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Livro analisa o prazer que sentimos com a desgraça alheia

A perversa sensação tem nome: Schadenfreude

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

01 Dezembro 2018 | 16h00

Se você for ao site da Amazon e clicar a palavra “Schadenfreude”, encontrará mais de 100 livros com ela no título. Curiosamente, quase nenhum escrito ou publicado em alemão, a maior parte em inglês, alguns em italiano e francês. Faz sentido. Embora formado por dois vocábulos de germânica matriz, schaden (infortúnio, desgraça) e freude (prazer, regozijo), tornou-se uma palavra universal, que os dicionários de alemão, curiosamente, desprezam. Já é tempo de lhe tirar as aspas ou o grifo. Schadenfreude pertence a todas as línguas. 

Inventaram-na no Reino Unido, no século 19; ao menos foi lá que ela fez sua primeira aparição, num livro de filologia do arcebispo e poeta dublinense Richard Chenevix Trench, para quem, aliás, a simples existência dela, “tão fértil em maldade”, poderia expor a humanidade a contínuos dissabores. 

Faz tempo que jornais e revistas inglesas e americanas a estampam sem maiores explicações, atribuindo-lhe a mesma franquia há décadas dispensada a “lied”, “leitmotiv” e “zeitgeist”, que já nem mais são grafadas com a letra capitular original. Para a maioria dos brasileiros, schadenfreude ainda requer explicação, exigência que desconfio temporária dada a universalidade do sentimento por ela expressado e a frequência com que a essa espécie peculiar de catarse nos rendemos, desde os idos bíblicos. O Livro de Obadias, o menor do Velho Testamento, é uma antologia de schadenfreude entre irmãos. 

Quem nunca se regozijou com um revés alheio? Quem não se deleita com o infortúnio de um desafeto e a derrota de um adversário contra o qual nem estávamos jogando? 

Que outro sentimento melhor expressa o que nos invade a alma ao depararmos com uma celebridade arrogante ou um político desprezível cometendo gafes em público ou metido em algum escândalo? Ou quando um bandido vacila e acaba preso durante o assalto? Não me diga que você não abriu um sorrisinho matreiro ao saber que a exibicionista Kim Kardashian tivera todas suas joias cafonas roubadas em Paris? 

Muita gente vibrou, dias atrás, ao ser informado que o telegaiato Danilo Gentili fora condenado a indenizar o deputado Marcelo Freixo por danos morais cometidos no ano passado — um legítimo schandenfreude suprapartidário.

Quando, há duas semanas, o procurador Guilherme Schelb, então cotado para o ministério da Educação do próximo governo, grafou xadrez com esse (xadres) numa postagem no Twitter, as redes sociais, talvez a maior correia de transmissão de schadenfreude inventada pelo homem, armaram um tremendo banzé.

Quem nunca riu de um tombo, de um tropeção, de uma escorregadela numa casca de banana? Chaplin, Keaton e outros gênios da comédia muda souberam explorar à perfeição o schandenfreude, também a razão de ser das pegadinhas da Câmera Indiscreta e das video cacetadas. Atualizem o velho ditado: o schadenfreude do palhaço é ver o circo pegar fogo.

Só havia lido um ensaio sobre o que Nietzsche definiu como “a vingança do impotente” — When Bad Things Happen To Other People, de John Portmann —, publicado há quase 20 anos. O segundo a ilustrar minha ignorância saiu no início da semana retrasada: Schadenfreude—The Joy of Another’s Misfortune, da historiadora de emoções britânica Tiffany Watt Smith. Editado pela Little, Brown Spark, tem apenas 176 páginas, que a gente nem sente passar “folheando-as” digitalmente no kindle (por 4 dólares e 31 centavos). Na capa, uma simbólica casca de banana.

Antes de entrar no “deleite provocado pelas escorregadelas e desgraças dos outros” e nele aprofundar-se, Smith destaca, à guisa de epígrafes, dois casos de schadenfreude que considera irresistíveis: o patrão odiento que não percebe ter-se apresentado numa carta comercial como “chefe de Serviços Púbicos” (em vez de Públicos), e a nadadora arrogante que ergue o braço errado no meio de uma exibição de nado sincronizado. 

Ao discutir a “freude” do ponto de vista moral, a historiadora confronta as diferentes posturas assumidas por filósofos (Schopenhauer a considerava “uma emoção diabólica”, fruto de “uma coração perverso”, que corrompe a alma, e Nietzsche achava preferível curtir o sofrimento de um desafeto a fazê-lo sofrer), e divaga sobre como o ódio à hipocrisia e nosso “instinto de justiça” contribuem para humanizar a satisfação íntima pelo desconforto alheio. 

“As desgraças dos outros sabem a mel”, diz um ditado japonês. No atol Nissan, nas ilhas Papua (Nova Guiné), rir das agruras de quem não gostamos ou consideramos merecedor de algum tipo de punição possui até uma expressão local: “banbanam”. 

Satisfação motivada por tragédias, desgraças, sofrimentos físicos e morte pertence ao campo do sadismo, não do schadenfreude, distingue Smith. Para ela, só vilões se deliciam, sem remorso, com agressões violentas e torturas. Os vilões e as figuras de desenho animado, acrescente-se. 

Por falar em desenho animado, a falsa palavra alemã que em algumas outras línguas dispõe de sinônimos razoáveis (joiemaligne, em francês; skadefryd, em dinamarquês; leedvermaak, em holandês; zloradstvo, em russo; epichairekakia, em grego; além do banbanam papuásio), mas sem o mesmo prestígio internacional, teve sua maior exposição pública na série Os Simpsons. A certa altura da série, Homer Simpson torcia para que a loja de Ned Flanders, seu vizinho caretão, ficasse às moscas e ele fosse à falência. 

Homer se arrependia da praga rogada antes que ela se concretizasse, atitude de que a autora do livro se aproveita para discutir os limites de nossas imprecações e do gozo por elas eventualmente proporcionado. Schadenfreude é uma das mais complexas emoções humanas. Memorize a palavra. Você precisará dela muitas vezes na vida.

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