Les Films Séville
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Livro analisa elaboração do feminino no cinema e na psicanálise

'De Menina a Mulher' foi escrito pela psicanalista Malvine Zalcberg, que aborda filmes como 'Mommy' e 'Cisne Negro'

Amanda Mont’Alvão Veloso, Especial para o Estado

21 de setembro de 2019 | 16h00

Indagado por cientistas, artistas e pelos meros mortais que somos, o saber sobre o feminino ainda levanta dissensos e perplexidades. O que Freud declarou como enigma no começo do século 20 alimenta a consistência e o empreendimento científico da psicanalista Malvine Zalcberg no livro De Menina a Mulher: Cenas da Elaboração da Feminilidade no Cinema e na Psicanálise (Edições de Janeiro). Para elucidar essa transformação e ilustrar os efeitos da relação mãe e filha, a professora adjunta da Universidade do Estado do Rio de Janeiro recorre a um contemporâneo da psicanálise, o cinema. Filmes como Mommy, Cidade dos Sonhos, Juno, Cisne Negro e Como Nossos Pais emprestam seus enredos e potencial imaginário aos comentários teóricos apresentados na publicação. O Aliás conversou com Zalcberg sobre as narrativas ilimitadas e singulares do feminino. 

Como é a transformação de uma menina em mulher e qual é o papel do olhar da mãe?crianças, bem pequenas ainda, são confrontadas com a visão da diferença dos sexos e isso lhes provoca perplexidade: “Por que tem isso aqui e não tem acolá?” Para fazer face a tal enigma da natureza, cada sexo formula suas próprias teorias infantis. Embora, como diz Freud, estas teorias infantis, primárias, sejam falsas, são também geniais, porque trazem alguma pacificação – mais ao menino que à menina. Este, graças à presença visível de um órgão em seu corpo, encontra nele apoio para construir uma identificação: “Tenho, portanto, sou” (um menino, futuro homem). A menina no primeiro momento, vive seu corpo como marcado de uma falta (imaginária, claro), uma crença que não demora a superar. Mas fica a marca indelével que a ideia de falta deixou em seu inconsciente: não a de um órgão visível como o tem o menino, mas a ausência de definição de identidade feminina que esta falta traz: “Não tenho, portanto, não sou”. Como, então, saber “o que é ser mulher” a partir deste corpo? A menina espera a resposta da mãe, a quem atribui um saber sobre a feminilidade. Cabe à mãe (desejar) acolher a menina no universo da feminilidade, com seu olhar, seus gestos e suas palavras. 

Há diferenças na construção desta feminilidade na transexualidade?

Abordo esta questão a partir de uma premissa genérica: a constituição da feminilidade é um percurso bem delicado. Perplexa ante a visão de seu corpo e no qual pensa que falta algo imaginariamente, a menina pergunta “mãe, como é ter este corpo?”. A resposta materna à pergunta depende de como ela mesma aprendeu a lidar com seu corpo – se ela mesma “gosta de ser mulher”. Se este for o caso, ela será uma mãe que gostará ou mesmo desejará ter uma filha. Corresponder ao desejo da mãe é o primeiro desejo de toda criança e ainda mais, de uma menina que tanto depende dela para se constituir como mulher. O ponto importante aqui é que a menina cujo corpo (feminino) é bem aceito pela mãe (e, de preferência, também pelo pai) se “entende” bem com seu corpo. Suas dúvidas se situarão – e é o caso da enorme maioria das mulheres – num outro patamar: como, com este corpo, “ser mulher?” Na transexualidade, a questão parece passar por outros caminhos. É preciso lembrar que só se poder abordar qualquer vivência transexual como uma experiência singular, caso a caso. Situando-se nas encruzilhadas da cultura e de seus efeitos sobre nossa vivência da sexualidade, a transexualidade é uma experiência subjetiva. Definir-se transexual faz parte de um enredo único cujo início se encontra, na verdade, nas primeiras trocas com um “outro” que o acolhe ao nascer. Testemunhos de “já nasci assim”, ouvidos com frequência em nossos dias, devem ser submetidos a alguma reflexão porque ninguém se “lembra” dos primeiros momentos de vida. O inconsciente ainda não está formado para fazer registros destes momentos inaugurais; deles só permanecem “traços”, mas que acabam tendo fundamental importância para o sujeito na medida em que produzem efeitos duradouros em sua vida. Ter sido “desejado” por mãe ou pai com um sexo diferente do que efetivamente se nasceu (sem que eles mesmos se dessem conta disso) pode pesar muito no seu destino. Em muitos casos, a “inconformidade” com o próprio corpo tem sua origem neste ponto – a mãe ou pai que inconscientemente “prefeririam” uma menina a um menino – a resultar na “inconformidade” com seu próprio corpo na futura trans. Como não buscar este corpo ideal percebido no olhar da mãe ou do pai? Ouvir uma declaração do teor “precisei de muito tempo para encontrar uma forma de viver em paz com meu corpo” indica o quanto cada caso de conformidade (ou não) com o próprio corpo precisa e merece ser pensado. Isso nos faz falar mais de feminilidades do que de feminilidade. 

Como se dá a rivalidade entre mãe e filha e quais caminhos podem levar a uma relação menos conflituosa?

São bem complexos e delicados os fios que tecem a relação entre mãe e filha. De uma forma geral, a filha, ao desenvolver uma relação mesclada de dependência e amor à mãe, “cola” nela, esperando obter, sobretudo, uma resposta sobre seu ser feminino: “o que é ser mulher”? Por sua vez, a mãe, ao se encantar com a menininha doce, meiga, obediente e profundamente apaixonada por ela, “cola” na filha. Difícil encontrar um vínculo tão idílico quanto o que entrelaça mãe e filha nos primeiros tempos. A grande questão entre elas costuma aparecer na adolescência quando a filha, após ter esperado respostas da mãe sobre seu ser feminino – e constatar que ela não lhe pode transmitir a essência da feminilidade, simplesmente porque tal essência não existe –, compreende que deve costurar outros vínculos, favorecer outros encontros. Depois de uma relação muito próxima, o grande desafio para ambas é encontrarem uma relação “menos próxima” para permitir que a filha siga um caminho mais pessoal, único. É um momento de confronto difícil para a filha que deseja (e teme) nele se aventurar, mas, principalmente para a mãe que acreditava poder manter-se presente na vida da filha com a mesma intensidade. Por isso, Freud dizia que o grande problema da mulher era o de “separar-se” de sua mãe. Sem esta “separação” – de seus corpos, desejos e destinos – , não há possibilidade de a menina tornar-se mulher. 

Freud introduziu a questão do feminino em sua obra e se referiu às mulheres como um enigma. Como Lacan e outros pós-freudianos deram continuidade às investigações sobre o tema?

Dora, a primeira histérica de cuja análise Freud escreveu o relato, rompeu o tratamento após duas sessões: “O senhor sabe que é a última vez que eu venho?” – anunciou ela, afastando-se com um sorriso de Gioconda nos lábios, marcado de enigma e de desafio. Freud se lançaria, então, durante longos anos, em busca de um relato que desse acesso ao mistério feminino, vivido por ele como tão impenetrável que chegou a dizer que a mulher era um “continente negro”, antes de compreender que nem tudo sobre a mulher pode mesmo ser dito. As palavras que encerram sua conferência sobre a feminilidade atestam esta constatação: “Se desejarem saber mais a respeito da feminilidade, indaguem da própria experiência, ou dirijam-se aos poetas, ou aguardem até que a ciência possa dar-lhe informações mais profundas e mais coerentes”. Coube a Lacan trazer importante contribuição para a compreensão do “continente negro” freudiano, principalmente a partir dos anos 1970. Apesar de sua afirmação “a mulher não existe” ter causado choque no meio intelectual na época, ela trouxe à tona uma verdade sobre o mundo feminino. Não que a mulher enquanto tal não exista; o que não existe é uma categoria – algo que englobe todas as mulheres em um todo homogêneo – pela simples e boa razão de que não existe uma forma de ser mulher, mas uma forma de cada mulher ser. Isso porque, ao descobrir na relação com a mãe que não há mesmo uma definição clara da identidade feminina, a menina compreende que ela deve inventar uma forma de ser mulher. O que descortina um modo de existência ao feminino diferente do modo masculino, vivido de maneira singular: as mulheres são todas diferentes, todas obras de sua própria invenção. 

Como a senhora avalia a maternidade contemporânea, frequentemente sujeita a cobranças de versatilidade, perfeição e benevolência?

A pergunta “quem sou eu como mulher?” retorna com frequência no psiquismo de muitas. Para dar mais consistência ao seu ser, a mulher procura uma realização. Por muito tempo, esta realização se dava única e exclusivamente pela maternidade, sem outras escolhas possíveis. Não mais, graças às conquistas dos movimentos feministas. A questão hoje é muito mais quais serão as escolhas que a mulher fará dentre as que lhe são facultadas para elaborar, entre outros aspectos, sua feminilidade. Se algumas, mesmo bem qualificadas para exercerem uma profissão, questionam a centralidade do trabalho em suas vidas, não é por não reconhecerem a sua importância; só não mais o encaram tanto como única (ou principal) forma de realização como mulher. Tanto é que quando tudo parecia indicar que a tendência nos dias de hoje seria a de mulheres cada vez mais adiarem planos de maternidade – ter poucos filhos ou decidir não tê-los, visando favorecer projetos profissionais ou pessoais –, somos surpreendidos com o oposto. Há um ressurgimento da figura de mulher voltando-se para a família. Em entrevista à Vanity Fair, Angelina Jolie declarou ter colocado a produção de filmes um pouco de lado “para se tornar uma mãe melhor”. E ela diz que se sente “mais mulher” por isso. Para se assegurar de suas escolhas, a mãe pode sentir a necessidade de ser constantemente elogiada pelo seu desempenho à perfeição nesse papel. É na perfeição que reside o problema. Estimuladas por esse espírito de perfeição, muitas mulheres acreditam poder recorrer a soluções ideais para educar os filhos. Como se essas soluções existissem! Aspirar a ser a mãe perfeita de filhos perfeitos, eis a receita de base para transformar uma mulher em escrava de um ideal inacessível.

Amanda Mont'Alvão Veloso é psicanalista, jornalista e mestranda em Linguística Aplicada e Estudos da Linguagem

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