Dida Sampaio/Estadão
Dida Sampaio/Estadão

Novo livro mostra a importância das florestas para se evitar uma catástrofe no planeta

Obra de John W. Reid e Thomas Lovejoy descreve os 'pulmões do mundo'

Richard Schiffman, Washington Post

09 de abril de 2022 | 16h00

Quando lhe perguntaram sobre uma proposta para o Parque Nacional Redwood, em 1966, Ronald Reagan, então candidato a governador da Califórnia, disse: “Uma árvore é só uma árvore, quantas mais você quer?”.A citação aparece em Ever Green: Saving Big Forests to Save the Planet, de John W. Reid, economista e conservacionista, e Thomas E. Lovejoy, renomado ecologista de florestas tropicais que morreu em dezembro.

Os autores oferecem uma refutação eloquente e cheia de fatos aos Reagan do mundo que veem a natureza indomável como um espaço vazio no mapa que clama por ser desenvolvido para usos humanos. Eles detalham por que as florestas são um sistema de suporte vital para a Terra, moderando as temperaturas, armazenando carbono, preservando bacias hidrográficas e gerando “rios voadores”, correntes de ar carregadas de umidade que trazem chuvas vitais para regiões próximas e distantes.

A boa notícia é que cinco megaflorestas quase inimaginavelmente vastas continuam praticamente intactas: a Amazônia, a zona boreal norte-americana, a taiga da Rússia e do extremo norte da Europa, a ilha da Nova Guiné e a Bacia do Congo. Elas são os maiores depósitos de biodiversidade da Terra, onde a evolução continua até hoje e incontáveis milhares de espécies ainda não foram descobertas.

Você não sabe o que é uma megafloresta até viver a experiência de sobrevoá-la, como eu fiz durante uma viagem de reportagem à Amazônia em 2015. Por mais de uma hora no meio de um voo de Brasília a Manaus, a maior cidade da bacia amazônica, praticamente não vi estradas nem cidades – apenas um oceano de verde listrado por rios e se estendendo de horizonte a horizonte. Eu mal podia acreditar nos meus olhos.

Desde aquele voo sete anos atrás, o Brasil perdeu dezenas de milhares de quilômetros quadrados para o corte de florestas e os incêndios que se seguiram às incursões humanas. Os autores escrevem que estamos nos aproximando perigosamente de um ponto de não retorno, quando a destruição da Amazônia pode desencadear uma transição irreversível de todo o ecossistema para uma paisagem mais seca e semelhante à savana.

As perspectivas são um pouco menos terríveis nas outras grandes florestas, onde as pressões populacionais não são tão agudas. Mas todas elas enfrentam ameaças de extração de madeira e construção de estradas, bem como das mudanças climáticas, o que dificultará que muitas espécies altamente adaptadas continuem vivendo onde estão agora.

O argumento mais convincente para preservar as florestas intactas talvez seja que elas são a primeira linha de defesa do planeta contra o aquecimento global.

As grandes florestas “metabolizam o carbono” que nossa civilização industrial lança no ar. As florestas boreais do Ártico e a floresta tropical do Congo também guardam, logo abaixo da superfície, enormes depósitos de turfa, o maior depósito de carbono do planeta. As árvores também dão sombra à Terra e suas folhas transpiram, resfriando regiões inteiras do planeta da mesma forma que a transpiração evita que nossos corpos superaqueçam.

Além disso, manter as florestas é muito mais barato do que implementar esquemas intensivos em tecnologia para nos livrar dos combustíveis fósseis ou diminuir a temperatura, como a captura de carbono. “Manter o carbono nas florestas tropicais custa um quinto do que reduzir as emissões da energia e da indústria nos Estados Unidos ou na Europa”, relatam os autores.

Eles não estão argumentando contra a redução das emissões. Mas, dizem eles, “a matemática de manter nosso mundo habitável não fecha” sem a preservação das megaflorestas, que exercem uma influência estabilizadora fundamental no clima global.

Reid e Lovejoy não se limitam a desenvolver esses argumentos utilitários para a preservação da floresta, os quais são persuasivos, mas um pouco áridos. Eles intercalam a ciência com relatos do que as florestas tradicionalmente significam para os povos que as habitam.

Na Nova Guiné, onde o terreno é cortado por cordilheiras isoladas, mais de 1 mil línguas sobrevivem, mais do que todas as línguas indo-europeias juntas. As megaflorestas, dizem eles, não são apenas pontos fundamentais para a biodiversidade, são berço de uma deslumbrante diversidade de culturas, “cada uma com sua maneira singular de perceber a realidade”.

Os Maybrat da Nova Guiné, um grupo que vive isolado, não têm uma palavra específica para “natureza” como um reino à parte dos humanos e nenhuma palavra para “floresta” – mas sim uma infinidade de termos para diferentes lugares dentro das florestas e suas relações. Em uma língua indígena brasileira, não há como dizer que você possui terra. E em outra não há como chamar um animal de “isto”.

Kenampa, indígena Korubo do Vale do Javari no Brasil, falou por muitos dos povos indígenas no livro quando disse: “A floresta é parte da nossa família. Quando olhamos para a floresta, não vemos apenas floresta. Nós vemos vidas. Vidas que precisam de nós assim como nós precisamos delas”.

Em vez de descartar essas visões como primitivas ou ingênuas, os autores contrastam a aguçada percepção da interdependência de todas as criaturas vivas dos povos tribais com nosso sistema econômico míope, que dá mais peso ao lucro de curto prazo para alguns indivíduos do que à sobrevivência da biosfera da qual fazemos parte.

Quando perguntaram aos indígenas o que eles queriam dizer aos leitores do livro, Reid e Lovejoy esperavam ouvir alertas sobre mudanças climáticas, córregos secando ou perda do permafrost. Em vez disso, a mensagem mais comum era um convite: “Digam a eles que venham nos ver”.

Esses povos da floresta não sabiam que as pessoas que estavam convidando para sua terra natal pertenciam a uma civilização que estava destruindo rapidamente as florestas e os sistemas naturais que as sustentam?

Sem dúvida, eles sabiam. Mas suspeito que foram movidos pela simples fé de que, quando víssemos sua magnífica floresta de perto, nós também começaríamos a amá-la.

Foi o que aconteceu com os autores deste livro, claramente. Apesar de toda a precisão acadêmica, Ever Green é, em última análise, um apelo apaixonado para salvar as últimas terras intactas do mundo por dois homens que começaram, por meio de um vasto conhecimento profissional, a amá-las. Os leitores vão ver que sua paixão é contagiante.

E, se você quiser ler mais sobre as grandes florestas do mundo, o livro do jornalista e educador Ben Rawlence, The Treeline, publicado em fevereiro, é uma exploração magistral e liricamente evocativa das florestas boreais do extremo norte, que evitam que “o urso adormecido” do permafrost derreta ainda mais rapidamente, liberando sua vasta reserva de metano na atmosfera.

Ever Green: Saving Big Forests to Save the Planet

John W. Reid e Thomas E. Lovejoy.

Norton - 320 páginas - US $40

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Richard Schiffman é jornalista ambiental e autor de What the Dust Doesn’t Know, uma coleção de poesias. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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