Antidote Films
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Livro analisa as origens e as características do humor judaico, de Groucho Marx a Woody Allen

Como a ancestral cultura judaica sente uma atração irresistível pela diferença, pela incongruência e pela dubiedade, ela se torna um campo propício para o exercício do humor, segundo a estudiosa Devorah Baum

Elias Thomé Saliba*, Especial para o Estadão

11 de setembro de 2021 | 15h00

É mais fácil entender as piadas do que estudá-las, sem contar que todo intérprete é visto como tedioso e chato. Se isto é válido para as piadas em geral, mais ainda para anedotas judaicas, já que elas sofrem do fenômeno da superinterpretação: centenas de livros já foram escritos sobre o tema e o que eles mais fazem é colecionar milhares de piadas, repetindo os mesmos esquemas com personagens e contextos diferentes. Mas será que explicar não seja, afinal, a vocação da piada judaica? Esta é uma, entre as muitas questões levantadas pela estudiosa de literatura Devorah Baum em A Piada Judaica: Um Ensaio com Exemplos (Pouco Ensaio, Muitos Exemplos)

Como a ancestral cultura judaica sente uma atração irresistível pela diferença, pela incongruência e pela dubiedade, ela se torna um campo propício para o exercício do humor. Até o gracejo paradigmático de autodepreciação de Groucho Marx (“Não quero fazer parte de um clube que me aceita como sócio”) eleva e ao mesmo tempo rebaixa, num círculo paradoxal: não querer se associar a pessoas como ele revela certo grau de bom gosto que pessoas como ele raramente têm! Outra hipótese é que a piada parece compartilhar daquele mesmo elemento messiânico por meio do qual os judeus interpretam sua própria história: há sempre um outro jeito de ver as coisas, um outro aspecto a ser enfatizado e sempre, quase sempre, um outro futuro a aguardar. Muitos estudos sugerem ainda que esperar o inesperado que surge da piada pode ser a contrapartida dos judeus da diáspora terem adquirido a adaptabilidade e, no limite, a resiliência – ou aquela habilidade de mudar apenas o bastante para atender os últimos termos e condições.

Respostas inesperadas de rabinos, centenas de versões da mãe judaica e até mesmo versões rebaixadas da sexualidade, com piadas abaixo da cintura – tudo aparece na análise de Devorah: são farpas atiradas até aos seus entes próximos, mas sempre adocicadas com mel e cheias de um tortuoso afeto. Até mesmo velhas piadas são atualizadas e estendem seu prazo de validade, conforme os cenários do momento. Na Rússia soviética, Moishe arrumou um emprego que consistia em ficar atento aos sinais da chegada do Messias: “É um trabalho chato, e paga mal – mas pelo menos é um trabalho estável”, exclamou. Apesar da estabilidade, ele solicita um visto para ir para os EUA: “A fila para este visto é longa, muito longa”, diz o funcionário – “melhor você voltar daqui a 10 anos”. “Tudo bem”, diz Moishe, “de manhã ou de tarde?”. 

Claro que, mais do que outros povos, o humor judaico é predominantemente verbal: nas histórias e nas anedotas prevalece sempre a palavra e o caráter escorregadio da linguagem. Muitas das piadas judaicas são indícios de que nossas palavras é que estão rindo de nós. Nesse caso, a linguagem seria exatamente como o Deus que ri quando você conta a Ele seus planos – o Deus que, como insinuou Heinrich Heine, é cheio de ironia. “São estes os meus princípios! Se você não gostar, tenho outros.” – esta pilhéria de Groucho Marx parece sintetizar um dos esquemas mais repetidos da piada judaica: um texto oficial – a liturgia, a linguagem, a lei – e o subtexto – o gueto, o instinto de sobrevivência nas ruas, a adaptabilidade. Cansados de promessas históricas grandiosas, aquilo que você encontra muitas vezes nas piadas judaicas é uma capacidade de olhar além da ideologia vigente no momento e ver, atrás dela, a bruta realidade material.

Mas é um humor que vasculha outros arquivos da vida judaica que muitos tentaram esquecer. “Os judeus podem perfeitamente esquecer tudo, menos a culpa – porque a culpa atesta uma história que você pode negar o quanto quiser, mas que ainda aperta o seu pescoço”, escreve Devorah. A piada, neste caso, vira uma espécie de código para a lembrança e exerce quase uma função de anamnese. Mas é claro que isto não é válido para tudo: às vezes, a própria culpa reflete a interiorização de um antissemitismo, sobretudo naquelas piadas que culpam os judeus por tudo. A palavra ‘punchline’ (que é aquele solavanco mental, que está no desenlace de toda piada) com sua clara sugestão de que alguém, ao fim da piada, sairá meio nocauteado, é uma técnica piadista encontrada em todas as modalidades de humor. Mas o humor judaico é muito mais hábil na prática reversa da ‘punchline’: consegue sempre ver tanto o lado positivo das más notícias como o lado negativo das boas notícias, como no sutil despeito presente em típicas maldições iídiches, como “Tomara que você fique tão rico que o segundo marido da sua esposa nunca precise trabalhar na vida!”.

Mas tais características não seriam extensíveis ao humor de todos os povos e, não raro, uma contribuição da cultura judaica que se tornou universal? Basta verificar o antissemitismo internalizado de algumas anedotas e como uma cultura misógina transformou a comédia – incluindo a comédia judaica – em exclusivo clube masculino. Infelizmente ninguém nunca ouviu falar de improváveis “Irmãs Marx”. A autora mostra como as comediantes judias fazem mais do que apenas dar golpes baixos onde sabem que vai doer. Elas também usam suas apresentações para criticar os estratagemas da comédia centrada no homem. Como Cathy Ladman, Wendy Liebman e tantas outras. Wendy não era nada sutil nas suas alfinetadas, do tipo “Minha mãe sempre diz: não se case por dinheiro, divorcie-se por dinheiro”. Ou, mais recentemente, Lena Dunham: “Com o tempo, minha fé em muitas coisas vacilou: no casamento, na vida após a morte, em Woody Allen”.

Saul Bellow, escreveu que “nas histórias judaicas, o riso e o tremor estão tão curiosamente misturados que não é fácil determinar a relação entre os dois”. Pois o limiar entre um riso emancipador e a schadenfreude (vocábulo alemão intraduzível que designa numa única palavra o prazer risonho com a desgraça alheia), que é o tipo mais degenerado de comédia, é muito estreito. Neste ponto o humor judaico não se afasta muito de outras tradições universais. O riso pode tanto formar um elo entre as pessoas quanto estabelecer limites: o oposto de lidar com a própria dor e reconhecer as próprias fraquezas é infligir dor aos outros e zombar de seus supostos defeitos: é o que chamamos de abuso cômico. Já na tradição do humorismo judaico distanciado, que é aquele que ocorre muitas décadas após a tragédia do Holocausto, é possível tentar, ao menos distinguir entre as piadas de fundo catártico daquelas outras, mais próximas da catexia. (A recepção catártica é mais conhecida como “teoria do alívio”; já a recepção catéxica é o contrário: é o riso que cultiva o stress emocional, a exasperação dos impulsos emocionais e sua canalização para algum tipo de solução anárquica). É o riso trêmulo. Nos dois casos, o humor trabalha num nível abaixo da consciência, provocando quase sempre emoções de forma muito mais eficaz: neste tipo de piada nossa consciência voa abaixo do radar, aumentando nossa energia emocional, quase sempre de forma imperceptível. Imperceptível porque ainda e sempre a piada permanece ligada à diversão – é o divertimento que cobre a piada com uma espécie de manto protetor, revestindo de opacidade os códigos humorísticos de uma sociedade. 

Devorah concluiu seu livro antes da pandemia mundial, mas alguns exemplos podem ser transferidos para nossa época. Aharon Appelfeld, sobrevivente do Holocausto e romancista, descreve como logo depois da 2.ª Guerra as vítimas dos campos de concentração só conseguiam falar diretamente de suas experiências uns com os outros por meio de grotescas performances cômicas. Em vez de pensar na comédia como tragédia mais tempo, ele verificou que a comédia era a linguagem que vinha instintivamente primeiro – talvez por ser o único gênero que reconhecia a pura impossibilidade de representar aquilo que as vítimas tinham vivido. Como em Desconstruindo Harry (Deconstructing Harry, 1997), de Woody Allen, em diálogos em que nem sempre dá para dizer que é piada, pois o desvio da fala séria é muito sutil: 

– Burt: Você por acaso se importa com o Holocausto? Ou você acha que ele nunca aconteceu? 

– Harry: Não apenas sei que perdemos seis milhões, como ainda acho assustador que os recordes existam para serem quebrados. 

Aqui, o humor não se relaciona com o riso; a tirada apenas provoca cócegas no cérebro ao fornecer refrigério efêmero para a nossa dissonância cognitiva em face do absurdo da tragédia – e humor vira um processo de resolução de conflitos. 

Estratégia de memória, esperar o inesperado, orgulho da autodepreciação, mais ironia menos sarcasmo – em síntese, na história do humor todas estas características da piada judaica acabaram incorporadas ao riso universal. Freud, em famoso estudo sobre o chiste, observa que “rir das mesmas piadas é um indício de profunda conformidade psíquica”: se duas pessoas ou dois povos são capazes de rir juntos, não seria possível que eles também fizessem outras coisas juntos? O sonho é esse, mas parece que na atualidade caminhamos em sentido contrário. Afinal como escreveu o judeu palestino Sayed Kashua, em sua coluna humorística no jornal israelense Haaretz: “Para que haja humor é preciso que haja esperança”.

*ELIAS THOMÉ SALIBA É HISTORIADOR, PROFESSOR TITULAR DA USP E AUTOR, ENTRE OUTROS LIVROS, DE ‘CROCODILOS, SATÍRICOS E HUMORISTAS INVOLUNTÁRIOS: ENSAIOS DE HISTÓRIA CULTURAL DO HUMOR’ (EDITORA INTERMEIOS) 

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