Limites do talento ilimitado

E se a Copa da África do Sul tiver marcado o fim de uma era, o ocaso do predomínio absoluto do Brasil no futebol?

Hans Ulrich Gumbrecht

14 de agosto de 2010 | 16h00

Alívio aparente. Depois do fracasso no Mundial, a seleção brasileira volta ao protagonismo. Volta?

 

 

Escrevo na Califórnia, na manhã seguinte à vitória da seleção brasileira contra os Estados Unidos por 2 a 0, com gols de Neymar e Pato. Nos Estados Unidos é difícil encontrar notícias sobre o jogo, não porque "nosso" time tenha perdido, mas porque aqui ninguém liga para o futebol depois da Copa do Mundo. Por outro lado, a imprensa brasileira está radiante e sorri aliviada. Depois das semanas decepcionantes na África do Sul, agora seu mundo voltou ao normal: o Brasil venceu sem nenhum esforço um adversário oficialmente respeitável, com um número considerável de jogadores desconhecidos internacionalmente que parecem confirmar a profunda convicção de que, no Brasil, o talento para o futebol é inesgotável.

 

Mas, e se o mundo do futebol não tiver voltado ao normal? E se a África do Sul foi o fim de uma era, o fim do predomínio absoluto do Brasil no futebol? O que isso poderia significar exatamente? Poderia significar que, desde o primeiro triunfo do Brasil em Copas do Mundo, na Suécia, em 1958, até este ano, o Brasil não só foi uma nação de grande destaque nesse esporte, abençoada por talentos ilimitados e particularmente por um belo estilo de jogo, como já havia sido de fato antes de 1958 (basta pensar no lendário atacante Friedenreich ou no entusiasmo de Gilberto Freire pelo estilo afro-brasileiro que a seleção exibiu em 1938); poderá significar que o Brasil não só ganhou cinco Copas, façanha não igualada por nenhum outro país, mas que, depois de meio século de predomínio brasileiro no futebol durante o qual sempre era um choque quando o Brasil não ganhava uma Copa, exigindo explicações específicas, esse predomínio pode ter chegado ao fim.

 

Todo mundo "sabe" que a seleção potencialmente excepcional de 2006 foi contaminada pelo espírito comercial da Nike e da Coca-Cola (não esquecemos das fotos de Ronaldinho estranhamento paralisado rodando para frente e para trás a faixa da Nike); os mais velhos entre nós lembram ainda de certos "episódios" na vida privada do outro Ronaldo, então conhecido como autor de muitos e muitos gols, aos quais foi atribuído o fato de ele não estar em forma para a final de 1998 e o Brasil acabar perdendo no jogo contra a França por 3 gols a zero. Dezenas de jogadores, técnicos e funcionários foram apontados como os culpados pelas Copas depois de 1958 e 1962, em que o Brasil não ganhou. Essas desculpas eram necessárias para a nação e foram aceitas internacionalmente porque, durante aquele glorioso meio século, a expectativa permanente era que o Brasil seria incontestavelmente o maior país do futebol (às vezes, não sempre, independentemente da verdadeira qualidade dos jogadores brasileiros). E parecia fato consagrado que o Brasil só poderia ser derrotado por alguma conspiração externa ou interna.

 

E se as coisas tiverem mudado recentemente? A seleção teve um desempenho respeitável na África do Sul e depois perdeu para o time alemão, que dominou o Brasil no segundo tempo sem entretanto ser uma equipe realmente fabulosa. Nada de conspiração, nada de escândalo, apesar do sacrifício, de certo modo ritual, do Dunga e de alguns dos seus jogadores depois da Copa. Continuando nossa reflexão sobre o possível final do meio século de futebol brasileiro, quais poderiam ser as razões do declínio de seu nível, antes praticamente imbatível, para apenas muito bom? É preciso levar em consideração o fato de que, nas duas últimas décadas, o futebol internacional atingiu níveis de qualidade atlética abaixo dos quais nenhum time tem condições, contrariamente ao que acontecia no passado, de cultivar um estilo específico. Hoje, os jogadores de todas as posições precisam simplesmente funcionar - e em tais condições extremas de eficiência, como sabemos pela estética funcionalista da década de 20, as variedades de forma e estilo começam a desaparecer. Toda forma deve tornar-se aerodinâmica, por assim dizer.

 

O Brasil se adequou bem a esse desafio produzindo, pela primeira vez na história, jogadores da defesa e até mesmo goleiros de grande destaque. Mas, para dizer o mínimo, é cada vez menos provável que meio-campistas e alas brasileiros dominarão o mundo como antes. Kaká, Robinho e Luis Fabiano não podem ser comparados a Messi e a Ronaldo como os jogadores mais alardeados antes da Copa, nem atingiram o nível de Forlán, Villa, Robben ou Thomas Mueller em termos de um desempenho concreto. Desta vez, os atacantes brasileiros não sofreram nenhuma crise, como Ronaldo em 1998 e Ronaldinho em 2006. Eles jogaram razoavelmente bem - mas não o suficiente para vencer a Holanda.

 

Outro motivo, mais especulativo, do declínio desses talentos pensados imbatíveis para apenas bons pode ser sociológico. Durante a breve década de governo social-democrático, o Brasil se tornou um ambiente menos agressivo para os pobres. Uma infância e uma adolescência como a de Mané Garrincha - felizmente - tornaram-se muito menos prováveis. Por outro lado, as precárias condições de vida das populações de migrantes nas periferias de algumas áreas urbanas da Europa se expandiram, e esse fato se torna evidente nos rostos de muitos jogadores que representam a Inglaterra, a França, a Holanda ou a Alemanha de hoje. Considerando tudo isso, poderá haver a promessa um tanto transcendental para a riqueza de talentos no futebol brasileiro se manter eternamente ilimitada - e para a de outras grandes nações nesse esporte se esgotar?

 

Muitas coisas poderão melhorar no futebol brasileiro. Por razões econômicas óbvias, muitos jogadores farão carreira em seu próprio país; terão assessores mais competentes e sua equipe médica terá os mesmos recursos das principais instituições do país. Todas essas mudanças permitirão que a seleção continue sendo um dos grandes times nacionais do mundo. E no entanto, a era da "invencibilidade, salvo por uma traição" talvez tenha acabado. Mais que o fim de uma época de predomínio absoluto, talvez esse seja o fim de uma ingênua mitologia nacional.

 

Porque duas coisas são certas. Nada, a não ser um preparo meticuloso para alcançar um futebol de alta qualidade, permitirá ao Brasil conquistar a sexta taça no mundial de 2014; e quanto menos Mano Menezes e seus jovens jogadores absorverem esses mitos nacionais e internacionais do futebol brasileiro, mais se aproximarão do nível necessário. E se eles trabalharem com esse objetivo, esse também será o fim de uma era.

 

*Tradução de Anna Capovilla

 

* Hans Ulrich Gumbrecht é professor de literatura na Universidade Stanford e autor de 'Elogio da Beleza Atlética' (Companhia das Letras)

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