Livre trânsito

Jornalista com acesso a israelenses e palestinos conta bastidores do arrastado processo de paz

Carolina Rossetti,

20 de agosto de 2011 | 14h11

Premiado pela extensa cobertura da guerra árabe-israelense, o português Henrique Cymerman estava num voo de 13 horas de Tel-Aviv a São Paulo quando eclodiu o ataque mais violento dos últimos três anos do conflito, na quinta-feira. “Essa foi mais uma tentativa dos radicais de boicotar a paz. São eles o grande câncer desse conflito.”

 

Cymerman, cuja carreira vai virar roteiro de filme, veio ao Brasil por ocasião do lançamento do livro Vozes no Centro do Mundo, da editora Almedina. A obra reúne entrevistas históricas com as figuras-chave de ambos os lados da fronteira, entre as quais se destaca o último depoimento do ex-premiê Yitzhak Rabin – assassinado um dia depois – e as conversas com Shimon Peres, Ariel Sharon, Benjamin Netanyahu, Yasser Arafat e Mahmoud Abbas. Hoje ele escreve para o diário La Vanguardia, de Barcelona.

 

Seu plano imediato assim que voltar a Israel é dar início a encontros semanais com o Nobel da Paz Shimon Peres, que Cymerman considera o líder mais fascinante da região e de quem pretende escrever a biografia. A seguir, ele compartilha com o Aliás um pouco do que viu e ouviu aos longo de três décadas nos bastidores do arrastado processo de paz entre israelenses e palestinos.

 

Com câmeras desligadas

“Imagine uma reunião entre israelenses e palestinos depois de um atentado como o de hoje. É de se esperar crispação e hostilidade entre os negociadores. Mas, quando as câmeras não estão a filmar, eles se abraçam, perguntam como está a mulher (todos sabem o nome das esposas uns dos outros) e se o filho de fulano já se formou na universidade. Há uma intimidade off the record curiosa. Israelenses e palestinos têm suas próprias verdades, são inimigos e vizinhos que possuem mais em comum do que parece.

 

Arafat e Sharon

“Já entre esses dois não havia nada em comum. Não se aceitavam. Arafat acusava Sharon de tentar matá-lo, e Sharon considerava Arafat um terrorista. Quando certa vez perguntei a Arafat se Sharon entraria para a história como o De Gaulle israelense, por ter avançado no processo de paz, ele riu e deu de ombros. Penso que Arafat foi uma das figuras mais trágicas da Palestina. Seus esforços fizeram com que a questão palestina, para a qual ninguém dava a mínima no anos 60, se transformasse num tema importante da política internacional. Mas era uma figura melodramática e teatral que nunca teve um hobby, cuja vida inteira foi dedicada à causa. Foi um político extraordinário, é verdade, mas fraco como estadista. Nunca conseguiu superar a imagem de guerrilheiro e fazer a metamorfose para se tornar um líder de Estado.

 

Mahmoud Abbas

“Esse sim é um democrata. Seu principal objetivo é ser o primeiro presidente do Estado palestino, e não está sozinho. Salam Fayad é seu braço direito e metade de seu esquerdo. Há um novo espírito de paz sendo criado por esses dois homens. Eu me lembro de quando viajava para a Cisjordânia e muitas vezes corria perigo de ser sequestrado por grupos da jihad. Há cinco anos, era uma total anarquia, mas um dia desses eu estava com um amigo em Ramallah e achei que ele estava brincando comigo quando me mandou pôr o cinto de segurança. “Mas tu não imaginas, Henrique, agora eles estão até a multar”, disse ele. Houve uma verdadeira revolução na Cisjordânia, mas o problema é que existem duas palestinas, a laica e a islâmica, controlada pelo Hamas. E não dá para fazer a paz com só um dos lados da moeda.

 

Benjamim Netanyahu

“Em 1991, entrevistei Netanyahu, que era então ministro suplente de Relações Exteriores, e lembro que vi um guardanapo sobre sua mesa com um esboço das Colinas de Golã divididas em duas. Ao contrário do que diz publicamente, ele mandou Miguel Ángel Moratinos (ex-enviado especial da UE para o Oriente Médio) várias vezes a Damasco com uma proposta de paz em troca da retirada militar do Golã. Quando eu o lembro disso, ele nega, é claro. E pergunta, sorrindo: “Mas que guardanapo?”

 

Do outro lado

“Até os mais radicais dos líderes não podem sobreviver sem a mídia, a imprensa é o oxigênio deles. Foi por isso que consegui um contato tão direto com lideranças palestinas como o fundador do Hamas, o xeque Ahmad Yassin, ou com o líder da jihad Abdullah Al-Shami (que horas depois de uma entrevista comigo foi preso por 40 dias por dizer que queria ver o então presidente Bill Clinton morto). Meses depois, Al-Shami me convidou para uma reconciliação. Comecei a suar e não era pelo calor. Ele disse que me perdoava, mas que suas declarações foram mal compreendidas, o que não é verdade.

 

Herdeiro de Bin Laden

“Levei dois anos para chegar até ele e duas horas para convencê-lo a falar. O filho Omar era o candidato de Osama para herdar a Al-Qaeda. Seu pai foi assassinado semanas após nossa conversa. Atrevo-me a dizer agora algo que não escrevi. Quando terminei a entrevista, tive a impressão de que Omar sabia do paradeiro do pai e mantinha contato com os irmãos que estavam em Abbottabad. Trocamos mensagens no dia da morte de Bin Laden. Ele disse que não estava de acordo com as ideias do pai, mas Barack Obama não poderia tê-lo matado e por isso vai processar o presidente americano.

 

Quem é quem no mundo árabe

“Não é só a primavera árabe que estamos vendo acontecer, mas todas as quatro estações de Vivaldi. O dramaturgo Bernard Shaw disse que “os políticos e as fraldas devem ser substituídos com frequência pelos mesmos motivos”. É isso que os jovens árabes estão a fazer. Num momento em que não se sabe quem é quem no mundo árabe, Israel é para os EUA uma ilha de estabilidade. O problema é que a personalidade e o estilo político de Obama e Netanyahu são diferentes. Não são próximos como os líderes que os antecederam. Bill Clinton chegou a dizer que Yitzhak Rabin era como um pai para ele. Netanyahu cresceu nos EUA e tem laços com os republicanos, o que incomoda Obama. Por fim, acho que Netanyahu, como líder da direita israelense, tem condição de fazer um acordo com os palestinos, mas resta saber se ele tem a valentia necessária para dar esse passo histórico.

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