National Museum of Women in the Arts
National Museum of Women in the Arts

Leilões de fim de ano mostram fragilidade do mercado de arte pré-vitoriana

Os 'old masters' estão cada vez mais desvalorizados diante dos modernos

Scott Reyburn, The New York Times

15 Dezembro 2018 | 16h00

Foi bom enquanto durou. A lembrança do verão em que Beyoncé,Victoria Beckman e outros famosos se mostraram fascinados por velhos mestres da pintura europeus já se dissipou. Os leilões de tais obras voltaram ao ritmo de sempre. Pelo menos foi essa foi a impressão deixada pela recente semana em que a Sothebys’ e a Christie’s fizeram seus costumeiros leilões de dezembro de arte pré-vitoriana. As cores das paredes podiam ser diferentes (negras na Sotheby’s e azuis na Christie’s), mas as mais recentes obras de velhos mestres leiloadas – uma Cabeça de Cristo, de Rembrandt, retratos de Anthony Van Dyck e Frans Hals e quadros da família Brueghel – foram apresentadas, em boa medida, do modo que são há séculos. 

“Somos a tartaruga competindo com a lebre da arte contemporânea”, disse Johnny Van Haeften, marchand londrino especializado em velhos mestres. Ele admitiu que o gosto dos colecionadores se voltou para obras mais recentes, mas ressalvou que velhos mestres continuam sendo uma alternativa de investimento. “Trata-se de preservar o capital. As pessoas estão entendendo que são investimentos seguros.”

A ideia de que velhos mestres europeus são relativamente baratos, e como investimento enfrentam melhor o teste do tempo que obras contemporâneas, é um conhecido refrão entre aqueles que tentam vender arte histórica. O problema é que velhos mestres se tornaram um mercado imprevisível.

As vendas certamente estavam mais para dia de lebre que de tartaruga na terça-feira, 4, quando a Christie’s vendeu cerca 200 obras e livros da coleção da Rugby, uma escola privada da Inglaterra, por £ 14,8 milhões (R$ 68 milhões). O leilão incluiu mais de cem desenhos de velhos mestres doados à Rugby no século 19 por um ex-aluno, o colecionador e antiquário Matthew Holbeche Bloxam. 

Entre esses, estava um raríssimo desenho em carvão negro do século 16 mostrando um jovem em trajes de moda – identificado pelos especialistas como um trabalho autográfico de Lucas van Leyden, um influente artista holandês cujas gravações têm sido cotadas tão alto quanto as de Durer. 

Desenhos de Van Leyden são quase desconhecidos no mercado aberto. Três interessados, todos dando lances por telefone, fizeram subir o preço da descoberta para £ 11,5 milhões (R$ 56,3 milhões), mais de sete vezes o valor estimado. O lance vencedor foi o terceiro mais alto já dado em leilão por um desenho de um velho mestre, segundo a Christie’s. 

“Se a qualidade é AAA, os preços não importam”, disse Johan Bosch van Rosenthal, consultor de arte de Amsterdã que representou um cliente durante os lances iniciais. “Era a última chance de se comprar um desenho desse artista, a não ser que surja outra descoberta.”

Mesmo assim, quase US$ 15 milhões não é muito dinheiro? “Pode-se pagar isso por um Picasso ruim”, disse Bosch van Rosenthal. Ele talvez não soubesse que apenas duas obras em papel de Picasso ultrapassaram essa soma, segundo o banco de preços Artnet. 

Após séculos de comércio, velhos mestres “AAA” novos no mercado estão cronicamente em falta, tornando a competição cada vez mais acirrada quando aparecem. Excetuando-se o desenho de Van Leyden, obras verdadeiramente com qualidade de museu foram muito poucas nessa última série de leilões. 

Entretanto, o leilão de terça-feira da Sotheby’s, de 42 pinturas, na maioria obras de velhos mestres, incluiu um redescoberto estudo a óleo sobre painel da Cabeça de Cristo, de Rembrandt, que estava na coleção de uma mesma família desde 1956. 

Um dos sete estudos conhecidos aparentemente esboçados sobre o mesmo modelo, a partir de 1648, o quadro foi recentemente emprestado ao Rembrandthuis, de Amsterdã. 

Com apenas 25 cm de altura, esse esboço religioso não era obviamente um troféu de bilionário. Mas, ajudado por um lance superestimado de £ 8 milhões (R$ 39,1 milhões), ele foi vendido a Nicolas Joly, um agente de artistas baseado em Paris, por £ 9,5 milhões (R$ 46,5 milhões). 

Outra obra de um grande nome vendida na noite foi um retrato do príncipe de Gales Charles II aos 11 anos, um dos últimos trabalhos de Anthony Van Dyck. 

Produzido em 1641, um ano antes da Guerra Civil inglesa, o quadro foi vendido a Amparo Martinez-Russotto, curadora da empresa de commodities de Genebra Klesch Group, por £ 2,6 milhões (R$ 12,73 milhões), um pouco acima do valor estimado. 

Van Dyck, como Rembrant, não tem mais a força que teve no mercado. Em 1906, tornou-se o artista mais caro do mundo, após a venda por US$ 500 mil – equivalentes a cerca de R$ 54 milhões de hoje – do retrato da marquesa Elena Grimaldi Cattaneo. 

O leilão da Sotheby’s vendeu trabalhos que acumularam um total de £ 30,2 milhões (R$ 147,88), na maioria a colecionadores privados. Embora o total seja menos da metade do que a casa arrecadou no leilão de arte contemporânea realizado em outubro, foi 16% a mais do que o arrecadado num leilão equivalente de velhos mestres realizado um ano atrás. 

Desta vez, a Christie’s ofereceu uma forte seleção de pinturas, pelo menos para quem gosta da arte holandesa e flamenga do século 17. O leilão de quinta-feira, 6, começou com 39 obras da coleção de Eric Albada Jelgersma, empresário holandês morto em junho. 

Jelgersma tinha gosto clássico e comprava regularmente pinturas caras de marchands que expõem na maior feira do mundo de arte de velhos mestres, a Tefaf Maastricht. Mas o apelo comercial dessas pinturas, bem como a fraqueza do mercado para tais obras holandesas, não estimulou a demanda. Catorze quadros não foram vendidos. 

No entanto, um par de retratos de um casal afluente do século 17, de Frans Hals , que Jelgersma tentou sem êxito vender em anos recentes, finalmente encontrou comprador: o marchand internacional Bob Haboldt pagou por eles £ 10 milhões (R$ 49,2 milhões). O preço parece bastante significativo, mas foi abaixo dos US$ 14 milhões (R$ 54 milhões)pagos em 2008 por um único retrato do artista, segundo Artnet. 

Diferentemente da arte contemporânea, velhos mestres têm também o problema de constituírem um feudo dominado por artistas homens. Mas pintoras começam a arejar o feudo, ajudadas por uma investida dos museus para reabilitar talentos marginalizados. 

A coleção Jelgersma incluiu um charmoso e alegre quadro de jovens notívagos de autoria da pintora holandesa Judith Leyster, Merry Company, do século 17, vendido a Martinez-Russotto por £ 1,8 milhão (R$ 8,8 milhões), um novo recorde para a artista. 

A demanda na Christie’s por um lote de 36 velhos mestres, de vários donos, que se seguiu foi também desigual, com um terço das obras não vendidas. Uma das poucas obras a atrair o interesse de vários participantes uma tela de Pieter Brughel, o Jovem, Provérbios Neerlandeses, de cerca de 1600, vendida por £ 6,3 milhões (R$ 30,8 milhões) num lance dado por telefone. 

Posta à venda pelos colecionadores Herbert e Adele Klapper, do Estado de Nova York, essa é uma das nove versões derivadas de um célebre quadro do pai do artista, Pieter Bruegel, o Velho (atualmente foco de uma concorrida retrospectiva no Kunsthistorisches Museum, de Viena). Como as obras do pai não aparecem mais no mercado, colecionadores têm de se contentar com cópias feitas pelo filho. 

“Não havia um número significativo de compradores privados ou marchands ativos nos leilões”, disse James Bruce-Gardyne, diretor da empresa de consultoria de arte Gurr Johns, de Londres. “O mercado para mestres holandeses vêm sofrendo, mas existe demanda para pinturas flamengas.” 

Grandes descobertas de velhos mestres, como a do quadro de Van Leyden, são vendidas em velocidade de lebre. Quanto ao restante, pense em tartaruga. / Tradução de Roberto Muniz

Mais conteúdo sobre:
artes plásticasleilão

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.