Lições do rei Canuto a Obama

Soberano do séc. 11 não prometia o que não podia cumprir. Mas na época não havia eleições

Timothy Garton Ash*, O Estado de S.Paulo

01 de setembro de 2008 | 00h16

Quando as gloriosas ondas da retórica de Barack Obama rolarem sobre nós, deixando-nos com uma confortável sensação de formigamento e frescor, como um surfista havaiano, devemos nos lembrar do rei Canuto. No dia em que Obama finalmente venceu as primárias, no início de junho, ele declarou que "daqui a gerações, poderemos olhar para trás" (aqueles dentre nós sortudos o bastante para estarem vivos) e contar a nossos filhos (que provavelmente estarão apoiados nos seus andadores) que "este foi o momento em que a elevação do nível dos oceanos começou a desacelerar e o nosso planeta começou a se regenerar". Isso estabeleceu um novo recorde olímpico na modalidade hipérbole. Em contraste, o rei Canuto, do século 11, pediu que seu trono fosse colocado na praia e ordenou ao oceano que detivesse a maré. Acabou com os pés molhados. Segundo a lenda, ele fez isso precisamente para mostrar aos adeptos os limites de seu poder. O detalhe é que Canuto não estava disputando a presidência.Nas próximas dez semanas Obama deve dizer tudo o que for necessário para lhe garantir a eleição, ao mesmo tempo sem fazer promessas que o futuro possa derrubar. Nisso ele é brilhante: um gênio da inspiração inespecífica. No pós-eleição, Canuto será necessário. Suspeito que Obama saiba disso, se não no coração, ao menos no intelecto. Seus livros e documentos minuciosos de propostas mostram uma detalhada compreensão da complexidade do mundo atual. Podemos acreditar que ele não cometerá o erro de confundir a própria retórica com a realidade, nem nós devemos confundir as duas coisas.Celebrando o messias democrata como um "pragmático de visão clara" (caracterização pouco comum em se tratando de messias), seu recém-descoberto candidato a vice-presidente, Joe Biden, diz que um Obama presidente terá a chance de "transformar não apenas a América, mas o mundo todo". O mais surpreendente é que que boa parte do mundo espera dele exatamente isso. Mas a verdade é uma só. Com uma boa ajuda da sorte, e um comparecimento maciço de voluntários e jovens eleitores, Obama pode ser eleito presidente, superando os obstáculos eleitorais de ser negro, inexperiente, liberal (no peculiar sentido americano contemporâneo do termo) e intelectual. Ao ser simplesmente eleito, e sendo quem é, ele mudaria tanto a América quanto a imagem que o mundo tem da América. Mudar o mundo já é outro problema.O sentimentalismo é um dos principais ingredientes da política americana, e não há festival de sentimentalismo mais amanteigado que uma convenção democrata. Mas o que a mulher de Obama, Michelle, disse na noite de segunda-feira, num discurso bastante sentimental, contém um comovente elemento de verdade. O fato de que "uma garota da zona sul de Chicago e o filho de uma mãe solteira do Havaí" pudessem chegar tão longe representa tudo o que os Estados Unidos oferecem de bom e de esperança. Depois de West Side Story, um mundo carregado de cultura popular americana a "South Side Story" .Na verdade, são duas histórias: a dele e a dela, agora misturadas na história de suas filhas, Malia e Sasha. Quando os americanos dizem "raça," eles querem dizer mais do que os europeus entendem pelo termo. "Raça" significa o legado de gerações de escravidão e de uma segregação chocantemente recente. Obama aceitou a indicação à candidatura na noite de quinta-feira, 28 de agosto, no 45.º aniversário do discurso em que Martin Luther King disse "Eu tenho um sonho". Há apenas 45 anos a igualdade básica entre os americanos era apenas um sonho. Assim, a história inicial é como descendentes de escravos podem vir a ocupar a Casa Branca. Depois de Colin Powell e Condoleezza Rice no Departamento de Estado, essa é a fronteira final. A segunda história é a do próprio Obama, filho de um pai queniano inconstante e de uma mãe americana branca, com laços familiares em diversas culturas, um filho de nosso mundo cada vez mais miscigenado agora na expectativa de se tornar seu homem mais poderoso.O mais poderoso - mas ainda assim menos poderoso, em termos relativos, que a maioria de seus predecessores desde 1945. Pois isso também define o momento de Obama: o fato de que o poder relativo do presidente dos EUA diminuiu, está diminuindo e continuará a diminuir. Basta considerarmos aquilo que vem acontecendo fora da bolha da eleição americana. Na Geórgia, a Rússia provocou Washington e rasgou os termos do acordo firmado após a Guerra Fria. No Afeganistão e no Paquistão, os extremistas islâmicos estão ficando mais fortes, não mais fracos, enquanto pagamos o preço da interminável busca de George Bush no Iraque.Na Olimpíada de Pequim, a China exibiu espetacularmente seu ressurgimento pacífico como potência mundial. Aquela massa de acrobatas, percussionistas e dançarinos, sobrepujando Hollywood em seu próprio campo - o espetáculo - no estádio Ninho do Pássaro, mandou uma mensagem mais poderosa que qualquer tanque russo. O mundo está captando a mensagem. Mesmo antes da demonstração olímpica, o Pew Global Attitudes Project divulgou os notáveis resultados de uma pesquisa de opinião realizada em 24 países na qual foi perguntado se a China viria a substituir ou já teria substituído os EUA como a maior superpotência. Poucos responderam que a substituição já ocorrera, mas cerca de metade dos franceses, alemães, ingleses, espanhóis e australianos - para não falar nos próprios chineses - disseram que ela ocorrerá. Ainda mais impactante: um terço dos americanos pensa o mesmo. E em assuntos internacionais, assim como nos mercados financeiros, a percepção é uma grande parte da realidade.Enquanto isso, as negociações comerciais mundiais entraram em colapso, pois os países desenvolvidos e em desenvolvimento não puderam chegar a um acordo. Estamos bem longe de atingir as "metas de desenvolvimento do milênio" da Organização das Nações Unidas para ajudar os pobres e os doentes do mundo. As medidas necessárias para reduzir as emissões de carbono - sobretudo nas economias asiáticas de crescimento acelerado - não estão sendo tomadas. As calotas polares seguem derretendo. Nada próximo do que é preciso está sendo feito para reduzir a velocidade com que o nível dos oceanos sobe. Não está claro quanto uma mudança na política americana, mesmo que radical, poderia mudar isso agora. Michelle Obama falou com eloqüência sobre o desejo do marido de mudar "o mundo como ele é" para "o mundo como ele deveria ser." Mas a capacidade de Washington de fazê-lo é muito menor do que já foi na década de 1940, ou mesmo na de 1990, quando Bill Clinton teve a sorte de caminhar lado a lado com a história.A força doméstica dos EUA também já não é mais aquilo que foi. Na atual crise de crédito do turbocapitalismo, bancos tradicionais americanos procuram fundos soberanos do Oriente Médio e Extremo Oriente em busca de ajuda. O Oriente resgata o Ocidente. O mercado imobiliário americano oscila no limite do colapso. É difícil achar emprego. Americanos de classe média saem do plano de saúde e caem na pobreza. Enquanto centenas de bilhões de dólares foram desperdiçados no Iraque e em equipamentos dignos do Exterminador do Futuro IV para a força militar mais poderosa jamais vista no mundo, qualquer um que passe pouco tempo nos EUA percebe como a infra-estrutura civil está ruindo. Esse não é mais um país capaz de "pagar qualquer preço, suportar qualquer fardo" - para lembrar a impressionante retórica com a qual o irmão mais velho do convalescente senador Edward Kennedy certa vez encantou o mundo.Os EUA ainda contam com forças extraordinárias. Entre as maiores está a habilidade de atrair os mais brilhantes, mais energéticos e empreendedores homens e mulheres de todo o mundo e dar-lhes liberdade e oportunidade de usarem seus talentos ao máximo. Pessoas como Barack Obama. Como homem, Obama personifica a força contínua dos Estados Unidos. Como presidente, ele terá de enfrentar a crescente fraqueza do país. *Timothy Garton Ash é professor de estudos europeus na Universidade Oxford, bolsista-sênior da Hoover Institution da Universidade Stanford e autor, entre outros, de Free World (Penguin UK) SEXTA, 29 DE AGOSTOSarah é trunfo de McCainO candidato republicano surpreende na escolha do vice: anunciou a governadora do Alasca, Sarah Palin, para compor sua chapa. A indicação é considerada estratégica, porém arriscada. O republicano pretende ganhar o voto feminino com uma novata na política.

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