Laurent Philippe
Laurent Philippe

Livro analisa influência do Brasil para a coreógrafa Pina Bausch

Morta há dez anos, coreógrafa alemã usou o País de inspiração para espetáculos como 'Água' e 'Valsas'

Dirce Waltrick do Amarante*, Especial para o Estado

27 de julho de 2019 | 16h00

O livro Pina Bausch, do professor da Pontifícia Universidade Católica (PUC/SP) Fabio Cypriano, que havia sido publicado pela extinta Cosac & Naify, em 2005, ganha agora uma reedição pela Sesi-SP. Cypriano, que teve a oportunidade de acompanhar de perto o trabalho de Pina Bausch (1940-2009) de 1997 a 2000, faz um tributo à sua obra, enfatizando, contudo, o espetáculo Água, inspirado no Brasil.

No texto de introdução, assinado por Robert Wilson, o diretor teatral afirma que “a influência da obra de Pina será uma das poucas lembranças da arte do século 20”. No século 21, Pina Bausch já é, certamente, um clássico. Seus espetáculos ao redor do mundo estão sempre lotados; ainda assim, diria, ela permanece restrita a um público específico. 

Para a coreógrafa alemã, a dança vai muito além de um número particular de ideias e de técnicas específicas. Segundo José Gil, a dança de Bausch “serpenteia entre todos os gêneros de espetáculos (ou performances). Para uma só peça, pode convocar elementos provenientes do ballet clássico, da dança moderna, do music-hall, do circo, da dança ‘étnica’, do teatro de rua, da festa de salão ou da festa de feira. É uma espécie de patchworks”, composto muitas vezes de perguntas que ela faz aos seus dançarinos e da resposta, seja falada, seja gestual, que eles lhe dão.

Pina Bausch revolucionou e redefiniu noções ao reutilizar o conceito de dança-teatro, já em voga nos anos 1920, que incorporava elementos do teatro, como a fala, à dança. Em Água, por exemplo, os dançarinos, em determinado momento do espetáculo, proferem pequenos textos ou entram em grupo falando palavras em língua portuguesa no diminutivo, tão típico no português do Brasil. 

A propósito da influência do Brasil na obra de Pina, Cypriano lembra que depois de ter se apresentado em algumas capitais brasileiras no ano de 1980, a música local passou a fazer parte da trilha sonora de seus espetáculos. Sobre Valsas, concebida em 1982, a artista teria dito que a considerava “uma peça sobre o Brasil. Ela foi criada logo depois da nossa turnê pelo país, a música brasileira foi a grande inspiração”. Nela, Pina reuniu choros e valsas de, por exemplo, Zequinha de Abreu, Altamiro Carrilho, Lacy Martins e Aldo Cabral. Outra peça do mesmo ano, Cravos, também incorporou a música brasileira à trilha sonora: Noel Rosa, João de Barro etc.

A partir daí, a música brasileira passou a dar o “ritmo” de suas coreografias. No filme Pina (2011), dirigido por Wim Wenders, foram selecionadas algumas cenas de suas peças, e não ficou de fora uma embalada por Leãozinho, de Caetano Veloso.

As viagens foram essenciais para Bausch. Segundo Robert Wilson, ela “teve a sorte de viajar e conhecer diferentes culturas e estéticas, as quais tem incorporado ao seu trabalho, enriquecendo-o e tornando sua linguagem cada vez mais universal. É justamente essa diversidade unificada que creio ser a maior contribuição de Pina ao mundo das artes cênicas contemporâneas”. Em tempos de fechamento de fronteiras e de nacionalismos exacerbados, a obra de Pina é um porto seguro, que acolhe a todos e dá boas-vindas aos estrangeiros, não só ao incorporar elementos de diversas culturas, mas por acolher bailarinos de diferentes países, entre os quais do Brasil: Regina Nascimento e Ruth Amarante, por exemplo.

Pina Bausch tinha um projeto chamado “coreo-geo-grafias”, iniciado formalmente, como afirma Cypriano, em 1985, quando foi convidada pelo diretor artístico do Teatro de Roma a usar a cidade como tema de uma peça. Outras cidades foram escolhidas pela coreógrafa para a criação de seus espetáculos: cidades sempre ao sul da Alemanha, ou na Ásia, ou em “culturas periféricas ao sistema da Europa Central”. 

Em seu estudo, Cypriano cita a crítica Judith Mackrell, a qual afirmou em um texto para o jornal inglês The Guardian que “viajar para o sul tem dado luz de forma inquestionável ao triste mundo teutônico, com o qual Bausch ganhou notoriedade”.

Água foi a única peça dedicada a um só país, o Brasil, e recebeu esse título posteriormente à sua estreia, em maio de 2001, no Teatro de Ópera de Wuppertal, quando foi identificada apenas como “a peça brasileira. O título surgiu em outubro do mesmo ano, durante um festival em comemoração aos 28 anos da Companhia. 

A peça brasileira de Pina mostra um país com uma cultura diversificada que incorpora os mais diversos elementos em seu dia a dia: ao lado da natureza, ainda exuberante, luzinhas de Natal (época em que a coreógrafa viajou para a Bahia), confrontando o Kitsch com o sublime; e junta-se a essas imagens o misticismo brasileiro, as forças sagradas do candomblé, o transe... Um país múltiplo, enfim. 

Acompanham os textos de Pina Basch fotografias coloridas e em preto e branco, que ocupam na maioria das vezes toda a página, do belga Maarten Vanden Abeele.

*DIRCE WALTRICK DO AMARANTE PROFESSORA DA UFSC. AUTORA, ENTRE OUTROS, DE ‘CENAS DO TEATRO MODERNO E CONTEMPORÂNEO’

Tudo o que sabemos sobre:
Pina Bauschdança

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.