Literatura em 140 caracteres

Depois da escrita telegráfica, dos microcontos, da ficção instantânea e da 'flash fiction', vem aí a twitteratura

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

20 de julho de 2009 | 11h15

Comemorar o 14 de julho com um livro é coisa de francês. Este ano não foi diferente: uma vez mais, as livrarias francesas se encheram de obras sobre a Revolução burguesa de 1789. Todas, comme il faut, impressas e com lombada; nenhuma, aparentemente, oferecendo novidades. Em matéria de 14 de julho, a única novidade deste ano foi uma obra de ficção escrita por um americano: The French Revolution. Não por ser de ficção (isso Charles Dickens, a Baronesa Orczy e outros já haviam feito na língua inglesa), mas pela forma como chegou - ou melhor, está chegando, desde terça-feira - aos leitores: pelo Twitter.

 

Depois da escrita telegráfica, dos microcontos, da "sudden fiction" (ficção instantânea) e da "flash fiction" (um clarão ficcional), a twitteratura. Com ou sem Revolução Francesa, ela já vem com guilhotina.

 

(Aos jenunos em internetês, um bê-á-bá: Twitter é uma rede de relacionamento, parente do Orkut e do Facebook, que funciona gratuitamente na Web e dá ao que nela se veicula o máximo em interatividade. Seus miniblogs, ou tweets, não podem ter mais de 140 caracteres, com espaço. A tradução literal de tweet é pio, razão pela qual o símbolo do Twitter é um pássaro azul. Não sei por que não batizaram o serviço de Tweeter. Twit quer dizer palerma. Honni soit qui mal y pense.)

 

Matt Stewart, o americano de 30 anos que resolveu tweetar (ou twittar) The French Revolution, não é um pioneiro no ramo da webficção em doses homeopáticas. Seu xará Matt Richtel e Terry Taylor, para só citar dois nomes, descobriram bem antes dele os proveitos da twitteratura, que até subgêneros já gerou. Um thriller narrado em mensagens de 140 tweets é um twiller, por exemplo.

 

Richtel postou um twiller com mais xingamentos e imprecações que os raps do N.W.A. O Twitter é, por ora, o último refúgio dos autores sem editores e sem talento, não obrigatoriamente nessa ordem. Suas "uvas podres"? As pressões dos editores e as incertezas do mercado de livros.

 

Escrito ao longo de cinco anos, o romance de Stewart não é ambientado na França de 1789, mas na São Francisco de 1989, onde uma família disfuncional ajuda a armar uma ponte até a Paris que viu a Bastilha cair. Mais não adianto porque não aguentei ir além dos primeiros microparágrafos, protagonizados por uma senhora gordona, chamada Esmeralda (homenagem a Víctor Hugo?), que só se locomove com a ajuda de um andador. Cansado de esperar pelo sim de uma editora, Stewart aproveitou o 14 de julho para começar a tweetá-lo.

 

Com 95 mil caracteres, deverá exigir, pelos cálculos do autor, uns 3.700 tweets. Com que frequência fará as atualizações, se a cada 15 minutos ou de hora em hora, cobrindo um ou dois capítulos por dia, ele ainda não decidiu. "Quero dar ao público consistência, não spam", disse ao site do Scribd, a Santa Casa da Misericórdia dos sem-editora, onde o romance estará integralmente disponível, em versão PDF, até o fim do mês.

 

Pelo menos um infonauta não foi na conversa de Stewart: "Spamvolution!", trocadilhou, seguido de outro que, também fiel ao mote da Revolução Francesa, mandou o escritor "comer brioches". Em meio a deboches, congratulações, incentivos e invectivas contra o emburrecimento facilitado pela tecnologia, este delicioso escárnio: "E aqui estou eu lendo Guerra e Paz, ao compassado ritmo de 60 páginas por dia, a versão Tolstoi dos tweets" - assinado JLG (será o José Lino Grünewald, diretamente d’autre tombe?)

 

Ora, os folhetins. Saíam em capítulos diários, mas não com 140 caracteres apenas. Isso é medida para recados, rol de roupa; até para receitas é insuficiente; para prosa com algum pedigree literário, nem pensar. A menos que o twittor possua o gênio do guatemalteco Antonio Monterroso, mestre da microprosa. Seu clássico relato de apenas sete palavras ("Quando ele acordou, o dinossauro ainda estava lá.") caberia inteirinho num tweet; e ainda sobraria espaço para mais 92 caracteres, no caso, absolutamente desnecessários.

 

James Joyce precisou de 277 caracteres para burilar o primeiro (e curto) parágrafo de Ulisses. Se topasse seccionar frases e apelar para reticências, como faz Stewart, golpe baixo comparável a um coito interrompido, teria de cortar 23 das 48 palavras (ou 137 tweets) de sua abertura, não lhe sobrando espaço sequer para escrever por extenso a palavra "dressing gown".

 

OK, nerds, novos meios, novas prosas. Mas por que a urgência e a interatividade têm de prevalecer sobre os prazeres da leitura? O que mais nos reserva a Bit Generation?

 

Difícil imaginar algo mais tolo que a "cellfiction", o último estágio da cadeia alimentar digital. Coqueluche no Japão, onde a portabilidade e a interatividade do celular fizeram dos laptops e notebooks peças de museu, é o que seu nome sugere: ficção via celular; em japonês, "kentai shosetsu". Um Roland Barthes digerato definiu-a como "o primeiro modo narrativo da era text msg". No teclado de seus "kentais" as garotas textam, textam, textam suas histórias e as remetem, sob a forma de mensagem, para os "kentais" das amiguinhas, que as leem em questão de segundos.

 

Na era das cavernas, rabiscos e bisões; na era text msg, micronovelas açucaradas e pseudoconfissões esqueléticas despachadas em capítulos, sob pseudônimos geralmente nauseabundos, como "Purple" e "Bubble". Esse karaokê líteroeletrônico tornou-se o passatempo favorito das adolescentes e moçoilas japonesas. Nenhuma história deve ter mais de 350 palavras, para um rolamento mínimo na telinha do celular. Pasto para tapados e semiletrados ("yahori"), criticam os que foram criados lendo Kawabata, Oe, e mesmo Murakami, em papel, naturalmente estarrecidos com o fenômeno e sua metástase no mercado editorial. Metade da lista dos best sellers japoneses de 2007 foi concebida como "kentai shosetsu". Por muito menos, Mishima praticou haraquiri.

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