Leitura crítica

Fechamento premente da editora Cosac Naify é o mais recente desastre num ano especialmente aziago. Faz saltar à vista o descaso com a cultura nesta pátria educadora de lideranças vis, escolas abandonadas, burocracia escorchante e um povo que não incorporou o prazer de ler

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

05 Dezembro 2015 | 16h52

Há 20 anos ela não existia. Cinco anos atrás, já era a segunda editora mais admirada do País, superada apenas pela Cia. das Letras, na avaliação de uma enquete realizada pelo jornal Valor. Daqui a quatro semanas a Cosac Naify fechará suas portas.

“Não acredito”, “Que horror”, foi com exclamações de incredulidade, espanto e assombrado desânimo que as mídias sociais repercutiram a notícia de que a editora estava saindo de cena. “O que esperar de um país cujas lideranças são o Eduardo Cunha, o Renan Calheiros, a Dilma e todos os seus avatares nas empresas, instituições financeiras do terceiro setor, do candidato a prefeito que bate em mulher, da PM do Rio que mata todos os dias jovens inocentes?”, vociferou no Facebook uma indignada carioca, que poderia ter acrescentado a seu rol de horrores a reorganização da rede escolar imposta pelo governador de São Paulo e suas policiais consequências.

“O que esperar de uma ‘pátria educadora’ que usa o Ministério da Educação para fazer barganha política e, sempre que necessita cortar orçamento, sacrifica primeiro o da cultura e o do ensino?”, estrilou um blogueiro. Outro internauta sintetizou seu desalento em 65 caracteres: “Infeliz o país onde os bancos têm lucros fabulosos e as editoras vão à falência”.

O ocaso da Cosac Naify foi o mais recente desastre deste ano especialmente aziago para nossa cultura. Em junho, premidos pela crise econômica, a alta do dólar, a inflação e a burocrática legislação vigente no país, dois patrimônios culturais do Rio, a legendária Livraria Leonardo Da Vinci e a preciosa Casa Daros (com dois anos de existência e 1.200 obras de 127 artistas plásticos latino-americanos em seu acervo), jogaram a toalha.

De comum acordo com o sócio americano (e cunhado) Michael Naify, Charles Cosac, carioca de 51 anos radicado em São Paulo, tomou a decisão mais difícil de sua vida, conforme revelou ao repórter do Caderno 2 do Estado, Antonio Gonçalves Filho, em entrevista exclusiva que entrou no site deste jornal às 21h16 de segunda-feira passada, ironicamente quase ao mesmo tempo em que o potiguar Estevão Azevedo recebia o prêmio São Paulo de Literatura pelo romance Tempo de Espalhar Pedras, editado pela Cosac Naify.

Raciocinando analogicamente, o editor negligenciou a internet. Pensou que a entrevista só sairia na edição impressa do jornal, na manhã seguinte, e deixou para dar a má notícia aos seus funcionários, por e-mail, por volta das 23h de segunda. Àquela altura, graças ao furo de Antonio Gonçalves Filho, todos eles já sabiam que a utópica aventura da Cosac Naify – livros de alto nível e esmerada feitura gráfica para um público consumidor mais exigente – chegara ao fim.

Foi justamente para não desvirtuar sua rigorosa linha editorial, seguida à risca desde a criação da empresa em 1997, a um custo inicial de R$ 70 milhões que nunca viu retorno, só acumulados prejuízos (falou-se em R$ 140 milhões), que Cosac decidiu fechar a fábrica. A uma repórter da Globo News, que na tarde de quinta-feira pegou-o de surpresa na rua, o editor alinhou a alta do dólar, os preços abusivos cobrados pelas gráficas brasileiras e os 90 dias que as livrarias levam para pagar os editores como os fatores de ordem econômica mais determinantes para sua decisão.

Sua ressalva de que a editora, afinal, “não está falindo”, apenas encerrando suas atividades por uma decisão pessoal, acabou interpretada por alguns observadores do mercado como um capricho de menino rico que cansou do brinquedinho e deixou um punhado de autores e profissionais do ramo editorial com a brocha na mão. Tal suposição subestima o fato de que Cosac podia ter reaplicado a fortuna que herdou da família na indústria de mineração, não em arte, em cultura, muito menos na tentativa de repetir aqui a experiência iluminista do editor e colecionador italiano Franco Maria Ricci.

Projetos com a ousada excelência da Cosac Naify, da gravadora Biscoito Fino (bancada pela empresária Kati Almeida Braga) e da revista piauí (cria de João Moreira Salles) apostam num Brasil em tudo o oposto do que aí está, em adiantado estado de putrefação moral e espiritual. Charles Cosac teve menos sorte ou menos paciência que os outros dois mecenas. Ou talvez tenha delirado um tanto além da conta. Poderia ter baixado seu nível de exigência, mas recusou-se a fazê-lo. As novas fórmulas que adotou para abater despesas (coleções de autores em domínio público, como Tolstoi) também se ressentiram do elevado custo exigido pelo padrão Cosac de qualidade: novas traduções, elaborado design, prefácios e apresentações de fina qualidade.

Falindo ou não, seu fechamento há muito parecia iminente. O corte de 30% na folha de pagamento, sete meses atrás, revelou-se insuficiente para sustentar uma empresa que começou caseira, mas não conseguiu administrar seu desmedido crescimento nem os crescentes investimentos impostos pelo modo quase artesanal como trabalhava o texto e a produção gráfica de cada livro. “A gente fez o que pôde”, desabafou Elaine Ramos, diretora de arte da editora, que não foi a única funcionária a repetir esse mantra e a reconhecer ter havido um sério problema de gestão. O patrão não só “não pensava no lucro”, como fazia um certo charme em torno de seu desapego ao vil metal.

Não bastasse, em nossa “pátria educadora” pouca gente adquiriu o hábito de ler e comprar livros. Criamos editoras, podemos até editar livros a mancheia, mas não criamos leitores. Com 14 milhões de analfabetos, o Brasil é o oitavo no ranking mundial da ignorância. Só perdemos para dois colossos demográficos (Índia e China) e para Paquistão, Bangladesh, Nigéria, Etiópia e Egito, mas, vergonhosamente, ganhamos de todos os países do continente americano.

Quantos dos quase 200 milhões de brasileiros abrem um livro? Quantos volumes leem por ano? A mais recente pesquisa da Câmara Brasileira do Livro registra uma média de 4,7 livros por ano, contando os de leitura obrigatória. Os de leitura espontânea não passam de 1,3. Só fazemos piorar. Cinco anos atrás, a média nacional era de 1,9 livro por ano. Já perdíamos, na América Latina, para Colômbia (2,5), Chile (3) e Argentina (5).

Nosso mercado editorial, estimado em R$ 5,4 bilhões, está, como o restante da economia do País, em recessão. Depois de uma queda de 2,6% em 2012, teve em 2014 um crescimento de 5,16% em relação a 2013, que quase nada significou. Empurradas pelo programa de compra do governo e a febre dos livros para colorir, as editoras estocaram champanhe para uma festa que aos poucos micou. Na pindaíba, o governo limou a aquisição de livros para doações a bibliotecas públicas e só não congelou o Plano Nacional do Livro Didático porque é obrigatório. O Plano Nacional de Livro e Leitura tampouco foi extinto, mas não funciona, “quando muito anda de lado”, queixou-se em junho à repórter do Estado Maria Fernanda Rodrigues o presidente da CBL, Luís Antonio Torelli.

Sobraram as Barbies com lombadas para as moçoilas gastarem seus lápis de cor. Quase um monopólio das editoras Sextante e Alaúde, os livros para colorir responderam por 3,97% do total do faturamento do primeiro semestre deste ano, mas parecem ter passado de moda mais rapidamente que a euforia suscitada pela histérica montante infantojuvenil na Bienal do Livro do Rio deste ano.

Brasileiros adoram tablets e smartphones, mas curtem pouco os leitores de livros digitais, e isso explica por que, mesmo em ascensão, a venda de e-books representa apenas 0,3% do faturamento das editoras, que ainda dependem do livro impresso e das livrarias para sobreviver. Responsáveis por 60% das vendas, as livrarias são tratadas a papinha pelas editoras e algumas até negociam seu cada vez mais precioso espaço físico por um acerto a combinar. Elas continuam se expandindo, mas ainda estamos longe da meta de uma livraria para cada 10 mil habitantes, estabelecida pela Unesco. Para atingi-la, o Brasil precisaria ter 20 mil livrarias. Das pouco mais de 3 mil que possui – ou uma para cada 65 mil habitantes –, a imensa maioria (74%) está concentrada no sul e no sudeste, dado assaz expressivo de como a cultura se distribui pelo País.

Dias antes do fechamento da Cosac Naify e da Black Friday, Ismael Borges, executivo responsável pelo Nielsen Bookscan, serviço de monitoramento do comércio livreiro no Brasil, divulgou um dado nada animador: se o mercado editorial quiser fechar o faturamento deste ano em linha com o PIB projetado (queda de 3,5%), terá de alcançar um desempenho 15% superior ao do último trimestre de 2014. A essa altura, Charles Cosac deve ser o único editor não preocupado com isso.

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