Nick Lowndes/The Economist
Nick Lowndes/The Economist

Linguista propõe nova origem para a linguagem humana

Daniel Everett acredita que o Homo erectus, antecessor do Homo sapiens, já possuía um sistema linguístico como o nosso

The Economist, O Estado de S.Paulo

14 Outubro 2017 | 16h00

A fala não deixa nenhum tipo de fóssil, então paleantropologistas não têm nenhuma evidência direta acerca da emergência da quintessencial característica humana: a linguagem. Muitos estudiosos trabalham nesse tema, no entanto são raras as suas descobertas que adquiriram o status de consenso.

Em pelo menos uma coisa, a maioria concorda: embora animais se comuniquem, apenas os seres humanos têm uma linguagem verdadeira, com o poder de organizar pensamentos complexos em uma sequência de palavras, quase sempre sobre coisas ausentes ou abstratas.  E a maior parte dos estudiosos também reconhecem que o Homo sapiens é a única espécie em toda a história a ter tido tal capacidade. Eles acreditam que a linguagem deve ter surgido em algum ponto entre 200 mil e 50 mil anos atrás. 

Agora, Daniel Everett, da Bentley University de Massachusetts, publicou em How Language Began uma ampla investida contra essa ideia. Ele acredita que o Homo erectus, antecessor do Homo sapiens, tinha algo que poderia ser chamado de linguagem – e não apenas uma proto-fala feita de grunhidos. Isso tornaria a linguagem não algo que tem 200 mil anos de idade, mas 1,9 milhão de anos.

Mais do que cronologia está em questão. Noam Chomsky propôs que um ser humano desenvolveu, por meio de uma mutação genética, uma habilidade chamada “Mescla”, cerca de 50 mil anos atrás. “Mescla” permite duas unidades linguísticas serem transformadas em uma única, como uma frase nominal complexa (a casa e a colina virando “a casa na colina”) ou uma sentença complexa (“Sally ama Lucy” virando parte de “Bill sabe que Sally ama Lucy”). A mente pode mesclar e manipular as novas unidades para fazer outras, ainda mais complexas. Isso, chamado de recursividade, é o que Chomsky chama de faculdade linguística “estritamente definida”. Outros elementos, como avanços no processo de audição, ele acredita, são compartilhados com animais, ou são também utilizados para propósitos não-linguísticos. 

Everett publicou, em 2005, um artigo defendendo que uma tribo amazônica com a qual ele viveu por anos, os Pirahã, não tinham recursividade. Isso levou a imprensa a coroá-lo como o anti-Chomsky:  Chomsky havia passado sua carreira no MIT, focando em teoria. Ele é cáustico e imperioso com oponentes. Everett viveu na selva com sua família e diversas tribos distintas, aprendendo seus idiomas. Ele foi como missionário, apenas para renunciar à sua fé cristã de forma pública posteriormente. Chomsky não é conhecido por admitir equívocos.

Everett alega que a recursividade não é necessária, tampouco suficiente para a linguagem humana. Homo erectus, pensa ele, provavelmente falava algo como “Eu, Tarzan; você, Jane” – mas com isso ele podia fazer bastante coisa. Everett propõe que a linguagem requer uma série de signos de complexidade progressiva. O primeiro é o índice, um signo não arbitrário e não intencional, como uma pegada de casco que deixa claro que um cavalo esteve por perto. Depois, veio o ícone, um signo não arbitrário, porém intencional, como desenhar pegadas de cascos para representar um cavalo. O Homo erectus parecia valorizar rochas que se assemelhavam a coisas como um falo ou uma mulher fértil. Isso indica abstração e “deslocamento”, quando um objeto é feito para representar algo não fisicamente presente.

Everett reconhece, portanto, que ícones se desenvolveram em símbolos – alguns falados, sons arbitrários que, diferente de ícones, haviam perdido qualquer conexão com seus referentes (como “gato” não soa como um gato). Gesto e entonação seriam cruciais para tornar esses símbolos compreensíveis e compartilhados. Enquanto isso, o cérebro e os órgãos de fala evoluíram para lidar com uma dicção mais e mais complexa.

Quando o Homo erectus começou a usar símbolos, um após o outro, em um padrão mais previsível, mas não ainda recursivo, Everett acha que ele poderia estar usando algo considerado linguagem humana. O linguista aponta evidência circunstancial: Homo erectus precisaria construir jangadas e planejar viagens marítimas para alcançar locais como Flores, uma ilha indonésia a 24 km de qualquer outra terra, onde ferramentas dessa era foram encontradas. 

As implicações intelectuais e filosóficas são altas. Se a linguagem é um salto recente para o Homo sapiens, quer dizer que toda a linguagem humana é fundamentalmente similar, sendo um grande abismo entre humanos e outros animais. Mas se a linguagem é uma invenção de mais de um milhão de anos, então as linguagens humanas podem ser radicalmente diferentes entre si e uma continuidade das habilidades de animais e ancestrais distantes. O argumento não é apenas sobre linguagem, mas também sobre a natureza humana. / Tradução de André Cáceres 

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