Museu de História da Arte de Viena
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'Ler Borges é ler uma infinidade de autores', diz Jorge Schwartz

Organizador da enciclopédia 'Borges Babilônico' fala sobre seu projeto e a obra do escritor argentino

Ubiratan Brasil, O Estado de S. Paulo

26 Agosto 2017 | 16h00

A diversidade e a complexidade do pensamento de Jorge Luis Borges (1899-1986) ainda encantam os pesquisadores, que buscam desvendar seus escritos. Sua paixão pela escrita era soberana, assim como a admiração e até devoção por outros autores. Tal consideração faz refletir sobre o papel da biblioteca ou da enciclopédia em sua vida e literatura. Movido por isso, Jorge Schwarz, professor da USP e profundo conhecedor da obra borgiana, organizou o volume Borges Babilônico – Uma Enciclopédia, recém lançado pela Companhia das Letras.

Trata-se de uma portentosa coleção de mais de mil verbetes sobre a produção literária de Borges, escritos por mais de 60 colaboradores – entre eles, nomes ilustres como Beatriz Sarlo e Ricardo Piglia. Sobre o trabalho, Schwarz respondeu as seguintes questões.

É possível dizer (como ele mesmo repetiu inúmeras vezes) que Borges era melhor leitor que escritor?

Temos de diferenciar aquilo que ele Borges lia daquilo que nós lemos. Ou seja, sim, pode ser que a fruição da leitura em Borges, como ele sempre afirmara, fosse maior que a da escrita. Mas pode ser que seja mais uma boutade. Em todo caso, para um sistema em que a literatura se alimenta da literatura (isto já começa com Dom Quixote), não teria sido possível produzir o que ele criou sem as suas leituras. Ler Borges é ler também uma infinidade de autores e referências, que o Borges Babilônico tenta cobrir, mesmo que seja parcialmente. Daí, estamos compartilhando, pela leitura, este mundo literário por excelência. 

O tango era um gênero que o fascinava, especialmente por ser a porta de entrada da Buenos Aires dos bairros pobres e violentos. Mas Borges via com descrédito Carlos Gardel. Seria por isso que não há um verbete para esse famoso cantor?

Gardel está mencionado em verbetes importantes, como “tango” e sobre o poeta “Contursi, Pascoal”. Os verbetes escolhidos no Borges Babilônico partem do corpus vocabular das Obras Completas em Quatro Volumes, em que o nome de Gardel não é mencionado uma única vez. Daí a exclusão. De qualquer maneira, a pergunta me leva aos dois excelentes verbetes mencionadosno início desta resposta, elaborados em profundidade pelo Prof. Julio Schvartzman. (Como curiosidade deste glossário sobre Borges, o verbete “tango”, está precedido pelos verbetes “Tácito” e “Tacuarembó”, e seguido pelos verbetes “Tárik, filho de Zaid”, “Tebas”, “Tebas Hecatômpilos”). Sim, o tango fascinava Borges, mas era aquele que estava no âmago de sua criação nas margens e nos arrabaldes do final de século 19. Um fenômeno inicialmente rural, em que era dançado por homens também na rua. O imaginário do tango evolui para as regiões urbanas e do centro da cidade de Buenos Aires, que é quando Gardel o converte em um elemento clássico da identidade da Argentina. Borges sempre teve o tango presente, mas não assim a figura de Gardel. Cabe lembrar que o tango foi também moda em Paris, em que alguns argentinos inclusive o ensinavam a dançar. 

O amor ocupou tanto lugar em sua vida, mas ocupa pouco em sua obra. Seria isso que explicaria as poucas referências ao amor nos verbetes?

Uma pergunta delicada. Sim, Borges viveu enamorado durante praticamente toda a sua existência. A última paixão, sua viúva María Kodama, e que merece um verbete no dicionário. A pergunta é pertinente. O único conto em que o amor entre um homem e uma mulher se realiza é Ulrica (O Livro de Areia). O contrário é a visão nunca positiva a respeito das mulheres. Beatriz Viterbo (ver verbete), em El Aleph (O Aleph), é o estereótipo de la belle dame sans merci, e Emma Zunz são heroínas negativas em que o amor não se realiza. No conto A Intrusa (O Informe de Brodie), o amor de dois irmãos pela heroína os leva ao seu sacrifício. Quando digo que sua pergunta é delicada, é algo de caráter pessoal e íntimo, relatado de forma metafórica em A Seita da Fênix (Ficções). Neste conto, a personagem central, que poderia ser Borges, parece ter sido excluído dos rituais atribuídos à reprodução da espécie. Uma das frases mais memoráveis encontra-se no conto Tlön Uqbar Orbis Tertius (Ficções): “os espelhos e a cópula são abomináveis porque multiplicam o número dos homens”. 

Por causa do problema de visão, é possível dizer que, para Borges, o que realmente importava eram as sensações?

Mais do que as sensações, fundamental para qualquer escritor, acho que o mais importante em Borges era a prodigiosa memória: das diversas literaturas, das múltiplas histórias, de alguns registros vivenciados. Essa memória foi motivo de paródia, no conhecido conto Funes, o Memorioso (Ficções), que de tudo lembrava. Sem filtros, os fatos relevantes se nivelam “por baixo”, com os detalhes irrisórios. Se Ireneo Funes é dotado de memória perfeita, por sua vez ele é desprovido da capacidade de raciocínio e condenado ao não esquecimento. Não poderia haver maior ironia nem punição. 

O escritor Tomás Eloy Martínez dizia: “Borges é a Argentina da irrealidade”. O senhor concorda?

Sua pergunta me leva, inevitavelmente, a um dos primeiros grandes clássicos sobre Borges, da Profa. Ana María Barrenechea: La Expresión de la Irrealidad en la Obra de Jorge Luis Borges (1957). Nele, há cinco temas dessa irrealidade: 1) O infinito, 2) O caos e o cosmos, 3) O panteísmo e a personalidade, 4) O tempo e a eternidade e 5) O idealismo e outras formas da irrealidade. Pelos títulos dos temas, percebemos que tudo no universo pode ser visto e definido como uma “irrealidade”. Quanto a Tomás Eloy Martínez, famoso pelos romances sobre Juan Domingo Perón e Evita Perón, pela forma que ele faz a afirmação, poderíamos dizer que ele é a Argentina da realidade? Veja, se a história serviu para Borges como material de ficção (sobre o peronismo, é só ler La Fiesta del Monstruo), por mais “real” que seja essa “realidade” (desculpe a formulação), Eloy Martínez também a ficcionaliza em romances formidáveis, que entram na categoria da ficção histórica. Isto nunca foi um gênero que Borges procurou, além do que nunca escreveu um romance! Mas em última instância, a literatura de Eloy Martínez não é menos irreal do que as ficções de Borges. 

O senhor acredita que Borges tinha consciência da frágil e cambiante identidade da Argentina, graças à sua consciência lúcida e irônica?

Sem dúvida, Borges sempre esteve atento às mudanças políticas na Argentina, e em alguns momentos foi vítima, como durante o peronismo, que o destituiu do cargo de bibliotecário para nomeá-lo inspetor de aves de galinheiro no mercado! O excelente verbete “política”, do Prof. Nicolas Shumway, revela todas as oscilações de Borges com relação aos diferentes regimes. Permito-me aproveitar uma citação: “As ditaduras fomentam a opressão, as ditaduras fomentam o servilismo, as ditaduras fomentam a crueldade; mas admirável é o fato de que fomentem a idiotice”. Ele sempre se considerou conservador, e fez declarações infelizes, do ponto de vista político, depois retificadas, mas que em nada contaminaram a sua obra. Borges nunca foi um escritor que fizesse da escrita um instrumento ideológico de denúncia. Em alguns episódios chega a ser hilário, quando no poema Juan López e John Ward, sobre a Guerra das Malvinas, ele a iguala a uma briga entre dois calvos por um pente. Para mim fica claro que a literatura de Borges, no que diz respeito à política, sai incólume, não contaminada. 

Em Borges, a essência e o significado do tempo e a materialidade do mundo objetivo são especulações que desde cedo dominaram seus contos, poemas e ensaios. Como ele enfrentava essa angústia do tempo?

Essa pergunta entra em um dos temas mais caros a Borges, o tempo e sua subjetividade assim como o da própria relatividade. Dois verbetes se tornam obrigatórios no Borges Babilônico: “tempo”, de Hernán Nemi, e “matemáticas”, de Inés Azar. O que posso afirmar é que Borges esteve muito antenado com diversas teorias das matemáticas, e também com a Teoria da Relatividade de Einstein. Se o tempo foi um fator de angústia, Borges provavelmente o resolvia por meio da literatura (em última instância, qual o escritor que não tenta resolver suas angústias por meio da escrita?). Heráclito é um dos primeiros filósofos que aparecem em sua poética, e no belo poema sobre o filósofo grego, ele cita que “Ninguém desce duas vezes às águas / Do mesmo rio” (Heráclito, A Moeda de Ferro). A revelação da angústia pela consciência do tempo nas ficções borgianas se resolve com intrigas em que todos os tempos são possíveis: o linear, o do eterno retorno e tempos diferentes convivendo na simultaneidade, inclusive o tempo subjetivo do sujeito, como se dá no magnífico conto fantástico O Milagre Secreto (Ficções). Nesse sentido, não há nenhuma predileção por um sistema temporal, mas pode ser que a irreversibilidade do tempo “real” em Jorge Luis Borges fosse um fator de angústia, como o é para todo ser humano. O tema da morte é sempre um tema intrinsicamente vinculado à passagem do tempo. 

A loucura, que é recorrente nas obras de Borges, seria uma resposta ao inexplicável?

Não percebo loucura em nenhuma das personagens de Borges, nos moldes em que ela se instala nos romances franceses ou russos do século 19 (uma Ema Bovary ou Raskolnikov, por exemplo), apropriados para o gênero realista da literatura. A linguagem do fantástico também entra num código de explicação do inexplicável, impedindo a categorização pelo viés da loucura. Agora, Michel Foucault, autor de História da Loucura, fica fascinado pela linguagem borgiana e pela forma de organizar o mundo, acentuando a arbitrariedade e o caráter conjectural do universo. Foucault abre As Palavras e as Coisas com a hilária enumeração da enciclopédia chinesa intitulada Empório Celestial de Conhecimentos Benévolos (que também está em O Idioma Analítico de John Wilkins, Outras Inquisições), em que os animais se dividem em:

a)    pertencentes ao Imperador

b)    embalsamados

c)    amestrados

d)    leitões

e)    sereias

f)    fabulosos

g)    cachorros soltos

h)    os que estão incluídos nesta classificação

i)    os que se agitam feito loucos

j)    inumeráveis

k)    desenhados com um pincel finíssimo de pêlo de camelo

l)    et cetera

m)    os que acabam de quebrar o jarrão

n)    os que de longe parecem moscas

O fato de Borges trabalhar no limite do racional não vincula a linguagem à loucura. O disparatado exemplo da subversão da linguagem ou dos códigos realistas não contamina nunca a psique das personagens. No máximo, pode torná-las inverossímeis. 

Há muitos verbetes sobre escritores, alguns ocupando mais ou menos espaço. A partir dessa forma de mensurar o interesse, é possível dizer que Dante era o autor que mais lhe interessava?

No Borges Babilônico há dois extensos verbetes, que não poderiam estar ausentes: Alighieri, Dante e Literatura Italiana. Este último abre com a curiosa afirmação de que “entre as literaturas ocidentais, a italiana foi a menos frequentada integralmente por Borges”. A exceção, obviamente, é a leitura contínua da Divina Comédia de Dante. Assim como Borges dizia ter lido Dom Quixote primeiro em inglês e Folhas de Relva de Walt Whitman primeiro em alemão, também causa curiosidade o fato de ele afirmar ter lido a Divina Comédia em traduções inglesas, para mais tarde passar à leitura original da obra de Dante. Borges foi um ávido leitor dos clássicos de praticamente todas as literaturas ocidentais, mas também foram seus favoritos autores menos consagrados como G. K. Chesterton ou Robert Louis Stevenson, uma forma de alterar o cânone das assim denominadas altas literaturas, colocando também em questão a nomenclatura do que seja um “clássico” na literatura. O mesmo se deu com a literatura argentina, quando seu primeiro livro de ensaios sobre um autor argentino não foi o consagrado Martín Fierro, de José Hernández, mas Evaristo Carriego, causando certa surpresa pela recuperação do pouco conhecido poeta. Nove ensaios dantescos e vários outros artigos esparsos sobre Dante são uma prova cabal de seu entusiasmo pelo clássico italiano. Mas nada do que possa afirmar aqui cobre a excelência e erudição desses dois verbetes de Martín Greco e Claudia Fernández.

Borges Babilônico

Organização: Jorge Schwartz

Editora: Companhia das Letras

576 páginas

R$ 109,90

Martin Fierro, Para as Seis Cordas & Evaristo Carriego

Autor: Jorge Luis Borges

Tradução: Heloisa Jahn

Editora: Companhia das Letras

272 páginas

R$ 49,90 

Mais conteúdo sobre:
Borges Literatura

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