Livro aproxima sociólogo de pistas sobre o fim de sua mulher

Eu estava viajando quando soube que minha mulher, Maria Regina Marcondes Pinto, havia sido sequestrada pelas forças repressivas da ditadura militar argentina, com o dirigente político chileno Edgardo Enriquez, no dia 10 de abril de 1976, pouco tempo depois do golpe dirigido pelo general Videla - hoje em prisão domiciliar.

Emir Sader*, O Estado de S.Paulo

25 Abril 2009 | 23h59

A partir daquele momento, participei das múltiplas tentativas de localizá-los, com todas as dificuldades que os familiares de desaparecidos enfrentam. De negar que tivessem sido presos - primeira atitude na grande maioria dos casos, postura exportada pela ditadura brasileira para os regimes de terror congêneres na região -, passando por pistas falsas (teriam sido vistos em um campo de concentração no Chile, ou Maria Regina estaria internada em uma clínica psiquiátrica no centro de Santiago, que não existia), até situações como a do jovem militar argentino que veio ao Brasil vender informações sobre brasileiros desaparecidos em seu país. Este foi entrevistado por Maurício Dias para IstoÉ. Disse que todos tinham sido jogados no mar, nos "voos da morte", em que presos eram embarcados sedados, dizendo-se que iam ser transferidos para outro presídio, mas, na presença de um capelão das Forças Armadas, eram jogados no mar. Nada se confirmou.

Recentemente, me ligaram em Buenos Aires pedindo dados físicos sobre ela, para verificar se algum dos novos corpos encontrados corresponderia ao dela. Rumores sobre a morte de Edgardo - pouco verossímeis, na minha opinião - também surgiram no Chile, porém não incluíam nenhuma referência a Maria Regina, que, ao que tudo indica, foi presa com ele.

Fui convocado a depor por Baltasar Garzón (juiz espanhol que determinou a prisão de Augusto Pinochet em 1998), em Madri, no marco de suas investigações sobre a Operação Condor. Maria Regina é uma das 25 mil pessoas assassinadas pela ditadura militar argentina, várias ainda desaparecidas. Seu nome consta no mausoléu construído em frente a um dos mais terríveis locais de tortura, a Esma, Escola de Mecânica da Marinha argentina - hoje entregue pelo governo dos Kirchners a entidades de direitos humanos.

*Sociólogo, professor da USP e autor de América Latina e a

Globalização e A Nova Toupeira (ambos pela Boitempo, em 2009)

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