Atsushi Nishijima/Paramount
Atsushi Nishijima/Paramount

Ex-líder estudantil e historiador compara os anos de 1968 e 2018

Sociólogo e ex-presidente do principal movimento estudantil da década de 1960 já escreveu mais de uma dezena de obras sobre o tema

Lúcia Guimarães, O Estado de S.Paulo

10 Março 2018 | 16h00
Atualizado 10 Março 2018 | 18h27

A Universidade de Columbia seria parada obrigatória num tour nostálgico de locais no cinquentenário de 1968, o ano mais traumático do pós-guerra nos Estados Unidos. Columbia foi palco de uma ocupação de estudantes que terminou, em abril daquele ano, com mais de 700 presos. Aos protestos contra a guerra no Vietnã, já então frequentes, haviam se juntado a reivindicações contra a segregação racial na universidade.

+++'Temos que repensar completamente a política para essa era', diz Thomas Friedman

Mas, numa recente tarde de sol gelada, com o ar quase estalando de tão seco, a caminhada pelo campus majestoso não evoca inquietação. A placidez do complexo arquitetônico do século 19, projetado para inspirar um espaço urbano da Renascença italiana, era interrompida apenas por uma pequena aglomeração de estudantes atentos a uma colega falando tão baixo que esta repórter não poderia ouvir sem se inserir no grupo.

+++Escritor sul-coreano Byung-Chul Han analisa o mundo atual em livro

No subsolo da lendária Escola de Jornalismo fundada em 1912 por Joseph Pulitzer, encontro o diretor do programa de doutorado, o sociólogo Todd Gitlin, testemunha e cronista do ano que não encontra descanso na história. Nos anos 1960, Gitlin foi presidente da principal organização estudantil que brotou do movimento New Left (Nova Esquerda), a Students for a Democratic Society (Estudantes por uma Sociedade Democrática). Ele é autor de 16 livros, entre eles, The Sixties: Years of Hope, Days of Rage (Os Anos 1960: Anos de Esperança, Dias de Fúria) e outros títulos nos quais examina o papel da mídia em promover e diluir movimentos sociais.

A eleição de Donald Trump, além de chocar conservadores tradicionais, provocou uma onda de perplexidade culpada entre a centro esquerda americana, a parte do espectro político que tem mais protagonismo cultural. Gitlin examinou o primeiro susto logo após a convenção republicana que consagrou o então candidato, em julho de 2016, e alertou para os que já comparavam seu desencanto a 1968. “Como não escreveu Tolstoi, os tempos caóticos são caóticos cada um à sua maneira,” comentou, no New York Times, parafraseado a abertura de Anna Karenina sobre a singularidade das famílias infelizes.

“1968 foi um ano maníaco depressivo,” lembra o sociólogo, depois de se desculpar pela mesa coberta de livros. Na correnteza de memórias que percorre a mídia americana, desde janeiro, discute-se qual o evento mais traumático. Seria a sangrenta ofensiva do Tet vietcongue, em 31 de janeiro, que demoliu a versão oficial sobre vitórias militares americanas no Vietnã? Seria o assassinato de do líder de direitos civis Martin Luther King em abril ou o do pré-candidato democrata Bobby Kennedy em junho? Gitlin, que chegou à conturbada convenção democrata de Chicago, em agosto de 1968, como correspondente de um tabloide de contracultura da Califórnia, está escrevendo um romance, A Oposição, em que espera reexaminar psicologicamente aquela era, sem compromisso com fatos. Um trecho do romance foi publicado em janeiro pela revista Smithsonian e apresenta um personagem vivendo o caos, a pancadaria e o racha da esquerda, na semana que consagrou o candidato Hubert Humphrey e ajudou a selar a vitória de Richard Nixon em novembro.

Todd Gitlin não acredita que 1968 tenha um ponto de virada, mas destaca um outro momento menos citado como marco daquele ano. A retirada da candidatura do então presidente Lyndon Johnson, que assumira com o assassinato de John Kennedy. Johnson era apontado nas pesquisas como o favorito do partido. No dia 31 de março, ele anunciou que não tentaria se reeleger, num gesto que Gitlin define como uma revelação: Johnson entendeu que era impossível manter a ilusão sobre o Vietnã. “Por quatro dias,” lembra Gitlin, “ficamos eufóricos com a admissão de fracasso na guerra.” No dia 4 de abril, Martin Luther King caiu morto com um tiro de fuzil na varanda de um hotel em Memphis, no Tennessee. “A atmosfera era de apocalipse,” ele recorda.

Sobre a evolução do significado de 1968, Gitlin admite o que considera um importante erro seu e de seus contemporâneos. “Nós subestimamos a longevidade da reação conservadora. Nós testemunhamos a retaliação a Bill Clinton, nos anos 1990, mas, depois da eleição de Barack Obama, nos iludimos de que tínhamos atravessado um marco. A corrente submersa se revelou mais forte, mais bem financiada e melhor organizada do que jamais pude imaginar.” E este fato, para ele, aumenta a ambiguidade do que vira como conquistas da sua geração. Gitlin se diz um pouco otimista com o nível de organização política que tem testemunhado no último ano, especialmente nos esforços para registrar eleitores jovens.

O autor aponta uma distinção importante entre 1968 e 2018. “Naquele tempo,” diz, “tínhamos maior confiança na capacidade da democracia americana de se auto-restaurar. Havia uma outra realidade econômica, não havia conflagração nacionalista anti-imigrantes. Hoje, espero ser surpreendido, pode acontecer qualquer coisa.” Mesmo a internacionalização dos protestos então e a rebelião autoritária e populista do momento no mundo exibem diferenças importantes para Gitlin. Os protagonistas de 1968 acreditavam, ainda que com ingenuidade, em um movimento de abertura social e combate à iniquidade. “Hoje,” avalia ele, “a aspiração desta nova ordem é erguer barreiras, formar um arquipélago de ilhas fortificadas. O desafio é imaginar alternativas para enfrentar esta visão.”

Mais conteúdo sobre:
Sociologia filosofia Historiador Maio de 68

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.