. 

Não há nada como um carrinho de camareira perfeitamente abastecido no começo da manhã. Na minha humilde opinião, é uma cornucópia  de dádivas e beleza. Os pacotinhos de sabonetes novos, delicadamente  embrulhados e com aroma de flor de laranjeira, as garrafinhas de xampu,  as pequenas caixas de lenços, os rolos de papel higiênico envoltos em filme protetor, as toalhas branquíssimas de três tamanhos — banho, mão,  rosto — e as pilhas de guardanapos de renda para as bandejas de chá e  café. E, por fim, o kit de limpeza, que inclui um espanador, cera de limão  para os móveis, sacos de lixo antissépticos levemente aromatizados e  uma seleção impressionante de borrifadores com solventes e desinfetantes, todos organizados e prontos para combater qualquer mancha, seja de  café, vômito… ou até mesmo sangue. Um carrinho de camareira bem  abastecido é um milagre portátil da higienização; é uma máquina de limpeza com rodinhas. É lindo. 

E meu uniforme. Se tivesse que escolher entre meu uniforme e meu  carrinho, acho que não conseguiria. Meu uniforme é minha liberdade. É  a melhor capa de invisibilidade. Ele é lavado a seco diariamente, na própria lavanderia do hotel, localizada nas úmidas entranhas do prédio, no  fim do corredor onde ficam nossos vestiários. Todos os dias, antes de eu  chegar ao trabalho, o uniforme é pendurado na porta do meu armário.  Vem dentro de um plástico fino com um papelzinho colado, com meu nome escrito em caneta preta. Que alegria o ver ali de manhã, minha segunda pele — limpo, desinfetado, recém-passado, com uma mistura de  cheiros de papel novo, piscina coberta e um nada. Um recomeço. 



 

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