Língua do 'p' de pólvora

A crítica à violência policial é tema constante dos rappers brasileiros, num confronto que só acabará quando o rap ou o Brasil mudarem

Walter Garcia, O Estado de S.Paulo

20 de maio de 2012 | 03h08

WALTER GARCIA

Festival Palco Hip Hop, Belo Horizonte, 13 de maio de 2012. Emicida entra para cantar Dedo na Ferida. Lançado em março na internet, o clipe desse rap começa com uma dedicatória: "Às vítimas do Moinho, Pinheirinho, Cracolândia, Rio dos Macacos, Alcântara e todas as quebradas devastadas pela ganância". Mas a fala é substituída no festival, como se ouve no registro no site do rapper: "Antes de mais nada, somos todos Eliana Silva, certo? Levanta o seu dedo do meio para a polícia que desocupa as famílias mais humildes. Levanta o seu dedo do meio pros políticos que não respeitam a população, e vem com nós nessa aqui. Mandando todos eles se f..., certo, BH? A rua é nós".

Terminado o show, policiais militares prendem Emicida por desacato. Segundo o boletim de ocorrência, reproduzido no site do rapper, a fala teria sido outra: "Eu apoio a invasão do terreno 'Eliana Silva', região do Barreiro, tem que invadir mesmo, levantem o dedo do meio para cima, direcione aos policiais, pois todos esses têm que se f...".

Não tenho conhecimento para discutir se a conduta de Emicida se enquadra no crime de desacato. Nem para abordar a diferença entre as duas versões. Apenas sei que a crítica à violência policial é tema constante no rap brasileiro pelo menos desde Hip-Hop Cultura de Rua, lançado em 1988.

Uma das faixas do LP era Homens da Lei, de Thaíde e DJ Hum: "Oh, meu Deus, quando vão notar / Que dar segurança não é apavorar? / Agora não posso mais sair na boa / Porque ela me para e me prende à toa". E o rap ia além da queixa. Em outra estrofe, o sujeito ironizava a lição do desmando: "Se eles são os tais, eu quero ser também / Ser mal-educado e não respeitar ninguém / Bater em qualquer jovem sem motivo nenhum / Andar em liberdade e sem drama algum".

Mas é fácil perceber que o conselho para os jovens da periferia não era a valentia desmedida. Para "os seus", o rapper Thaíde indicava a alternativa de armar-se do pensamento. E a organização do raciocínio era realçada pela estrutura sonora dos versos. Sem limitar-se às rimas, a sonoridade explorava consoantes, por assim dizer, percussivas (d, t, p, b). Já para "os outros", que não se restringiam aos policiais, o rapper indicava a necessidade de respeito. Ou a necessidade de decidir se a ironia acenava, ou não, com o revide.

A exploração de consoantes percussivas alcançaria grande virtuosismo com Brasil com P, lançado em 2000 no disco CPI da Favela, de Gog: "Pelos palanques políticos prometem, prometem / Pura palhaçada / Proveito próprio / Praias, programas, piscinas, palmas! / Pra periferia? / Pânico, pólvora, pá, pá, pá / Primeira página". Com o mesmo recurso, Gog ainda compôs Próxima Parte e Ponto Phinal. Ao todo, somou o jornalista Luiz Maklouf Carvalho, 542 palavras com "p".

O rap é uma das formas de canção que faz a crônica das grandes cidades. E não é a única, como se sabe. Há também o samba. E O Orvalho Vem Caindo, de Noel Rosa e Kid Pepe, gravado por Almirante para o carnaval de 1934, já cantava: "Meu cortinado é o vasto céu anil / E o meu despertador é o guarda-civil / Que o salário ainda não viu, ih!".

Em 1997, o Racionais MC's lançou Diário de um Detento, de Mano Brown e Jocenir, no disco Sobrevivendo no Inferno. Até o momento, trata-se do rap brasileiro de maior repercussão. O mesmo se pode dizer do CD, que está entre os melhores discos de canção popular do Brasil. Em meio a versos que descrevem a Casa de Detenção do Carandiru na véspera do dia 2 de outubro de 1992, Diário de um Detento adensa a ironia de Noel Rosa: "Na muralha, em pé / Mais um cidadão josé / Servindo o Estado, um PM bom / Passa fome metido a Charles Bronson".

Ao final, narram-se as ações do choque no Pavilhão Nove. Após entoar que "Quem mata mais ladrão ganha medalha de prêmio", Mano Brown canta dois versos que transformam a matéria-prima irracional em uma imagem poética perfeita: "O ser humano é descartável no Brasil / Como modess usado ou bombril". A sonoridade é exemplar por mais de um fator. E o jeito de máxima ajuda a extrair da experiência terrível uma sabedoria. É verdade que a substância dos versos é quase inimaginável. Mas as linhas principais do que há para se apreender estão configuradas na imagem.

Produtos baratos de higiene e de limpeza, consumidos por todas as classes com algum poder de compra. Depois, jogados no lixo, com sangue, no primeiro caso. O preconceito atribuiu ao segundo a utilidade de ser comparado a cabelo de negro. Os nomes das marcas substituem a designação dos produtos como na linguagem coloquial. Mercadorias reles que, na circulação simbólica, anunciam a eficácia do capitalismo.

Para além da coreografia divertida para um público juvenil, Dedo na Ferida leva adiante a crítica: "É só um pensamento, bote no orçamento / Nosso sofrimento, mortes e lamentos". Quando não houver mais confrontos, ou será o rap ou será o Brasil que realmente terá mudado. 

WALTER GARCIA É MÚSICO, PROFESSOR DO INSTITUTO DE ESTUDOS BRASILEIROS DA USP, AUTOR DO LIVRO BIM BOM: A CONTRADIÇÃO SEM CONFLITOS DE JOÃO GILBERTO (PAZ, TERRA)

 

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