Benjamin Norman/The New York Times
Benjamin Norman/The New York Times

Leilão da coleção Rockefeller bate recordes no mercado de arte

Mais de 1.500 itens que pertenceram à família foram vendidos pelo maior preço já registrado para uma coleção privada

Robin Pogrebin , The New York Times

19 Maio 2018 | 16h00

Não, a coleção colocada em leilão da família Rockefeller não alcançou US$ 1 bilhão esta semana, apesar dos rumores e especulações que indicavam anteriormente que ela poderia alcançar essa marca histórica. O resultado foi consideravelmente tímido, por volta de US$ 833 milhões.

Mas os tesouros de David e Peggy Rockefeller ainda mantêm o recorde como a mais valiosa coleção privada vendida em leilão, superando os US$ 443 milhões (valor revisado em 2013) da coleção de Yves Saint Laurent em 2009. E a vigorosa aquisição esta semana de todos os bens, desde um Monet até um clipe para prender cédulas de dinheiro surpreendeu muitos especialistas de arte.

Colecionadores e marchands concordam que a procedência dos bens ilustre casal, junto com uma campanha de marketing sagaz da Christie’s (“Viva como um Rockefeller”) se traduziram numa espécie de alquimia mágica que resultou nas fortes vendas em geral.

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“Não importa se você está sempre no mercado ou entrando hoje, tem de reconhecer o valor da história neste caso”, disse a conselheira de arte Sandy Heller. “É como algum bem proveniente do Palácio de Buckingham – tem a ver com o que significou para este país e a sua cultura”.

E para alguns também há a satisfação de saber que os recursos obtidos com as vendas irão para várias entidades beneficentes, como o Museu de Arte Moderna e o Maine Coast Heritage Trust.

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Veteranos do mercado de arte ficaram particularmente surpresos com os lances oferecidos no caso dos impressionistas, como Nymphéas en Fleur (Lírios Aquáticos) de Monet, diante do atual foco cultural na arte contemporânea (e o consenso de que este não era um dos melhores quadros sobre lírios do pintor). Entretanto o quadro provocou um frenesi no salão e por telefone, sendo vendido por US$ 85 milhões, comissão incluída, um salto considerável em relação aos US$ 50 milhões estimados. O lance vencedor foi feito por Xin Li Cohen, vice-chairman da Christie’s Asia.

“Senti-me encorajada por isso” disse Melanie Clore, especialista da Sotheby’s que hoje é conselheira de arte. “Os quadros impressionistas tradicionais obtêm bons preços. Esta venda confirmou que ainda existe um mercado para essas pinturas”.

Especulava-se sobre quem teria adquirido o que, com a Chistie’s reportando que alguns compradores eram instituições. Como Gary Tinterow, diretor do Museum of Fine Arts de Houston, adquiriu uma obra de Georges Seurat (La Rade de Grandcamp), por US$ 34 milhões, muitos imaginaram que a compra havia sido feita para o museu. Mas ele disse por telefone ter adquirido para um colecionador de Houston.

Os serviços de mesa e itens de coleção dos Rockefeller também alcançaram valores altos, incluindo um clipe de prender cédulas de dinheiro com a imagem do Rockefeller Center que alcançou o valor de US$ 75.000, comissão incluída (frente a uma estimativa de US$ 1.200).

“Estou surpreso como objetos de arte decorativa estão alcançando valores mais altos do que o estimado”, disse Marc Porter, chairman da Christie’s Americas. Porter disse que o valor de US$ 1 bilhão foi alardeado pela imprensa e não pela Christie’s. “Jamais pensei que o leilão pudesse atingir essa cifra”, afirmou. “Seria preciso acrescentar mais US$ 200 milhões à venda desta noite, o que estava além das expectativas”.

Mas se os lances decolassem no caso da peça com a avaliação mais alta da semana, Fillete à la Corbeille Fleuri (Garota Jovem com uma Cesta de Flores), pintada em 1905 por Pablo Picasso, a Christie’s poderia chegar muito mais perto daquele valor. Entretanto a peça foi arrematada por US$ 115 milhões, incluindo a comissão. Mas segundo Porter a obra sempre comportou um risco, uma vez que retrata uma adolescente nua e não é facilmente reconhecível como um trabalho de Picasso.

“É uma pintura complicada”, afirmou Porter. “É difícil pelo assunto que retrata e não é tão legível pictoricamente.”

A obra foi comprada pela família Nahmad, segundo duas fontes próximas da venda – uma delas um ex-executivo de leilões. O marchand Helly Nahmad não confirmou essa informação, dizendo apenas que “é uma grande pintura”. Ele acrescentou: “Está sendo emprestada ao Museu D’Orsay.”

Desnecessário dizer que a família Rockefeller, que garantiu US$ 650 milhões da Christie’s, ficou satisfeita com o resultado. Membros da família estavam presentes ao leilão e fizeram um brinde à Christie’s após a venda denominada “Art of the Americas” na quarta-feira. “Os Rivais” de Diego Rivera, retratando um festival Oaxacan tradicional, quase alcançou os US$ 10 milhões, um lance alto para o artista. A obra foi encomendada em 1931 por Abby Aldrich Rockefeller.

“Há um pouco de emoção quando vejo uma coleção que estava tão próxima e em quatro casas diferentes ser assim desmembrada. É uma mistura de empolgação e tristeza”, disse David Rockefeller Jr.

Indagado se alguma obra em particular à venda na terça-feira evocava seu pai, ele se referiu ao quadro Odalisque Couchée aux Magnolias, de Matisse, pintado em Nice em 1923 com um fundo ricamente decorado.

“Era uma peça bastante visível na casa no condado de Westchester. Lembro quando meu pai posicionava sua cadeira de modo a ver sempre o quadro”. A peça foi a que mais recebeu lances na semana, avaliada em US$ 70 milhões, tendo sido vendida no final por US$ 80,8 milhões, um valor alto para uma obra do artista. / Tradução de Terezinha Martino

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