Leve-me a seu líder! Um estrangeiro que queira falar com o chefe da oposição no País terá dificuldade

RENATO LESSA

RENATO LESSA, PROFESSOR TITULAR DE TEORIA POLÍTICA DA UFF, É INVESTIGADOR ASSOCIADO DO INSTITUTO DE CIÊNCIAS SOCIAIS DA , UNIVERSIDADE DE LISBOA, PRESIDENTE DO , INSTITUTO CIÊNCIA HOJE , O Estado de S.Paulo

13 de janeiro de 2013 | 02h08

Finda a amarga experiência do segundo turno nas eleições paulistanas, do ano passado, as hostes tucanas foram contempladas com a hipótese de fazer de José Serra, ainda não refeito das dores e das marcas do pugilato eleitoral, presidente nacional do PSDB. Além do espantoso tirocínio que consistiria fazer do mais notável dos derrotados da sigla seu dirigente maior, a hipótese ostentava algo que poderia ser designado pela expressão "perversidade compensatória", ou "compensação perversa". Nada como o ânimo dos derrotados para dar força e vertebração a um partido que vem perdendo capacidade de vocalização e direção política dos que se opõem - ou não se entusiasmam - com os hábitos e as artes do governo federal.

(Claro está que a hipótese não era para valer e consistiu mais em um curioso gesto de desagravo, em cuja composição não estavam ausentes motivações de agravo, para dizê-lo de modo contido.)

Vida que segue, alguns meses mais tarde, na abertura de 2013, o PSDB volta a pôr em pauta o tema da presidência da sigla, a ser renovada depois da temporada de cumprimento de tabela exercida pelo senador Sérgio Guerra, um dos mais importantes quadros tucanos (sem ironia). Desta feita, ao que parece, pretende-se tratar do assunto à vera, sem perversões ou compensações de derrotas heroicas. Ao contrário, trata-se de entronizar um vitorioso contumaz, ao menos nos limites do Estado no qual detém domicílio eleitoral: falo, é evidente e pela ordem, de Aécio Neves e de Minas Gerais. É bem verdade que Aécio Neves só concorreu a barbadas mineiras e não teve diante de si a oportunidade de colecionar derrotas em eleições críticas.

De qualquer modo, a hipótese Aécio Neves parece fazer mais sentido, na perspectiva de tornar a sigla algo mais do que tem sido nas três últimas eleições presidenciais. Enquanto isso, José Serra pode usufruir do único elogio que seus companheiros parecem ser capazes de a ele dirigir: "Não acreditamos que possa sair do PSDB; Serra é PSDB", e coisa e tal. Com relação a Serra, a perversão talvez não pare por aí, pois há quem sustente sua exportação para o Rio de Janeiro, terra, como se sabe, na qual os tucanos arriscam-se à extinção.

Há, é evidente, comicidade na coisa, mas há, ao mesmo tempo, imensa gravidade. Pode uma democracia subsistir sem oposição? Ou melhor, qual a qualidade de uma democracia na qual a oposição de fato é exercida por parte de operadores inseridos na própria coalizão governante, por meio da chantagem e da guerrilha parlamentar? Posta a questão de, digamos, metafísica política, é o caso de dizer: o cargo de líder da oposição no Brasil está vago. O PSDB como maior partido de oposição - segundo critérios ortodoxos (se adotarmos os heterodoxos a palma cabe ao PMDB) - deve ao País não apenas a definição e a ostensão de quem o lidera, mas - o que é mais decisivo - a apresentação de sua versão de país. A série de três derrotas sucessivas, por paradoxal que possa parecer, abrigou a expressão eleitoral do que poderia ser descrito como uma minoria numericamente forte, hoje deserdada e sem direção política.

Um prócer internacional que vier ao Brasil e buscar uma conversa com o "líder da oposição" terá dificuldades em preencher a expectativa. Correrá o risco de acabar no gabinete do deputado Eduardo Cunha, esteio das virtudes republicanas nacionais. Como disse, o cargo oficial está vago e, mais do que isso, desconhece-se a versão alternativa de país a ser apresentada por tal sujeito vazio, ou não existente.

Trata-se, pois, de inventar um líder e de, como candidamente disse o senador Sérgio Guerra, definir um "discurso". Ressalvada a seriedade das preocupações de Sérgio Guerra, a meta da definição de um "discurso" soa demasiadamente "cortoplacista" e colada no ciclo eleitoral. O olho na urna é inevitável, pois trata-se de alinhar para a corrida de 2014, mas parece haver lacunas mais graves no campo tucano do que a "falta de discurso".

A aposta errada nas virtudes corrosivas do desastre do mensalão, que seria capaz de produzir estragos por seus efeitos naturais, sem a necessária suplementação de uma estratégia de política positiva, associada ao pudor em fazer a defesa da parte que cabe ao PSDB no processo de constituição do Brasil contemporâneo, reduziram o partido à expressão de atos individuais de política moralista e vestal. Muito pouco para a complexidade do País. Mais do que afinar discurso, o que se exige é a composição da própria partitura, ou seja, a apresentação aos cidadãos brasileiros de uma versão alternativa de país, distinta da que está em curso. Isso, se a política e o País forem minimamente levados a sério. Se não, como de hábito, encomende-se um discurso a algum profissional do ramo, faça-se de um esperto apresentador de TV candidato tucano a governador do Rio de Janeiro e, em caso de vitória nacional tucana em 2014, chame-se o PMDB para compor o governo. Se for esse o pacote, não faltará quem diga: melhor deixar como está.

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