ARQUIVO PESSOAL DE DAVID ADGER
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Linguista britânico diz que a linguagem tem poder ilimitado

No livro 'Language Unlimited', David Adger exalta o seu caráter infinitoe afirma que ela é diferente da comunicação entre os animais irracioonais

The Economist, O Estado de S. Paulo

14 de setembro de 2019 | 16h00

No filme Vingadores: Ultimato, um super-herói recebe de uma luva mágica o poder de extinguir o universo com um estalar de dedos. Embora pouca gente se dê conta, pessoas comuns também possuem um poder infinito: a linguagem. Escreva uma nova sentença e pesquise no Google. São muitas as chances de que ela apareça em algum lugar entre as bilhões de sentenças da internet. Steven Pinker, professor de linguística, imagina o número assombroso de “uma centena de milhões de trilhões” para ilustrar quantas sentenças gramaticais de 20 palavras um ser humano pode produzir – mais do que o número de grãos de areia existentes na Terra. Uma sentença pode facilmente virar outra se acrescentarmos no início dela, por exemplo, “ela disse isso...”. Em teoria, a única coisa que pode impedir esse poder literalmente infinito de criar sentenças é o limite da vida do ser humano: algumas sentenças ficariam tão longas que não poderiam ser ditas numa vida média de 70 anos. 

Esse talento espantoso é tema de um novo livro, Language Unlimited, de David Adger, da Universidade Queen Mary e presidente da Associação de Linguistas da Grã-Bretanha. Adger não apenas exalta o caráter infinito da linguagem. Ele afirma que ela é o resultado diferenciado de uma capacidade única e estimula uma série de discussões sobre um tema cujo teórico mais conhecido é Noam Chomsky.

A primeira – e mais forte – afirmação do livro é a de que a linguagem humana é diferente da comunicação animal não apenas no objetivo, mas no método. Um bonobo (macaco parente do chimpanzé) altamente treinado chamado Kanzi podia obedecer a uma ordem equivalente a “dê água a Rose”. Mas Kanzi não teria chances de expressar a frase “dê água e isqueiro a Rose”. Um bebê de dois anos que foi comparado a ele intuiu rapidamente que um substantivo e um adjetivo juntos podem formar uma nova ideia – por exemplo, “livro colorido”, – que por sua vez pode vir a formar uma sentença e por sua vez formar uma sentença ainda maior. Esse recurso de encaixar frases em frases é a chave da sintaxe. 

A segunda afirmação é a de que a linguagem é inata, não apenas uma mera extensão da inteligência humana geral. Evidências fascinantes para comprovar o fato vieram de crianças privadas de linguagem. Alunos surdos de uma escola da Nicarágua, que nunca haviam compartilhado uma linguagem com alguém, criaram a própria linguagem de sinais. E crianças surdas de uma família mexicana chegaram a um rico sistema de sinais com conceitos expressos na língua falada (em tempo: linguagem abrange várias manifestações culturais, como música, dança, pintura e a própria língua). Na “língua doméstica de sinais” dessas crianças, substantivos eram precedidos de um “classificador”, um sinal indicando suas características, como às vezes ocorre em chinês. A conclusão é de que a mente humana simplesmente não funciona sem gramática.

Uma outra afirmação, mais controversa, é a de que toda linguagem humana compartilha o que Chomsky chama de “gramática universal”. Essa proposição tem sofrido algumas duras críticas. Em 2009, dois linguistas publicaram um estudo amplamente citado chamado The Myth of Language Universals. O estudo diz que não está claro nem mesmo se todas as linguagens do mundo observam uma distinção entre substantivo e verbo.

Há muitas coisas sensatas que a linguagem poderia fazer, mas não faz. Notadamente, as gramáticas não fazem uso de “continuidades”, como a extensão das vogais. Por exemplo: um verbo no passado poderia ser pronunciado de modo mais alongado para indicar quão longa foi a ação – o que seria perfeitamente lógico, mas a linguagem não faz isso. A sintaxe usa unidades discretas, não unidades contínuas. 

Por último, Adger adota a mais recente das teorias de Chomsky, “Merge” (fundir), uma função mental na qual duas unidades podem se fundir em uma maior para serem operadas pelo processador gramatical da mente. O bebê de 2 anos que derrotou Kanzi podia fundir “água e isqueiro” e aplicar o verbo a ambos. Já Kanzi tratava palavras como ideias isoladas, sem agrupá-las mentalmente em unidades maiores numa estrutura. Chomsky acredita que um ser humano sozinho desenvolveu a habilidade de usar Merge dezenas de milhares de anos atrás, e que essa seja a única característica exclusiva da linguagem humana. Adger não defende especificamente nenhuma das duas conclusões. 

De qualquer modo, a abordagem de Adger da linguística chomskiana é agradável e acessível – em contraste com a notoriamente complexa prosa do próprio Chomsky. Este livro é uma introdução útil a um controverso debate sobre o poder infinito da finita mente mortal.  

/ Tradução de Roberto Muniz

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