Vasily Fedosenko/Reuters
Vasily Fedosenko/Reuters

Livro analisa como a ascensão de Stalin previu a carnificina de seu regime

O historiador Ronald Grigor Suny tenta explicar por que uma revolução comprometida com a emancipação humana acabou em ditadura e terror

Robert Service*, Especial para The Washington Post

07 de novembro de 2020 | 16h00

Os ditadores são sensíveis às biografias escritas sobre eles. Joseph Stalin, o governante da União Soviética desde o final dos anos 1920 até sua morte em 1953, não foi exceção. Depois de encomendar uma obra oficial em 1938, ele editou pesadamente o conteúdo. Aqueles que foram selecionados para o projeto tiveram que produzir um relato livre de imperfeições. Ele encontrou falhas no texto em todas as fases, preenchendo a vida dessas pessoas com o pavor de serem despachadas para o Gulag.

Suspeita e vanglória, como mostra Ronald Grigor Suny, estiveram presentes desde o início na abordagem de Stalin à política. Suny, um distinto historiador soviético, tem trabalhado em Stalin: Passage to Revolution [Stalin: Passagem para a Revolução, em tradução livre] por tantos anos quanto o ditador esteve no poder. Seu livro de mais de 800 páginas é uma biografia pela metade, sendo limitada aos anos até a revolução de outubro de 1917 em Petrogrado. O objetivo é rastrear como um menino da classe trabalhadora da Geórgia no Império Russo atingiu o auge do poder na segunda metade de sua vida, quando se sobressaiu sobre a política soviética e se tornou um dos autocratas mais sanguinários da história mundial - e para explicar "por que uma revolução comprometida com a emancipação humana acabou em ditadura e terror."

A imagem amplamente aceita de Stalin foi pintada pela primeira vez por seus inimigos. Leon Trotsky, que foi assassinado no México em 1940 por um agente soviético do NKVD, o descreveu como sem talento, um idiota mal educado, um comunista que não acreditava em nenhuma ideologia - nem no comunismo. Trotsky afirmou que Stalin como governante era simplesmente um porta-voz da opressiva burocracia estatal.

Suny, como a maioria dos que escreveram a respeito de Stalin nas últimas três décadas ou mais, encontra lacunas nessa abordagem antiga. Stalin foi um aluno brilhante que se saiu bem na escola primária. Depois de abandonar seu treinamento como padre, ele passou o resto de sua vida lendo vorazmente. Ele foi um intelectual autodidata que veio a aderir aos preceitos do marxismo como Vladimir Lenin os interpretou. Como bolchevique clandestino, desenvolveu habilidades como escritor, organizador e líder. Antes de 1917, ele não tinha medo de expressar suas opiniões sobre as grandes questões da estratégia revolucionária. Depois que os bolcheviques tomaram o poder, ele mostrou que podia colocar suas palavras em prática. Stalin não era um mero repetidor de tarefas.

A força do livro não está em qualquer análise ampla e inovadora, mas na escavação de episódios importantes dos primeiros anos. Acima de tudo, Suny conhece a Geórgia. (Suas fontes estão principalmente na língua russa, mas muitas delas são reveladas pela primeira vez.) Stalin, o autor demonstra, foi espancado não por seu pai alcoólatra, mas por sua mãe beata, Keké, que queria impor a ele a ambição de construir uma vida melhor para si mesmo. Suny também descreve implacavelmente a sucessão de comitês do partido aos quais Stalin se juntou enquanto subia na hierarquia marxista russa. Era uma vida perigosa. Nenhum revolucionário poderia ter certeza se alguém era um verdadeiro camarada ou um informante da polícia. Prisões e períodos de exílio eram destinos comuns.

O que tirei de "Passage to Revolution" - e concordo com a ideia - é que o jovem Stalin era um otimista raivoso. Ele dedicou seu tempo ao projeto marxista quando poucos imaginavam que os bolcheviques de Lenin chegariam ao poder. Ele poderia ter se tornado um padre ortodoxo ou continuado como integrante da equipe do observatório meteorológico da Geórgia, mas, em vez disso, ele canalizou sua ambição para a causa da revolução.

Infelizmente, os capítulos finais do livro reproduzem um relato cansado de Stalin em 1917. Suny quer julgá-lo principalmente por sua disposição de reconhecer a genialidade das políticas de Lenin após seu retorno da Suíça em abril daquele ano. Que Lenin liderou uma tomada de poder com sucesso, não há dúvida. É igualmente inegável que Lenin fez mais do que qualquer um para fazer com que os bolcheviques se concentrassem em remover o governo provisório que governou após a queda da dinastia Romanov na revolução de fevereiro. Mas Lenin teve que aprender lições importantes antes de se tornar um líder partidário eficaz. Ele voltou do exterior lançando ideias malucas em relação à conveniência de uma guerra civil europeia e uma ditadura do proletariado que eram impopulares entre os trabalhadores russos. Stalin foi um dos líderes do partido que fez Lenin moderar sua retórica.

Além disso, Stalin sempre estivera à frente de Lenin ao explicar que os bolcheviques nunca colocariam o campesinato do seu lado a menos que eles prometessem deixá-los assumir todas as terras agrícolas da maneira que quisessem. Lenin demorou meses em 1917 para aceitar essa hipótese. A parceria política entre Lenin e Stalin foi uma das mais importantes do século 20, mas o livro de Suny falha em avaliar isso.

Nem Lenin nem Stalin exerciam o poder antes da revolução de outubro de 1917 - e a questão sem resposta é por que Stalin, depois de ascender ao ápice da liderança do partido na década de 1920, viria a atordoar a União Soviética com sua inclinação para a carnificina humana. A primeira metade da vida de Stalin nos permite prever o que todos sabemos que virá a seguir? Suny é um cético. Ele rejeita as tentativas de analisar psicologicamente de modo excessivo o tema, embora admita que ele supostamente foi excessivamente antissocial em muitos de seus traços. Ele ressalta que a Geórgia foi um caldeirão de violência no início do século XX, mas argumenta que isso não é suficiente para explicar a passagem para o Grande Expurgo.

Seu livro robusto e exigente enfatiza os efeitos das circunstâncias na mudança que transformaram Stalin e a Rússia em um vórtice de revolução e guerra civil. Suny deixa sem explicação o mistério de por que Stalin, uma vez que alcançou o poder supremo, continuou com a matança em uma escala que quase chega a ser inacreditável. / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

*Robert Service faz parte da Instituição Hoover e é autor de "Kremlin Winter: Russia and the Second Coming of Vladimir Putin".

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