MARISA RASTELLINI/MONDADORI PORTFOLI
MARISA RASTELLINI/MONDADORI PORTFOLI

Literatura italiana entra em bom momento com autores novos e reedições

Elsa Morante, Italo Svevo, Curzio Malaparte e outros clássicos italianos vêm sendo publicados novamente no Brasil, ao lado dos best-sellers Elena Ferrante e Domenico Starnone

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

16 de novembro de 2019 | 16h00

Elsa Morante, a musa confessa de Elena Ferrante, está de volta às nossas livrarias, após uma ausência de 16 anos. Romance de formação, ambientado numa ilha próxima a Nápoles, às vésperas da 2.ª Guerra Mundial, A Ilha de Arturo (Prêmio Strega de 1957) saiu aqui pela Bertrand Brasil, em edição comparativamente modesta. A de agora, com o selo da Carambaia e tradução de Roberta Barni, tem o capricho gráfico a que seu padrão literário faz jus. 

Estaria a literatura italiana retomando o prestígio de décadas passadas, na esteira do sucesso internacional de Ferrante e, em menor escala, de Domenico Starnone (Laços, Todavia, 2017)? Certa movimentação nesse sentido, no mercado editorial, justifica algum otimismo. 

O conceituado napolitano Erri de Lucca já teve romances traduzidos, nos últimos tempos, por duas diferentes editoras brasileiras. A Rocco trouxe até nós A Solidão dos Números Primos, do turinês Paolo Giordano, e, há seis anos, a Bertrand Brasil investiu em Carlos Lucarelli (Água na Boca). A Companhia das Letras já traduziu praticamente todos os livros do luminoso Italo Calvino. O mais novo lançamento em quadrinhos da Editora Veneta retrata a aventura intelectual e política vivida pelo jornalista, crítico literário e antifascista histórico Antonio Gramsci, que Mussolini manteve preso durante oito anos. Desenhados pelo cartunista Rep, com roteiro do filósofo argentino Néstor Kohan, é uma sintética e didática introdução ao mais influente pensador marxista da Itália.

A magnum opus de Morante, A História, foi traduzida pela última vez no Brasil pela Record, já lá se vão 45 anos. Só em sebos é possível encontrá-la. Era, até pouco tempo, o mais lido e comentado romance italiano contemporâneo. A partir do estupro de uma professora judia por um soldado alemão, durante a ocupação da Itália pelos nazistas, Morante traça um panorama contexualizado das convulsões políticas ocorridas entre 1900 e 1967, explorando os movimentos da vida cotidiana – como Elena Ferrante faria, 37 anos mais tarde, com sua tetralogia napolitana.

No auge da polêmica que na época suscitou entre a elite pensante do país, seu inseparável amigo Pier Paolo Pasolini deixou de falar com ela. Nunca se reconciliaram. 

Morante viveu meio à sombra de Alberto Moravia, com quem se relacionou durante vinte anos. Estavam a poucos meses da separação quando vieram juntos ao Rio, em agosto de 1960, para um congresso do Pen Club. O mais célebre intelectual italiano do pós-guerra até o surgimento de Umberto Eco, Moravia foi um escritor da melhor cepa verista, além de crítico literário e de cinema. Desde Os Indiferentes, o primeiro, publicado em 1929, seus romances, ricos em singulares observações psicológicas sobre o comportamento da burguesia, notadamente a romana, sempre encontraram espaço em nosso mercado editorial. 

Um de meus escritores favoritos, quando criança, era um italiano de Verona, o prolífico Emilio Salgari, criador de míticas figuras do colonialismo italiano, como Sandokan e o Corsário Negro. O florentino Carlo Collodi não precisou escrever nada além da história de Pinóquio para fazer parte do meu panteão infantil. Enquanto eu singrava os aventurescos mares e desertos de Salgari, os adultos daquele tempo devoravam o humor ácido Pitigrilli, que teve mais de 70 títulos traduzidos no Brasil, um deles, não me lembro qual, por Chico Anysio. Até Julio Cortázar o traduziu para o espanhol. 

No embalo do cinema neorrealista e seus epígonos imediatos, a literatura italiana desfrutou seu mais estrepitoso boom editorial na década de 1960. Prosa forte, atenta às questões sociais e influenciada na mesma medida por Marx e Freud, o mais das vezes populista, nela mergulhávamos na língua disponível. Li meus primeiros romances de Vasco Pratolini, Cesare Pavese e Elio Vittorini em português de Portugal, salvo engano editados pela Arcadia. Fontamara, de Ignazio Silone, e A Pele, de Malaparte, já os tracei em português do Brasil, com a chancela da Civilização Brasileira.

Só na década seguinte, rendi-me ao feitiço de A Consciência de Zeno, de Italo Svevo. Em francês. Posso outra vez estar enganado, mas desconfio que esse marco do modernismo italiano, originalmente publicado em 1923, ganhou sua primeira tradução brasileira apenas no início deste século, bancada pela Nova Fronteira, que sete anos antes publicara outra obra do proustiano turinês, Senilidade, cuja primazia editorial se deveu também à força promocional do cinema. Senilidade foi adaptado ao cinema por Mauro Bolognini, em 1962, e entre nós lançado com o título de Desejo que Atormenta.

Impossível falar da literatura italiana dos anos 40, 50 e 60 do século passado sem sublinhar o papel subsidiário do cinema, que lhe deu sobrevida na tela e impulsionou as vendas nas livrarias. Foi, a rigor, um toma-lá-dá-cá. 

Vittorini e Pratolini foram precursores do neorrealismo, em seus romances e na atenção dada aos humildes da Sicília e da Toscana, respectivamente. Pavese influenciou tremendamente Antonioni e a noia de seus personagens. Pratolini colaborou como argumentista e roteirista com Rossellini, Visconti e Bolognini, e teve pouco mais de meia dúzia de romances filmados, entre os quais As Amigas (de Antonioni) e Cronaca Familiare (no Brasil, Dois Destinos), de Valerio Zurlini, dois grandes momentos da simbiose prosa-cinema da Itália liberta do fascismo.

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