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Livro analisa a atualidade dos pensadores da Escola de Frankfurt

'Grande Hotel Abismo' conta a história de uma das escolas mais influentes do século 20

Martim Vasques da Cunha*, Especial para o Estado

02 Junho 2018 | 16h00

Em 1797, na cidade alemã de Frankfurt am Main, G.W. Hegel, Friedrich Hölderlin e Friedrich Schelling escreveram juntos o texto “O programa para um sistema de idealismo alemão”. Foi lá também que havia a IG Farben, que, nos anos 1920 e 1930, desenvolveria o Zyklon B, gás mortal de cianeto que seria usado em Auschwitz. E foi em Frankfurt que, em 22 de junho de 1924, inaugurou-se o Instituto de Pesquisa Social, na rua Viktoria Allee, número 17. Era um prédio de estilo industrial, a ser ocupado por intelectuais de tendências marxistas, vivendo num “cubo austero com 75 mil livros na biblioteca, sala de leitura com 36 lugares, quatro salas para seminários com cem lugares ao todo e dezesseis pequenas salas de trabalho”, financiado por dois capitalistas judeus, Hermann e Fritz Weil. Ambos não sabiam, mas criariam o lugar onde se instalaria a chamada “Escola de Frankfurt”.

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Tudo isso acima encontra-se no livro Grande Hotel Abismo, do jornalista inglês Stuart Jeffries. A partir desses dados, ele tenta encontrar uma unidade nas personalidades díspares de eruditos que viveram duas guerras mundiais, a ascensão dos EUA como superpotência, a revolução estudantil de 1968 e a entropia das próprias ideias ao serem postas na prática – como foi o que aconteceu com Theodor Adorno, Max Horkheimer, Walter Benjamin, Herbert Marcuse, Fritz Neumann, Friedrich Pollock, Erich Fromm, Henryk Grossmann, Jürgen Habermas e Alex Honneth.

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Mas não consegue realizar tal feito. Jeffries faz o que qualquer um faria ao lidar com o assunto da Escola de Frankfurt: alinhava anedotas, eventos históricos marcantes, referências culturais disparatadas (de Bach à série de TV Mad Men), para mostrar ao leitor que domina os conceitos da “indústria cultural”, este lugar-comum sobre a suposta dominação de um sistema capitalista que, por meio de produtos de pretensões artísticas, transformaria o ser humano em um objeto de consumo. Também não transmite o sentimento de tragédia na vida de cada pensador – algo iminente não só porque eles viveram a carnificina do nazismo, mas porque não conseguiam lidar com o inesperado que surge quando se confronta o inferno da nossa existência.

A fraqueza analítica em Grande Hotel Abismo está no modo como o autor é pusilânime com o fato de que, por exemplo, tanto Grossmann como Marcuse se envolveram como agentes duplos em agências de espionagens nos EUA e na URSS; ou então com a triste constatação de que Theodor Adorno, apesar de alguns equívocos (como a recusa de aceitar o valor do jazz ou a relutância de que o tipo psicológico da “personalidade autoritária” poderia existir em um ambiente socialista), era o mais lúcido de todos neste grupo heterogêneo e, por isso, morreu de desgosto quando percebeu que os estudantes da revolta de 1968 eram semelhantes aos totalitários denunciados no início da sua carreira. Estes recuos de Jeffries mostram que, se a Escola de Frankfurt não é a principal responsável pelo “marxismo cultural” (como é um dos argumentos mal desenvolvidos no decorrer do livro), sem dúvida ela ajudou bastante para a falta de clareza moral que o inglês exibe em suas páginas.

É o que também acontece em Como Nasce o Novo, do professor brasileiro Marcos Nobre (Todavia, R$ 64,90, 341 págs), resultado da sua tese de livre-docência e uma leitura cerrada da introdução da Fenomenologia do Espírito (traduzida pelo próprio Nobre), de Hegel, o mesmo que escreveu com Hölderlin e Schelling um dos textos fundadores do idealismo alemão, naquela cidade onde Adorno reclamava da burguesia que o sustentou. O livro é um dos filhotes do método batizado por Paulo Arantes de “um departamento francês de ultramar” – e é superior, por exemplo, ao tratamento dado por Vladimir Safatle sobre o mesmo assunto, em um estudo que, coincidentemente, tem um título igual ao de Stuart Jeffries. Entretanto, apesar de ser impecável em termos técnicos, não há algo tão novo assim em seu argumento filosófico. Nobre se pergunta se o prisma pelo qual ele analisa o escrito de Hegel – justamente a Teoria Crítica que fez a fama da Escola de Frankfurt – não estaria contaminado pelo desespero de não compreender as decisões surgidas dos impulsos produzidos na própria época em que vive um pensador. No caso de Hegel, era a Revolução Francesa, o surgimento de Napoleão e a restauração monárquica. O que seria no caso de Nobre? As revoltas brasileiras de 2013? A polarização ideológica que acontece no país desde então? Ambas as opções?

O próprio professor afirma que o impasse de aceitar a Teoria Crítica como forma de interpretar o mundo atual, especialmente por meio das obras de Alex Honneth, implica numa alternativa caduca na qual as propostas da Escola de Frankfurt para a novidade surgida neste início do século 21 são demasiadamente abstratas, senão ultrapassadas para orientar tanto “o pensamento como a ação transformadora”. Que o leitor não se engane ao ler este último termo: o que Nobre quer dizer mesmo é “revolução” – feita com aquele ímpeto jacobino que mistura igualdade e oportunidade, no desconhecimento de que, hoje e sempre, fazer isso é como tentar misturar água e óleo. A única diferença entre a Teoria Crítica do passado e o surgimento do novo proposto pelo brasileiro é que, se antes a igualdade podia ser conquistada com a subversão das instituições do Estado, agora o êxtase da destruição deve ser completo e irreversível, desde que, claro, um bom professor universitário seja o Paráclito espiritual.

Ao final de Como Nasce o Novo, não se sabe se Marcos Nobre quer ou não interpretar esse papel – afinal de contas, a perfeição técnica do seu raciocínio impede tal decisão que, na prática, seria realmente desesperadora (para ele e para o “homem comum enfim”). É uma contradição intrínseca para quem pensa nos moldes da Teoria Crítica, como Roger Scruton argumenta, em Tolos, Fraudes e Militantes (Record, R$ 54,90, trad. Alessandra Bonrruquer, 404 págs.). Segundo ele, a busca por uma “razão comunicativa” (o termo favorito de Jürgen Habermas) que amenize os problemas do mundo é, no fundo, uma “necessidade religiosa plantada profundamente em nosso ser genérico”, um “desejo por pertencimento que nenhuma quantidade de pensamento racional, nenhuma prova de absoluta solidão da humanidade ou da natureza irredimível de nossos sentimentos pode erradicar”. 

Contudo, Scruton viu apenas metade do problema, assim como Adorno, Benjamin, Horkheimer, Marcos Nobre e uma vasta galeria de intelectuais. Na descrição exata de György Lukács (que não gostava dos frankfurtianos porque sempre sonhou com o benefício privado dos Weil), eles preferem viver em um hotel “equipado com todo o conforto, à beira de um abismo, o da vacuidade, da absurdidade” – o mundo higienizado que nomeia a confusa biografia de Stuart Jeffries.

Neste gabinete descolado da vida real, não conseguem perceber que a raiz de todo o mal nunca foi o “sistema capitalista”, as “estruturas de dominação” ou “nosso ser genérico”, mas sim o que um francês do século 17, Blaise Pascal, chamou de “do reino nefasto do amor-próprio”, brilhantemente analisado por Andrei Venturini Martins em um livro de mesmo título (É Realizações, R$ 69,90, 351 págs.), um antídoto obrigatório a todos que queiram entender a origem da perversidade humana. Se vivesse nos nossos dias, Pascal afirmaria sem hesitação que abrigar-se no Grande Hotel Abismo é um divertissement, um divertimento para se proteger do vazio infinito que nos corrói por dentro. Ele nos impede de construirmos a minima moralia (aliás, título da obra-prima de Theodor Adorno) que fará surgir uma novidade sem a urgência de ações transformadoras. E, no fim, o que os integrantes da Escola de Frankfurt – e seus sucessores tupiniquins – fizeram foi nada mais, nada menos do que cumprir um dos aforismos célebres de Pascal. Esqueceram-se que, sem a abertura para a transcendência, “a vida humana não passa de uma ilusão perpétua”, na qual só ficaram a “enganar-se e adular-se entre si”. É pouco para quem pretendia, com muitos erros e pouquíssimos acertos, “fazer novas todas as coisas”.

*Martim Vasques da Cunha é autor dos livros 'Crise e Utopia - O Dilema de Thomas More' (Vide Editorial, 2012) e 'A Poeira da Glória - Uma (Inesperada) História da Literatura Brasileira' (Record, 2015); Pós-doutorando pela FGV-EAESP 

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