Literatura digestiva

Rendida ao mercado e aos modismos da internet, ficção brasileira do século 21 se contenta em ser consumida com o descaso de um antiácido: foge do mundo, em vez de enfrentá-lo com o poder da palavra

José Castello, O Estado de S.Paulo

26 Dezembro 2015 | 16h00

A ficção brasileira do século 21 se caracteriza por uma nova tendência, a que podemos chamar de “literatura comercial”. O comércio – com suas vendas, seus best-sellers, seus negócios, suas cifras – interessa a ela muito mais que a própria literatura e seu leitor. Literatura produzida “para vender”, essa literatura se dissemina com o avançar do novo século. O que é mais preocupante: ela se multiplica, sobretudo, entre os jovens autores, cada vez mais fascinados pelas benesses do deus Mercado, e menos interessados na qualidade e densidade de suas narrativas.

Uma primeira característica se destaca: a padronização. O que significa que, no lugar da invenção, os escritores têm em vista agora, com ânsia redobrada, as vantagens da repetição. Há, nessa escolha, um evidente desprezo pela diferença. Não importa mais que uma página de Saramago não se confunda com uma página de Guimarães Rosa, e que essa não possa mais ser confundida com uma página de Clarice, etc. Ao contrário: com o culto difuso e insuficiente da “morte do autor”, essa nova literatura se interessa, tão somente, em produzir textos digestivos, que sejam consumidos com a rapidez e o descaso de um novo antiácido. E que se pautem, sobretudo, pela semelhança. Como uma camiseta que deve seguir e repetir, impecável, o corte da moda.

Os textos, em consequência, se uniformizam – já não interessando mais aos autores distinguir-se, mas, ao contrário, “parecer”. Efeito da era das imagens e das aparências, essa literatura se pauta, antes de tudo, pelo desejo de não errar. Pelo desejo de agradar. Pelo desejo, furioso, de que a devorem – como devoramos, no verão, uma nova marca de sorvete ou uma nova grife de maiôs. Os escritores não escrevem mais para errar, isto é, para afirmar seu estilo próprio e sua voz singular. Ao contrário: como alunos bem disciplinados, eles escrevem para acertar. Seu objetivo é corresponder às exigências das listas de mais vendidos e aos padrões preferidos das primeiras gôndolas das livrarias. É uma literatura “nota 10”, que não se interessa mais pela dissonância, pelo risco.

Há, em tudo isso, a influência declarada da linguagem ligeira e bruta que predomina na internet. Os padrões da rede se transportam para os livros – que, aliás, podem ser lidos em tablets e em e-books. Nada contra as novas plataformas, que são apenas um avanço necessário da tecnologia. Tudo contra a transformação do escritor em um funcionário desses mesmos padrões. Os jovens escritores, na verdade, não chamam a si mesmos mais de escritores, mas de “produtores de textos”. Veem-se como peças de uma grande cadeia produtiva, que os submete e à qual eles, felizes, se submetem também. Qualquer um, hoje, pode usar a internet para editar – postar – um conto ou uma novela. À democratização, que só deve ser louvada, corresponde, contudo, uma falta de direção, que lentamente transforma a criação literária em uma terra de ninguém.

Também no mercado livreiro reproduzem-se, cada vez com mais intensidade, as pequenas editoras que – imitando o modelo comercial dos telefones celulares – trabalham com o modelo dos livros “pré-pagos”. O autor “pré-paga” sua edição. Recebe em troca, como num cenário comercial primitivo, não mais os clássicos direitos autorais, mas apenas remessas da própria mercadoria que ajudou a produzir. Na verdade, os novos editores não passam de locadores de selos. Eles alugam marcas comerciais sob as quais os novos autores lançam seus livros. Isso se expressa em um interesse declarado pelas vendas e, só em segundo plano, pela aceitação.

Muitos blogueiros de grande audiência se tornam, eles mesmos, escritores, já não havendo mais limites nítidos entre os posts redigidos para os blogs e a ficção. As fronteiras explodem, as identidades vazam. Aliam-se, assim, em torno de uma preocupação principal com as grandes tiragens e, sobretudo, as grandes vendas. Muitos jovens blogueiros não só vendem mais, mas são muito mais conhecidos, hoje, do que escritores premiados e consagrados. Há, em muitos casos, um desprezo ostensivo pelos grandes nomes da ficção. O gozo, hoje, é com a audiência – não importando nem a qualidade, nem os conteúdos que ela oferece.

Amparada na realidade de um país predominantemente jovem, essa literatura se volta, antes de tudo, para as coisas do mundo juvenil. Namoros, relações com os pais, desabafo entre amigos, moda jovem, misticismo, aventuras fantásticas dão, em geral, o tom das narrativas mais populares. É uma literatura que espelha com grande precisão, ainda, os modismos em voga na sociedade, em especial na web. Ela se pauta, em particular, pelo desabafo ligeiro e pela confissão da vida cotidiana. Temas complexos não a interessam. Importam apenas os pequenos dramas amorosos e as experiências radicais – mas que não deixem grandes sequelas. Uma psicologia rasteira que explore dilemas íntimos, mas que não se aprofunde nem se arrisque.

Há, entre esses jovens autores, em geral, um menosprezo pelo que eles mesmos denominam de Alta Literatura, à qual opõem sua ficção prática e desinibida, sem grandes voos e sem grandes ameaças. Alguns autores renomados – penso em Clarice Lispector, Hilda Hilst e Fernando Pessoa – algumas vezes ainda aparecem como referências difusas. Não como mentores de uma formação, ou objetos de leituras aprofundadas, mas, ao contrário, como astros da cultura pop, veiculada, sobretudo, em sites da internet, que, com suas assinaturas (ou grifes), vêm iluminar e acrescentar charme e brilho à escrita comercial.

Seguindo o modelo adotado na rede, em especial no Facebook, essa nova literatura faz uma devassa da vida íntima. Mas, como também ocorre na internet, essa investigação é quase sempre ligeira e sem maiores compromissos. Visa, mais, à exibição e ao culto do Eu – exatamente como aqueles sorrisos dos selfies que ostentam uma felicidade nem sempre verdadeira. A intimidade, em consequência, é examinada não em profundidade, mas muito mais por seus efeitos e lucros de superfície. O que brilha é a imagem, que é ligeira e acintosa. Obscuro e complexo, o mundo interior não costuma interessar.

Pelos mesmos motivos, a literatura comercial – hipnotizada pela leveza e pela sedução rápida – despreza os chamados “grandes temas” ou temas mais profundos. Tudo aquilo que possa ameaçar sua visão encantada e prática da vida é descartado. O pensamento só interessa como fonte de citação e de culto. A psicologia é uma espécie de maquiagem através da qual o Eu interior se atualiza e se destaca. Os aspectos sociais da existência só importam muito raramente, apenas quando surgem como obstáculos que obstruem a fluidez e as delícias do cotidiano. Também por isso, essa nova literatura nutre grande desprezo pela aceitação intelectual. Não se importa em saber o que dela pensam os críticos literários, os professores e os leitores cultos. Não quer ser vista como peça de reflexão, mas de ostentação. Mais uma vez: é o Eu, seu brilho, seus vícios, suas luzes que dão as cartas. Ninguém ousa arrancar a máscara do sorriso intenso, a não ser que seja para brilhar ainda mais.

É ostensiva, portanto, a influência do mundo das celebridades. Muitos dos valores dos astros e das estrelas que pontificam na mídia são não só cultuados, mas ferozmente imitados. Há um conceito ostensivo de felicidade – uma espécie de obrigação de ser feliz. Quando a tristeza e o desamparo aparecem, isso se dá apenas para produzir efeitos eletrizantes como o “terror”, o gótico e o assombroso. Para encarnar, por contraste, as forças do Mal. É uma literatura na qual, em geral, “está tudo bem” – e, quando não está, o objetivo é apenas incrementar o espírito de aventura e de excitação mental. Como na escrita virtual, essa literatura pretende ser uma espécie de grande olho que – mesmo quando trata do passado – devassa as peripécias do contemporâneo.

Há, ainda, um evidente desinteresse pelo trabalho de linguagem e pelos exercícios experimentais. Literatura que se pretende um espelho – ainda quando deseja espelhar apenas os grandes sonhos do mundo da fantasia –, essa literatura cultiva a transparência e a literalidade. Seus leitores não se interessam por raciocínios complexos nem por interrogações incômodas. Tudo deve ser dito (escrito) em linguagem sintética e direta, imitando, o mais possível, os modismos mais recentes da linguagem cotidiana. A linguagem não é objeto de reflexão, mas apenas um instrumento, de preferência neutro e descomplicado, para a devassa do real. Todo exercício de pensamento e de experimentação é atribuído à estética (e às manias) da Alta Literatura.

Narrativas que muitas vezes imitam a fluidez das conversas – como na linguagem cifrada, rápida, mas simples da rede de computadores –, essas ficções têm muitas vezes como modelo a ausência de complicação e objetividade que desenham o ideal das cartas comerciais. Escreve-se para “dizer alguma coisa”, e isso basta. De novo: a literatura é vista só como uma plataforma, semelhante a um tablet ou a um celular. Um veículo frio e sem conteúdo. Um atravessador entre o autor e seu leitor. Há que considerar, aqui, a influência das oficinas literárias que, nos últimos anos, proliferam em todo o País. Penso aqui não naquelas oficinas que “fazem pensar”, mas naquelas que, baseadas na transmissão de truques, receitas e apostilas, pretendem formar escritores no ritmo da pronta entrega. Naqueles que produzem alunos “nota 10”. A “literatura comercial” é, antes de tudo, a terra do bom desempenho.

Há, ainda, um forte desprezo pela história literária. Hipnotizados pelo presente, esses autores não se interessam em situar sua escrita em uma linha do tempo ou uma tradição. Sua postura, muitas vezes, é a de quem está a fundar a literatura. Aqui se entendem as declarações de certos autores que já se orgulharam em dizer que “nunca leram um livro”. Seu desejo secreto é o de competir com a realidade – um pouco como faz, amparada nos recursos da tecnologia, a realidade virtual. Daí a obsessão pelas imagens e pela linguagem visual, não como objetos de experimentação, mas de mitificação e facilidades.

No máximo, essa literatura se aceita como jogo – e aqui o modelo é o dos jogos online. Um jogo inócuo e sem fim. Através dele, escritores e leitores gastam uma vida que parece nunca terminar. Reforça-se, aqui, o aspecto juvenil dessa nova ficção. Uma ficção que encara a literatura, seguindo o clichê das telas, segundo o qual o “cinema é a maior diversão”, antes de tudo como uma forma de distração. Como algo que “faz esquecer”, que ajuda a sonhar e, sobretudo, que ajuda a escapar. Com isso, a nova “literatura comercial” foge do áspero real e de seus impasses, refugiando-se em sonhos inócuos e em fantasias descartáveis. Foge do mundo, em vez de enfrentá-lo com o poder da palavra. Contenta-se em produzir uma escrita fluente e vaporosa, para a qual a literatura – com sua aposta no singular e seu primado da invenção – é o que menos importa.

JOSÉ CASTELLO JORNALISTA E ESCRITOR, É AUTOR, ENTRE OUTROS LIVROS, DE O INVENTÁRIO DAS SOMBRAS E A LITERATURA NA POLTRONA (AMBOS DA RECORD)

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